O pré-sal, a crise na cadeia produtiva da Petrobras e a estagflação brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“Brazil’s oil giant Petrobras,
whose investments in deep-sea oil in the South Atlantic have made it
the most indebted company in the world, is reportedly close to going bust.
Leaton reports that many of its new offshore fields have
a break-even price of $120 a barrel”.
Fred Pearce (13/01/2015)

 

variação do preço das ações da Petrobras

 

[EcoDebate] Tudo que está acontecendo com o Brasil é muito triste. A Petrobras se transformou, em pouco tempo, da empresa “orgulho nacional”, na empresa “vergonha internacional”. Deixou de ser a maior empresa brasileira nas bolsas de valores, para se transformar na empresa mais endividada do mundo. Além de tudo, bateu todos os recordes de corrupção como tem mostrado a operação lava-jato desencadeada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.

O balanço financeiro da empresa foi adiado por vários meses e quando parcialmente divulgado sem aval de auditoria externa, em janeiro de 2015, não conseguiu demonstrar qual era o rombo no patrimônio. Os números da corrupção e do desperdício variam de R$ 4 bilhões a R$ 88,6 bilhões, segundo a ex-presidenta da companhia. O balanço não apresentou as informações sobre o valor que será suprimido dos ativos, mas indicou que o rombo é muito maior do que se previa. A ex-presidenta Graça Foster disse: “as perdas na Petrobras podem ser maiores”. Segundo o site da Bloomberg as ações da Petrobras valiam US$ 310 bilhões no pico atingido em 2008 e caíram para US$ 48 bilhões nos primeiros meses de 2015. Um sumiço de US$ 262 bilhões. No câmbio atual a perda, em reais, supera R$ 700 bilhões.

A dívida subiu em proporção inversa, levando à deterioração da capacidade de investimento e exigindo que a empresa gaste grande quantidade de recursos para pagamento de juros. A perda do “grau de investimento”, certificado pelas agências de classificação de risco, afasta os investidores institucionais, afetando o preço das ações. A Petrobras teve que adiar mais de R$ 11 bilhões em licitações em 2015. Em janeiro, a produção de petróleo no Brasil somou 2,192 milhões de barris por dia, quantidade menor que em dezembro de 2014 e longe de transformar o país em exportador. O Brasil continua importador de combustíveis fósseis e vai ter dificuldade de aumentar a produção nos próximos anos.

O pior é que o desmonte da companhia foi provocado de dentro para fora, ou seja, as diretorias da Petrobras que deveriam cuidar da competência e da saúde financeira da companhia funcionaram como um vírus que destrói a empresa a partir de seus órgãos mais vitais. E o novo presidente da Petrobras, Aldemir Bendine não está imune de denúncias de ter favorecido a socialite Val Marchiori quando era presidente do Banco do Brasil. A operação lava-jato liga os diretores da Petrobras com os partidos do “presidencialismo de coalizão” e diversos políticos da base aliada do governo.

Todavia, por incrível que pareça, ainda tem gente que diz que a Petrobras tem sido vítima dos “entreguistas” e das conspirações externas a serviço das forças imperialistas. Evidentemente, existem “abutres” e “tubarões” (desculpem o especismo) torcendo pela sangria da Petrobras. Mas o conjunto da população brasileira – que não tem nada a ver com tudo isso – está sofrendo as consequências da crise provocada internamente. Portanto, nem corrupção, nem entreguismo e nem mistificação. Muito menos se deve utilizar o patriotismo como forma de encobrir a roubalheira, o caixa 2 dos partidos e a ineficiência. Como toda empresa, um dia a Petrobras vai acabar, mas o país vai continuar. O Brasil é maior do que a Petrobras e não pode ter seu destino associado aos combustíveis fósseis que poluem e aceleram o aquecimento global.

Também não é correto mistificar as riquezas do pré-sal. O projeto neodesenvolvimentista do governo federal tem se baseado na exploração dos combustíveis fósseis e no aumento das termelétricas para produzir energia e evitar os apagões. O lema máximo do governo é que os recursos fósseis do pré-sal seriam o “passaporte do futuro do país” e a Petrobras seria a empresa responsável pela salvação nacional, distribuindo os royalties do petróleo para os municípios, o sistema de saúde e para avançar com a educação (“Pátria educadora”). Tudo isto foi um erro. Na verdade, o governo precisa repensar esta estratégia, diminuir a dependência dos combustíveis fósseis e investir mais em energias renováveis e renovar a energia da política de baixo para cima, evitando os pacotes recessivos de cima para baixo.

Já a política de favorecer os “campeões nacionais” não deu certo, como demonstra o fracasso de Eike Batista e de várias empreiteiras de grande porte. A política de “conteúdo nacional” também tem fracassado na medida que toda a cadeia de produção de petróleo está em crise. A empresa Sete Brasil, criada para construir sondas e plataformas no Brasil e incentivar a indústria naval e siderúrgica, está em crise, com um rombo de mais de R$ 30 bilhões. Os estaleiros contratados, que foram ampliados no Brasil, com empresas nacionais e internacionais, para dar impulso à política de conteúdo nacional nos equipamentos comprados pela Petrobras, estão demitindo a mão-de-obra e correm o risco de fechar ou reduzir muito o porte.

O presidente da Sete Brasil, Luiz Eduardo Carneiro, disse ao jornal Valor que a companhia tem dinheiro em caixa apenas para pagar despesas gerais e administrativas: “Hoje, se perguntar, quanto recurso tenho para pagar estaleiros, posso dizer: nenhum”. No complexo petroquímico do Comperj, em Itaboraí/RJ, há 2.500 funcionários da empresa Alumini Engenharia sem salário há três meses e outros 469 foram demitidos e receberam apenas parte de suas verbas rescisórias. A Engevix fechou seu estaleiro no Rio Grande do Sul, a Camargo Corrêa demitiu metade de sua administração, a Mendes Júnior paralisou a transposição do São Francisco e a Odebrecht ameaça parar obras das Olimpíadas Rio 2016.

A situação de paralisia é geral. As refinarias Premium I e Premium II, planejadas para serem construídas em Bacabeira (MA) e São Gonçalo do Amarante (CE) foram abandonadas e todo o dinheiro investido, até o momento da decisão de encerrar os projetos, foi perdido. Quem acreditou nas refinarias perdeu dinheiro. O estado do Rio de Janeiro já teve sua arrecadação diminuída em 2014 por conta da crise da Petrobras. Em 2015 a situação deve piorar. Diversos municípios fluminenses estão entrando em recessão e demitindo os trabalhadores. O mesmo acontece pelo país afora. Cálculos financeiros mostram que os custos da refinaria Abreu e Lima (que passaram de US$ 2,5 para US$ 18 bilhões) tornam a refinaria impagável. Nestes casos, em última instância, a população brasileira pagará a conta.

Confirmando a Lei de Murphy, nada é tão ruim que não possa piorar, pois houve o acidente com mortes e feridos, em fevereiro de 2015, no navio-plataforma FPSO Cidade de São Mateus, que é operado pela BW Offshore e fretado pela Petrobras. Este foi mais um acidente que mostra a fragilidade da segurança humana e ambiental do processo de extração de petróleo e gás (além de outros minerais), atividades altamente poluidoras e consumidoras de água, o que agrava a crise hídrica.

Para piorar a situação, o preço do petróleo no mercado internacional – em torno de US$ 50 o barril – torna deseconômico a exploração do pré-sal. Artigo de Fred Pearce, de 13/01/2015, mostra que o preço de equilíbrio (break-even) do barril do petróleo para o retorno dos investimentos no pré-sal é de US$ 120,00. Este número é muito significativo e mostra o quanto os “entendidos” brasileiros estavam maquiando os números do custo de produção do petróleo do pré-sal em seu conjunto. Portanto, o quadro de crise não deve melhorar mesmo se houver um aumento do preço internacional do petróleo para o nível médio de 2014.

O mais impressionante é que, a despeito da queda do preço internacional do petróleo e do gás, no nosso mercado interno os preços da gasolina e do óleo diesel só sobem. A greve dos caminhoneiros que parou as estradas brasileiras e provocou desabastecimento foi um movimento para reclamar do baixo valor dos fretes e do alto valor dos pedágios, além da precária situação das estradas e da falta de segurança. Ou seja, todos os preços estão subindo no Brasil, enquanto a renda média dos produtores e dos consumidores está diminuindo desde o ano passado.

Por exemplo, a linha de pobreza extrema do banco mundial é de US$ 1,25 ao dia. Com o Real valendo 2 dólares a linha da pobreza ficaria em R$ 2,5 ao dia ou R$ 75 ao mês (é o que o Programa Bolsa Família adota). Mas com o dólar custando 2,9 reais, a linha da pobreza sobe para R$ 3,6 ao dia ou R$ 109 ao mês. Como os benefícios do Bolsa Família não foram reajustados, cresceu o número de pessoas na pobreza extrema no país.

O resultado de tudo isso é que a crise da Petrobras contribui para o quadro recessivo da economia brasileira, em uma situação de agravamento das contas externas do país e de desvalorização da moeda nacional. Até mesmo as projeções do Banco Central do Brasil (cuja diretoria é indicada pelo governo) apontam para uma recessão e aumento da inflação em 2015. Ou seja, estagnação + inflação = estagflação. O mais grave é o efeito duplo: estagflação econômica e “estagflação climática”.

O governo está descorçoado e parece que perdeu o controle da situação econômica do país. Em outros casos semelhantes, quando se destrói a cadeia de produção industrial a arquitetura social e política da governabilidade desaba junto. Sempre há possibilidade de reversão, mas a conjuntura atual é muito delicada e aponta para uma crise estrutural de grandes proporções.

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PS. Já tinha terminado o artigo quando a Petrobras anunciou no dia 02/03/2015 a venda de ativos, projetos, negócios e propriedades da empresa – para o biênio 2015 e 2016 – no valor de US$ 13,7 bilhões (ou quase R$ 40 bilhões de reais). Segundo a companhia, o valor foi aprovado pela diretoria executiva no final de fevereiro. A Petrobras está usando o termo desinvestimento para tal situação. Mas, evidentemente, trata-se de um processo de privatização, que se tornou necessária diante do endividamento líquido da companhia que saltou de um patamar de R$ 100 bilhões no início de 2012 para mais de R$ 260 bilhões no final de setembro de 2014. Estas notícias são ruins para a economia brasileira, pois haverá menos investimento no Brasil em 2015 e 2016 o que deve agravar o quadro de estagflação.

Referência:

PEARCE, Fred. Could Global Tide Be Starting To Turn Against Fossil Fuels. E360, Yale, 13/01/2015
http://e360.yale.edu/feature/could_global_tide_be_starting_to_turn_against_fossil_fuels/2837/

ALVES, JED. 2015. Petróleo do pré-sal: “ouro em pó” ou “ouro de tolo”? Ecodebate, RJ, 11/04/2014
http://www.ecodebate.com.br/2014/04/11/petroleo-do-pre-sal-ouro-em-po-ou-ouro-de-tolo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. 2015 será o ano do desenvolvimento sustentável ou da estagflação climática? Ecodebate, RJ, 14/01/2015
http://www.ecodebate.com.br/2015/01/14/2015-sera-o-ano-do-desenvolvimento-sustentavel-ou-da-estagflacao-climatica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 04/03/2015

"O pré-sal, a crise na cadeia produtiva da Petrobras e a estagflação brasileira, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/03/2015, https://www.ecodebate.com.br/2015/03/04/o-pre-sal-a-crise-na-cadeia-produtiva-da-petrobras-e-a-estagflacao-brasileira-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.


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