Pequenas histórias da infâmia, artigo de Montserrat Martins

 

opinião

 

[EcoDebate] Numa guerra a primeira vítima é a verdade, já sabemos desde os tempos de Ésquilo, o que vale também para as guerras eleitorais. Os jovens de hoje não conhecem alguns memes das décadas anteriores, de Gérson a Regina Duarte, por isso vão aqui algumas pequenas histórias da nossa infâmia política das últimas décadas.

Começando pelo Gérson, que não tem nada a ver com a política, mas que passou a ser usado como um símbolo do “jeitinho brasileiro” a partir de uma frase que dizia num comercial de TV. Gérson foi um craque de futebol da Seleção vitoriosa de 1970 que depois fez uma propaganda de cigarro em que dizia “você gosta de levar vantagem em tudo, certo?”. A propaganda em si não tinha nada de política, era apenas uma frase feita para transmitir que aquele cigarro seria bom e barato, portanto vantajoso para o consumidor. Mas no “caldo de cultura” dos questionamentos dos anos 70, virou símbolo do “jeitinho” brasileiro, de uma crítica ao suposto oportunismo de nosso povo ao querer “levar vantagem em tudo”, sem escrúpulos.

Em 1989 houve o famoso caso Lurian, quando Collor e Lula disputavam o segundo turno da eleição presidencial. Collor levou para seu programa de TV a gravação de uma fala de Míriam Cordeiro, mãe de Lurian, filha que Lula teve fora do casamento e com a qual não estaria mantendo contato mais próximo. Essa utilização de um drama familiar como forma de denegrir a imagem de um candidato foi considerada até hoje a maior “baixaria” da história das campanhas políticas do país, pelo menos das que tivemos conhecimento até hoje – que quiçá não sejam superadas pelas onda de falsos boatos que tem surgido na guerra eleitoral de 2014.

Gérson e Lurian não tinham nada de políticos, o que foi dito na TV é que foi usado politicamente. Uma frase de Ricúpero sim, foi claramente política. Rubens Ricúpero era ministro de FHC em 1994 e declarou – sem saber que estava sendo gravado – que “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Ele estava nos bastidores de uma gravação de entrevista para a TV Globo, quando informalmente fez essa frase (talvez no embalo da ‘Lei do Gérson’, compartilhando sua esperteza com o interlocutor), sem saber que sua fala acabaria indo ao ar pela parabólica, o que serviu para ser usada amplamente contra o governo, na época.

Em 2002, quando Lula estava prestes a se eleger pela primeira vez, a então famosa atriz Regina Duarte fez uma gravação para o programa de TV pregando o medo do que ocorreria com o país se ele fosse eleito, sendo que na época se pregava o medo ao caos econômico, à desestruturação da sociedade, enfim, fatos que não se confirmaram depois do “alerta” assustador da atriz que décadas atrás chegou a ser chamada de “namoradinha do Brasil”, tamanha era sua popularidade nas telenovelas.

Essas histórias ilustram bem os últimos vinte e cinco anos – que vem a ser o mais longo tempo de democracia já ocorrido no Brasil – e poderiam entrar para uma história da infâmia política porque tiram o foco dos debates sérios e o levam para o terreno pessoal, para a “luta na lama”. Mesmo que inevitáveis, o fato é que são deploráveis. E seguem se renovando diariamente na internet, com falsos boatos que vão de que o que o governo vai criar o ‘bolsa prostituta’ a que a oposição vai acabar com os programas sociais. Dizem que a política “é muito dinâmica”, quer dizer, quem ontem era pedra hoje é vidraça e vários papéis se inverteram (inclusive o do Collor); quem ontem foi alvo do medo da Regina Duarte, hoje o usa. Está no ar a guerra eleitoral e salve-se quem puder, com sabedoria, para distinguir fatos de boatos.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

 

EcoDebate, 11/09/2014


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Alexa

Um comentário em “Pequenas histórias da infâmia, artigo de Montserrat Martins

  1. Pois é. Depois de 21 anos de ditadura contra a qual toda a população brasileira se insurgiu, era para termos uma vida democrática verdadeiramente fazendo jus ao nome. Porém, o que vemos é nossos representantes nada contribuindo para que isso aconteça. É muita tristeza!

Comentários encerrados.

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