A ética e a água, artigo de Efraim Rodrigues

 

água

 

[EcoDebate] O interior de São Paulo já foi chamado de a “Califórnia Brasileira”. Hoje esturricam ambas.

Gerir a água de maneira sustentável é complicado, porque ela é tão essencial quanto pesada. Sua geração e conservação estão dispersas em inúmeros riachos e nascentes e refletem a ancestral dificuldade de abrir mão de um pouco do seu para que todos tenham mais, tal como no milagre dos pães, que muitos interpretam como mover pessoas para que esvaziem os bolsos e encham a mesa comum.

A briga de foice no escuro começa na hora de decidir se a água irá para esta ou aquela finalidade. Também neste aspecto se igualam a Califórnia e o interior de São Paulo.

As complicações com a água se multiplicam para todo lado. Olhando para o norte, está faltando a língua de água vinda da Amazônia. Olhando para o planeta como um todo, quanto mais quente, menos água líquida e mais vapor, que não é muito útil. Olhando na direção da capital, ela precisa de cada vez mais água e iniciativas banais como guardar água da chuva são, ainda hoje, vistas como exotismos românticos descartados já nas primeiras etapas dos projetos arquitetônicos.

As perspectivas são ruins porque precisamos de pessoas que criem mais sombra de árvore, que cubram o solo, que obstruam a água morro abaixo, e nada disto é chique.

Aqui e ali há pequenos motivos para otimismo. A sujeira da cidade de São Paulo, que antes se extendia até Barra Bonita, a centenas de km, agora já não passa de cem km, mostrando o resultado de um esforço grande, porém invisível, de limitar o aporte de esgoto no rio símbolo daquele estado.

Também lá na Califórnia, o principal viveirista, John Duarte, está preocupado em criar novas variedades de frutíferas resistentes a salinidade e falta de água.

Nosso estado hídrico não é nada mais que uma expressão de nossa miséria ética e moral. Fico até feliz que não haja soluções tecnológicas para resolvermos o problema mantendo o atual estilo de vida. Senão for por vergonha, quem sabe por sede poderemos nos tornar seres humanos melhores.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br), Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA
http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/

 

Publicado no Portal EcoDebate, 02/10/2014


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3 comentários em “A ética e a água, artigo de Efraim Rodrigues

  1. “Senão for por vergonha, quem sabe por sede poderemos nos tornar seres humanos melhores.”[final do último parágrafo do artigo].

    – ou poderemos deixar de existir. Isto é muito mais provável,

  2. “Nosso estado hídrico não é nada mais que uma expressão de nossa miséria ética e moral. “.

    Excelente Texto.

Comentários encerrados.

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