COP21: Uma conferência extraordinária, conto de Laís Vitória Cunha de Aguiar

 

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[EcoDebate] Em uma fria tarde em Paris, um fenômeno é visto pelos cidadãos: os maiores pensadores do mundo estão a caminho da COP 21, em uma marcha que eles intitulam Marcha da Esperança.

As mídias mundiais correram para ver o fenômeno disseminado nas redes sociais, mas quando chegaram era tarde: todos haviam entrado na COP 21, afinal, quem iria barrar a entrada de daquelas personalidades?

O silêncio perpetuou-se na conferência com a entrada silenciosa dos fantasmas: todos queriam saber qual seria a próxima atitude dos desencarnados.

O ilustre morto mais recente, Nelson Mandela, tomou a iniciativa de ser o líder e falar por todos:

-Presidente; Vossas Excelências, Embaixadores junto à Organização das Nações Unidas; damas e cavalheiros, aqui estamos, há poucos passos de uma nova era: a do desenvolvimento sustentável. Meus colegas e eu nos fazemos presentes para relembrá-los dos motivos reais que os trouxeram até aqui, a luta pelo respeito ao meio ambiente, pela paz e erradicação da pobreza, entre tantos outros motivos. Em vida, nós lutamos pelos mesmos objetivos que trouxeram os senhores aqui, alguns como meu colega Gandhi, até morreram por esse objetivo. Não joguem pela janela a luta de todas as gerações antes de vocês por sentimentos tão vazios e líquidos como a ganância, a vida passa, mas não as lutas. Em cada um existe a semente da humanidade, sentimento que irá perseverar mesmo depois da morte. Não deixem para a próxima geração o que pode ser feito pela sua própria, façam com que seus netos tenham orgulho das suas atitudes, olhem para trás e vejam o mundo melhor que seus antepassados construíram para eles. O orgulho não fará com que recebam o que há de melhor em todas as dimensões: a gratidão. Recebi a graça da gratidão de todo um povo, e não há melhor sensação do que a do trabalho cumprido. Não permitam que as diferenças culturais, econômicas, os empeçam de construir um mundo sustentável, sem miséria e com respeito ao meio ambiente. Nós temos muitas línguas, mas apenas um mundo para todas elas.

Depois de muitos aplausos, alguns daqueles espíritos se dirigiram aos diálogos que os interessavam, outros foram conversar com os líderes, embaixadores e outros representantes. Eles se diziam Embaixadores do Além, e como embaixadores ninguém poderia contestar seus votos ou falas.

Aliás, ninguém teve coragem de fazer isso, afinal a situação apresentada era única, ninguém fazia a menor ideia de como agir, estavam pasmos.

Keynes até convocou uma reunião entre os embaixadores e economistas, que segundo ele necessitavam de um puxão de orelha.

– Anos atrás eu escrevi que ” desde os primeiros tempos de que temos o registro, volto a dizer há 2.000 anos antes de Cristo, até o início do século 18, não houve grande mudança no padrão de vida do homem médio que vivem em centros civilizados da Terra. Altos e baixos, certamente. Visitações de pragas, fome e guerra, intervalos de ouro, mas nenhuma mudança violenta progressiva. O ritmo lento de progresso ou falta de progresso deveu-se a duas razões, a notável ausência de melhorias técnicas importantes e ao fracasso da acumulação do capital. ” Também disse que a economia poderia crescer 4 a 8 vezes mais em relação a situação econômica da época. Nisso acertei, e agora existe uma sociedade com capital acumulado e melhoras tecnológicas, mas vocês precisam ter coragem para entrar em um novo tempo, do desenvolvimento sustentável, a economia se baseia em riscos, e tenho certeza que é um risco enorme para a humanidade não se desenvolver tendo como base a economia sustentável. Infelizmente vocês já entraram em uma época geológica chamada de Antropocene, e a única era em que a humanidade obteve crescimento econômico e tecnológico foi na Holocene, assim consequências de suas escolhas podem liderar o mundo de volta aos tempos anciãos ou a caminho do crescimento, tanto econômico quanto cultural, porém o econômico será mais moderado do que hoje. Há duas escolhas: o crescimento moderado ou a falta dele. Será necessário desenvolver a resiliência, pois a temperatura continuará aumentando, assim como o nível dos oceanos, e é necessário estar preparado para o que virá. E mais do que isso, eu sei que vocês entendem que cada Meta do Milênio, agora evoluídos para Metas Sustentáveis do Milênio dependem um do outro, e vocês dependem deles.

Os economistas e embaixadores não souberam como reagir em frente ao balde de água fria que receberam, junto de uma sacudida para a realidade, pois aquelas não eram apenas bonitas palavras, mas sim uma análise de um grande economista.

Enquanto isso, Stéphane Hessel estava assistindo uma palestra sobre direitos humanos quando a palestrante pediu que contasse um pouco de sua história para os jovens presentes, que não conheciam sua luta. Assim, o senhor se levantou, sorrindo, e falou:

-Meu nome é Stéphane Hessel, judeu nascido na Alemanha, mas me naturalizei francês e me considero cidadão do mundo. Cresci no intervalo das duas guerras, e quando a segunda Guerra Mundial aconteceu fiz parte da Resistência Francesa. Todavia, não estou aqui para contar a minha história, e sim falar um pouco sobre a história e futuro do mundo. Vivi em uma época em que não havia seriedade ao tratar dos direitos humanos, como hoje, em que existe uma preocupação em relação a isso, naquele tempo muitas pessoas acharam bobagem, e como resultado tivemos o Holocausto. Se vocês não levarem a sério a sustentabilidade, algo similar poderá ocorrer, e não apenas com a espécie humana, mas com muitas outras, tanto de plantas quanto animais. Não apenas uma pessoa, e sim a humanidade inteira será responsável por um novo genocídio. Cada um de vocês será responsável, não adianta colocar a responsabilidade nas mãos dos líderes, como diria Saint Exupery: ‘tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.’ Cuidar do meio ambiente também é questão de direitos humanos. Passem das palavras as atitudes, das leis as ações: andem mais de bicicletas, economizem água, comprem produtos orgânicos, plantem árvores, exijam que suas cidades tenham a maior parte da energia limpa, que as escolas tenham educação ambiental. Façam da sustentabilidade uma ideologia para suas vidas.

Um pouco depois, madre Teresa de Calcutá andava pelos corredores, escutando trechos de palestras. Todas estavam muito interessantes, mas procurava em especial uma em especial sobre medicina.
Quando encontrou, ficou parada na porta escutando, interessada. Um senhor atrasado mal pôde acreditar ao ver a pequena senhora grudada na porta. Mas como pode ser ela? Nossa, será que a mídia sensacionalista não estava sendo sensacionalista dessa vez ou eu enlouqueci? – Refletiu o médico.

Para tirar a prova, resolveu chamá-la:

– Teresa de Calcutá? – Disse receoso.

-Sim? – Respondeu.

Desconcertado, decidiu tomar uma atitude, não a deixaria de fora da reunião.

-A senhora poderia me acompanhar? – Falou enquanto indicava o seu braço para ela segurá-lo e abria a porta.

– Tudo bem. Sem problemas. Muito obrigada. – Respondeu com um sorriso que valia por mil palavras, e para aquele médico, um admirador do trabalho dela, valia pela vida inteira.

Ele retribuiu o sorriso e entraram. Havia poucas cadeiras livres, então os dois se dirigiram ao fundo da sala e ficaram escutando.

Quando entraram a sala encontrava-se em rebuliço, por isso ninguém percebera a entrada deles, todavia agora um moço vira Madre Teresa, e ficou sem palavras.

Como o moço ficara sem palavras ao olhar para trás, todos seguiram seu olhar, e igualmente ficaram sem fala.

– Será que a Madre gostaria de participar mais ativamente da discussão?

-Claro, em um momento oportuno. Obrigada.

O moço afirmou seu entendimento com um gesto de cabeça. Em um momento, Teresa resolveu participar:

– Tenho certeza de que vocês têm ótimas ideias e trabalhos, mas esse não seria o caso de uni-las? Ninguém é melhor que ninguém, vocês não precisam demonstrar que suas técnicas, suas teses, são melhores que a do outro. Nada disso é necessário para a verdadeira medicina, somente a humildade para enxergar o outro e abnegação para ajudá-lo. Todas as teses são inúteis sem as duas virtudes, e todas estarão certas se realizadas com amor… O básico todos sabem, e para um mundo sustentável são necessários médicos que salvem as pessoas pobres de doenças como diarreia, diabetes… Um exemplo é o médico indiano Davi Shetty, que abriu um hospital do coração que atende a população por menos de um terço do que custa a cirurgia em países como USA. Ele pode não ter um lucro monetário tão grande, mas tem lucro em seu coração que supera qualquer dinheiro. Vocês não precisam ser freiras para ajudar, apenas homens. -Primeiro o silêncio, depois as palmas.

Vejamos também o que disse Einstein conversando com alguns cientistas:

– Olha: para a ciência ser útil a humanidade ela precisa ser útil ao meio ambiente, não sei se vocês perceberam, mas vocês, os vivos, habitam um planeta. A ciência pode ser a chave para muitos problemas, mas vocês não podem agir sozinhos, as melhores soluções são construídas em comunidade. Temos muitas línguas e culturas, mas apenas um mundo para abrigar todas as diferenças, e precisamos lutar pelo que temos em comum: nosso planeta e o amor que rege nossas vidas, pois para amar não importa onde é aqui ou lá. Ama-se e ponto: ‘ o amor é a força mais humilde, mas a mais poderosa que se dispõe ao ser humano. ´- Gandhi.

Com a minha própria voz, digo aos senhores: se os maiores pensadores da humanidade pudessem conversar conosco, eles nos diriam algo similar, pois compreenderiam que a sustentabilidade é um ato de amor com a humanidade e com o planeta.

Laís Vitória Cunha de Aguiar, 19, é ativista ambiental, estudante de Ecologia da UFPB e comunicadora popular pela Adopt a Negotiator, uma organização mundial que engloba jovens de diversos países com objetivo de divulgar o que ocorre nas negociações climáticas.

in EcoDebate, 01/09/2015

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