Os desmatamentos silenciosos nas Chapadas da Mambira e do Pai Gonçalo, município de Chapadinha, MA

 

[Territórios Livres do Baixo Parnaíba]  O assunto da viagem ficou no ar e tinha algo a ver com a tristeza que um deles sentia por dentro. Eles estavam atrasados. Uma caminhonete os transportaria por Baixões e por Chapadas, nem tão longe e nem tão perto do município de Chapadinha. O Cerrado e a mata silenciam por esses caminhos apertados e de raros movimentos. O vereador Manim se sentara no banco de trás da caminhonete e assumia para os demais ocupantes da caminhonete que visitara pouco aquela parte leste da Chapada que extrema com Afonso Cunha. O Wilson acelerava a caminhonete, alugada pelo vereador Nonato Baleco, porque eles parariam em quatro comunidades e em duas Chapadas.

A primeira comunidade era a Mangueira, fazenda que o Incra desapropriou no final de 2014. Uma visita de cortesia para parabenizar a família de Buiu, que liderou a comunidade no processo de desapropriação. Nessa comunidade, o vereador Manim reconheceu um dos moradores como companheiro de jogo de bola. A família Lyra desdenhou do decreto de desapropriação assinado pela presidente Dilma Roussef, mas a comunidade tem plena consciência dos efeitos advindos com esse decreto. Durante a conversa com os moradores da Mangueira, acertou-se a realização de um seminário que subsidiará um projeto de lei que o vereador Manim deve apresentar nas próximas semanas com vistas a proibição do desmatamento com correntão e o plantio de monoculturas no município de Chapadinha. O vereador Manim gostaria de ter apresentado esse projeto de lei há algum tempo atrás, só que, temendo interferências por parte da prefeitura de Chapadinha, resolveu segurar um pouco. Outra comunidade que o vereador desconhecia absolutamente era a Macajuba. O Chico da Cohab fez questão de ir lá para cumprimentar uma senhora de idade.

A Macajuba pertence a vários proprietários que vendem um pedaço aqui e acola para quem quiser comprar. Esses proprietários venderam terrenos onde moram e exercem o seu oficio várias famílias de agricultores. Uma dessas famílias é justamente a da senhora que o Chico da Cohab foi cumprimentar  como forma de prestar solidariedade. Nessa altura, Chico da Cohab, vereador Manim, Wilson e os demais se mantinham no Baixo. Para chegar ao assentamento Veredão, a caminhonete atravessaria a Chapada. Chico da Cohab convidara três rapazes do assentamento (Edivaldo, Doura e Luan) para que mostrassem o caminho para as Chapadas da Mambira e do Pai Gonçalo, propriedades da família Bacelar.


Fornos na Chapada da Mambira-Chapadinha(MA)


Desmatamento na Chapada da Mambira

O vereador Manim denunciara no plenário da câmara de vereadores de Chapadinha os desmatamentos nessas duas Chapadas para a produção de carvão vegetal. Ele também fotografara as dezenas de fornos que queimavam inúmeros bacurizeiros e outras espécies nativas. O Edivaldo, diretor da associação do Veredão, pedira auxilio ao Chico da Cohab para ver o que podia se fazer com relação aos desmatamentos que no caso da Chapada do Mambira eram mais de 1.400 hectares.

Os rapazes do Veredão faziam uma ideia do que tanto desmatamento ocasionava. O proprietário do Buriti do Leite, vizinho do Veredão, vendera a Chapada para um gaúcho que desmatou os seus mais de 600 hectares só para fazer carvão. Após esse desmatamento, os brejos do assentamento secaram em parte. Havia uma possibilidade remota de que os desmatamentos não houvessem estragado tanto a Chapada do Mambira, que o Edivaldo conhecia por outro nome, a Chapada do Lambedor, porque nela os vaqueiros davam sal pro gado lamber. Pelos vestígios deixados no local, os funcionários da carvoaria não concluíram o desmatamento. Essa era uma boa noticia. Na Chapada do Pai Gonçalo, eles contactariam com uma noticia melhor. A Chapada do Pai Gonçalo, ou a Chapada dos Ciganos, em razão do assassinato de vários ciganos, cujos corpos foram sepultados nessa Chapada, situa-se entre os assentamentos das Laranjeiras e do Veredão e da Reserva Extrativista da Chapada Limpa. Ela tem todas as características de terra devoluta. Quando da denuncia do vereador Manim, o desmatamento mal havia começado na Chapada do Pai Gonçalo. As denuncias do vereador surtiram efeito, pois alguma força brecou o desmatamento de uma hora para outra e não deixou a Chapada ser consumida inteiramente. Com a certeza de que a carvoaria não funcionava mais, quem mais se alegrou foi o Wilson, motorista de tantas viagens e testemunha do que o homem é capaz de fazer por dentro dessas Chapadas.


Chapada Pai Gonçalo-Chapadinha(MA)

 

 

* Mayron Régis, Colaborador do EcoDebate, é Jornalista e Assessor do Fórum Carajás e atua no Programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba (Fórum Carajás, SMDH, CCN e FDBPM).

** Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no blogue Territórios Livres do Baixo Parnaíba.

Publicado no Portal EcoDebate, 23/02/2015

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Alexa

Um comentário em “Os desmatamentos silenciosos nas Chapadas da Mambira e do Pai Gonçalo, município de Chapadinha, MA

  1. Nenhuma surpresa. Esses descuidos, ou silêncios, ou invisibilidades, ou falta de atitudes necessárias por parte do Estado são partes constituintes do modo operacional do sistema capitalista.
    É somente isso.

Comentários encerrados.

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