Uma morte silenciosa ou um antídoto milagroso? artigo de Anderson Valle

 

[EcoDebate] Num relato verídico, Jo Wollacott, uma inglesa de Bridport diz que perdeu sua casa, namorado e emprego depois que usou um colar que comprou na Internet. Mas que relação teria está história com uma planta tropical de ampla distribuição introduzida pelo homem em Fernando de Noronha durante a estadia militar Norte America?

 

Jequirity

 

O Jequirity é bem conhecido por suas belas sementes as quais são usadas na confecção de instrumentos de percussão e bijuterias. Menos conhecido, porém é a capacidade tóxica de suas sementes. Elas possuem uma substância conhecida como Abrin que é 31,4 vezes mais tóxica que a ricina, sendo sua dose letal para humanos entre 10 e 1000 microgramas por quilograma quando ingeridas e 3,3 microgramas por quilograma se inaladas. Não há antidoto. O Abrin é um inibidor de proteínas que atua diretamente na síntese delas no ribossomo das células levando-as à morte. Ele é um Agente Biológico Selecto (BSATs), classificação esta dada àquelas substâncias com potencial para uso em bioterrorismo.

As sementes destas plantas possuem um envoltório que as protege do trato digestório de muitos mamíferos, porém quando são perfuradas, como acontece para a confecção de missangas, até mesmo o contato de seu interior com a pele pode levar à morte. O colar comprado por Jo possuía tais sementes. Os relatos de alucinações vivênciadas por ela fazem parte de um diagnóstico que atestou que Jo havia se envenenado acidentalmente.

Apesar da toxicidade desta substâcia, várias partes da planta possuem propriedades farmacológicas fantásticas tais como antidiabética, antioxidativa, protetiva neural, antiviral, neuromuscular, anticonvulsivante, antiepiléptica, imunomoduladora, abortiva, antiimplantação, antihelmintica, antidepressiva, na melhora da memória, antiserotonínica, diurética , antimicrobiana, antifúngica, antinflamatória, antiartrítica, analgésica, anticancerígena, antifertilidade, antiespermatogênica, antiestrogênica, antimalarial, antialérgica antiasmática, anticatarata e insecticida.

Seu uso etnobotânico inclui o tratamento de tetanus e prevenção contra a raiva. Também é associada a outras plantas para tratar leucoderma. As folhas são usadas para tratar febres, tosses e resfriados, e as raízes contra icterícia. É mascada como um remédio contra picada de serpente. A pasta da raiz para dores abdominais, tumores e como abortiva. O extrato da raíz fresca obtido a partir de água quente é antimalárico e anticonvulsionante. O chá de raízes secas é usado no tratamento de bronquites e hepatites. Para a perda de cabelos, pasta de folhas e sementes são usadas. Sementes secas combatem infecções por vermes.

Na medicina veterinária também é usada para tratar fraturas. As propriedades inseticidas e antimicrobianas também são atribuídas às sementes. Várias tribos africanas as utilizam como contraceptivos orais, no tratamento da tuberculose e inchaços dolorosos. Na medicina ayurvédica as folhas são laxantes, expectorantes e afrodisíacas. Também são utilizadas em casos de urticaria, eczema, estomatite, conjuntivite, alopecia areata, linfomas/leucemia e em períodos dolorosos durante a menstruação. Do óleo da semente é feito tônico capilar e extratos da planta possuem potentes propriedades antioxidantes, anti inflamatórias, analgésicas e também são capazes de bloquear a ovulação.

Por fim, há também o uso de folhas e sementes na alimentação em certas partes da Índia. É dito que o cozimento destrói o veneno. A utilização terapeutica desta planta pela ayurveda é feita após um processo conhecido como shodhana o qual remove suas toxinas. Já a medicina Siddha, (Tamil Citta ou Tamil-maruttuvam) um sistema tradicional de medicina do sul da India que utiliza-se de medicamentos dados por uma entidade que possui oito superpoderes espirituais, atribui propriedades afrodisíacas às variedades brancas da semente.

Veneno ou cura, depende de como a enxergamos.

Anderson Valle, Biólogo, Mestre em Comportamento Animal, trabalha como Agente Ambiental Federal no IBAMA. Comentarista da TV SUPREN e da Rádio Cultura.

in EcoDebate, 18/08/2015

Uma morte silenciosa ou um antídoto milagroso? artigo de Anderson Valle, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/08/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/08/18/uma-morte-silenciosa-ou-um-antidoto-milagroso-artigo-de-anderson-valle/.


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