Águas Emendadas, artigo de Roberto Naime

 

Recorte de imagem do satélite Landsat demonstrando os efeitos da interferência humana no entorno da Estação Ecológica de Águas Emendadas.

 

[EcoDebate] O Brasil é um país continente e nada mais representativo do que a unidade de conservação ambiental de Águas Emendadas para simbolizar esta realidade. A estação ecológica de “Águas Emendadas”, localizada no planalto central do país registra bem esta dimensão. Lá estão rios que se dirigem para norte e para sul e integram duas das maiores bacias hidrográficas continentais, a Bacia do Rio da Prata e a Bacia Amazônica.

Situada próximo a cidade-satélite de Planaltina no Distrito Federal, há cerca de 50km da cidade de Brasília, esta unidade se encontra sob gestão do Instituto Brasília Ambiental (IBRAM), sendo submetida a um regime de visitação controlada. A unidade tem área de 10.547 hectares, sendo destinada a proteção do ambiente natural, realização de pesquisas básicas e aplicadas no campo da ecologia e à educação ambiental com ênfase nos aspectos conservacionistas.

Data do século XIX, dos registros realizados pela então comissão Cruls, as primeiras menções as características da área. Luis Cruls comandou missão exploradora do planalto central e as manifestações datam do ano de 1.892. Um século depois, a UNESCO registra e declara a gleba como área nuclear da Reserva da Biosfera do Cerrado.

A própria denominação da unidade de conservação tem seu nome inspirado no fenômeno hidrográfico de dispersão das águas, que fluem de nascentes em veredas comuns, se dirigindo para lados opostos. Nos chapadões com pouca declividade que caracterizam a região centro-oeste do país, o escoamento das águas em algumas regiões não são claramente determinados pelo relevo ou a geomorfologia local.

Por isto as águas são “emendadas”. Na grande chapada que se instalam as vertentes criadoras dos cursos de água determinam que os fluidos que se dirigem para norte, em direção ao córrego Vereda grande, alimentem posteriormente ao rio Maranhão, que após desaguar na lagoa da barragem de Serra da Mesa, alimenta o rio Tocantins, que após se unir ao rio Araguaia deságua no oceano Atlântico na baía de Marajó, constituindo tributário da margem direita da bacia hidrográfica do rio Amazonas.

As águas que descem na direção sul das “Águas Emendadas”, constituem o córrego Brejinho, que se adiciona ao córrego Fumal, desaguando no denominado rio Pipiripau que conflui na direção da bacia hidrográfica do rio Mestre d’Armas. Depois chega no rio denominado São Bartolomeu, que integra a bacia hidrográfica do Rio Corumbá. As águas seguem deste curso de água em direção ao rio Parnaíba e este forma o rio Paraná, que deságua na bacia definida pelo estuário do rio da Prata, no extremo sul do continente sul-americano.

Não deixa de ser uma sensação indescritível estar pisando sobre uma área que abriga um fenômeno hidrológico tão espetacular que traz a sensação de englobar toda a geografia sul-americana a partir de uma gleba tão específica e tão singular e espetaculosa. Além das maravilhas e do colorido tão peculiar apresentado pelo bioma representativo dos cerrados brasileiros, com suas árvores de troncos retorcidos e raízes profundas, que se estendem também para espécies cactáceas próprias deste ecossistema. Também tão rico em espécies frutíferas e flores de colorido tão intenso e exuberante.

Neste local mais do que em qualquer outro, é sentida a sensação de habitar um país-continente, tamanha é a grandeza transmitida pela estação ecológica das “Águas Emendadas”, mesmo através de um simples fenômeno geográfico de natureza hidrológica, que resgata uma grande sensação de integridade e visão holística. Mais do que um resgate da idéia de preservação ambiental, a unidade ecológica transmite várias sensações integradoras que dominam o imaginário dos visitantes e trazem longos e prolongados efeitos.

Não é necessário utilizar figuras hiperbólicas de grande amplitude para expressar que este conjunto de propriedades físicas, aliado à condições biológicas de flora e fauna tão peculiares, transmite uma enorme sensação de responsabilidade manifestada pela sensação de união e de destinos interligados.

Evidentemente que cada indivíduo determinará expressão diferenciada deste contato peculiar, mas é inegável a grandiloquência emocional, que transcende realidades físicas demonstradas por estéticas inigualáveis no âmbito de expressões florísticas e nichos de representação faunística.

Além da promoção informativa sobre esta unidade de conservação, fica aqui expressa e manifestada a grandiosidade da inclusão deste sítio em todo e qualquer roteiro de visitação ou de viagens de turismo ou na porção de lazer de viagens profissionais.

Cada indivíduo deve experimentar e refletir com extrema autonomia sobre as sensações que seu íntimo desperta sobre as realidades cuidadosamente descritas, porque a opinião individual e as sensações causadas sempre serão únicas, permanentes e indescritíveis por mais que se busque conciliar e harmonizar as palavras.

O mais fácil e o mais verdadeiro seria intitular esta pequena dissertação como fenômeno indescritível de manifestação de grandeza e harmonia. Para perceber e vivenciar a questão socioambiental de forma positiva, era necessário que todas as pessoas vivenciassem este momento de grandeza, neste ou em outros lugares, conforme as características e as impressões próprias de cada indivíduo.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, 17/09/2015

Águas Emendadas, artigo de Roberto Naime, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/09/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/09/17/aguas-emendadas-artigo-de-roberto-naime/.


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4 comentários em “Águas Emendadas, artigo de Roberto Naime

  1. Dr. Roberto Naime, parabéns pelo texto.
    Aproveito para perguntar sobre a veracidade desta frase que li hoje: E, com alguma boa vontade, há quem afirme ainda que até o Rio São Francisco bebe daquelas águas, para se fortalecer e depois cortar meio Brasil até desaguar no Oceano Atlântico.
    As águas emendadas também abastecem a bacia do Rio São Francisco?

  2. Belo artigo! Como geólogo, há 45 anos vivendo em Goiás, suas palavras revolvem nossas recordações muito vivas de quando o cerrado ainda era incólume! As lavouras de então, desenvolvidas apenas nas áreas de terras férteis eram ilhas em meio à vegetação nativa. Com o advento de novas tecnologias geradas principalmente pela EMBRAPA, incentivos oficiais, aproveitamento dos calcários como corretivos, etc, o Cerrado se tornou grande celeiro de alimentos, e hoje o que restam são ilhas do mesmo, em meio ao mar de lavouras…
    As placas que se encontram hoje às margens das estradas dizendo “Proteja o Cerrado” são quase inócuas…
    Devemos, sim, fazer esforços possíveis para implantar políticas que favorecem os reflorestamentos de plantas nativas, muitas delas de alto valor comercial como baru, piqui, etc.

  3. Paulo Afonso, as águas emendadas acho que não abastecem o velho chico que nasce em minas gerais, mas as águas emendadas são emocionantes mesmo assim…

    Grande abs…

    RNaime

  4. Lincoln muito obrigado pelas palavras, tu complementou tudo que faltava…

    Como geólogo também, a natureza sempre me emociona antes de tudo…

    Grande abs…

    RNaime

Comentários encerrados.

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