Survival ataca editorial da revista Science e o considera ‘perigoso e enganador’

 

Um editorial na revista Science, que apela para que tribos isoladas sejam contactadas para seu próprio benefício, foi criticado por ser “perigoso e enganador” pela Survival International, o movimento global pelos direitos dos povos indígenas.

Os autores, os Professores Robert S. Walker e Kim R. Hill, dizem que “um contato bem projetado pode ser bastante seguro,” mas os exemplos de contato que eles escolhem para ilustrar seu ponto foram de fato catastróficos, e deixaram muitos índios mortos.

A idéia de que o contato com tais tribos pode ter um final feliz, se tem ressalvas adequadas, é perigosamente ingénua. O Brasil tem mais experiência nesta área do que qualquer outro país, mas agora duas mulheres Awá de recém-contato estão criticamente doentes com tuberculose porque após o contato, foram deixadas por meses sem tratamento de saúde adequado.

Jakarewyj e sua irmã Amakaria foram forçados a fazer contato em dezembro de 2014. Agora estão muito doentes com tuberculose porque as autoridades brasileiras não forneceram tratamento de saúde adequado.
Jakarewyj e sua irmã Amakaria foram forçados a fazer contato em dezembro de 2014. Agora estão muito doentes com tuberculose porque as autoridades brasileiras não forneceram tratamento de saúde adequado. © Survival International

Walker e Hill também decidiram que populações isoladas não são “viáveis a longo prazo.” Ao mesmo tempo eles reconhecem que há cerca de 50 tais povos na América do Sul (na verdade, existem mais). A lógica de esses povos não serem “viáveis” não é explicada, e na realidade muitos deles parecem estar prosperando.

A declaração dos antropólogos seria certamente recebida como novidade para os Sentinelese do Oceano Índico, talvez a tribo mais isolada no mundo, que têm vivido em suas ilhas durante pelo menos 15.000 anos, e que são visivelmente “viáveis” e saudáveis.

Olhando de uma distância, os indígenas Sentinelese são prósperos e muito saudáveis, em contraste com as tribos dos Grande Andamanese, que moram em ilhas vizinhas, para as quais os britânicos tentaram introduzir a 'civilização.'
Olhando de uma distância, os indígenas Sentinelese são prósperos e muito saudáveis, em contraste com as tribos dos Grande Andamanese, que moram em ilhas vizinhas, para as quais os britânicos tentaram introduzir a ‘civilização.’ © Indian Coastguard/Survival

O diretor da Survival, Stephen Corry, disse hoje, “O argumento de Walker e Hill poderia ser usado por aqueles que querem abrir a Amazônia para a extração de recursos e para o ‘investimento.’ Sua reivindicação que o contato é para o próprio benefício das tribos é absurda, perigosa e enganadora.

“Talvez a justificativa mais ofensiva para forçar o contato com as tribos isoladas é que ‘os povos indígenas que sobrevivem se recuperam rapidamente de quedas de suas populações.’ O tom casual com o qual os autores descartam as mortes de muitos homens, mulheres e crianças é profundamente perturbador.

“A existência de tribos isoladas é perfeitamente viável, desde que suas terras sejam protegidas. Pensar que nós temos o direito de invadir seus territórios e fazer contato com eles, eles querendo ou não, com todas as consequências prováveis, é pernicioso e arrogante. Os próprios indígenas têm que decidir se querem fazer contato ou não; não pode ser uma decisão de outros que pensam que sabem o que é melhor para eles.”

Um índio Guajajara lutando para proteger o território de seus vizinhos os Awá disse: “É simples: os Awá isolados precisam de sua floresta. É a sua casa e ninguém tem o direito de roubá-la deles, ou de tirá-los dela. Sem suas terras, nossos parentes isolados não irão sobreviver.”

E Wamaxua, um homem Awá de recém-contato, disse à Survival, “Quando eu morava na floresta, eu tinha uma vida boa. Agora, se eu encontrar um dos Awá isolados na floresta, eu direi: ‘Não saia! Fique na floresta … Não há nada no lado de fora para vocês,’ eu diria.”

Nota para editores:

Veja mais vídeos e leia mais sobre as tribos isoladas nos sites da Survival aqui e aqui.

 

Informe da Survival International, publicado no Portal EcoDebate, 09/06/2015


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