Cuidar de si e do mundo. Minhocário ou Compostagem? artigo de Efraim Rodrigues

 

Caixa de compostagem. Foto: Minha Horta Suspensa – http://hortasuspensaquintal.blogspot.com.br/

 

[EcoDebate] Compostar é transformar resíduos em matéria orgânica. Comecei a pensar nisto ainda nos bancos da escola de agronomia, quando aprendemos sobre tudo o que o húmus faz em um solo, e como a agricultura convencional não se preocupa muito com isto.

Uma semana depois de formado, minha primeira ação foi comprar um balde grande e começar a compostar os resíduos de casa.

Os anos e as pilhas de composto se passaram e fui aprendendo não só como compostar, mas também a entender o que se passa na cabeça das pessoas que compostam (e das que não compostam).

No começo de minha vida profissional tive que deixar a coisa um pouco de lado. Naquela época em Harvard não se falava em compostagem, e ainda hoje a coisa lá está mais para nojo que para realidade. Veja uma foto sobre a postura mais errada que você pode ter.

Mas voltando ao Brasil, comecei a compostar todo o lixo de meu apartamento na varanda e depois passei a compostar em escolas.

No começo achei que iria por a coisa para funcionar em uma escola para depois passar para outra. Nada disso. Escolas trocam seu pessoal a cada ano e portanto exigem um trabalho constante.

Também achei que fosse ensinar as escolas a compostar. Já na segunda escola mudamos radicalmente o modo de trabalhar e inventamos um protótipo de composteira onde o lixo não cheira de jeito algum, e foi a escola que me ensinou isto.

Foi também nas escolas que aprendi que a ideia de transformar lixo em adubo tem muito mais inimigos do que parece. São inimigos silenciosos, que agem à sorrelfa, escondidos até de suas próprias consciências.

– Sou super a favor de compostagem, mas… (e lá vem desculpa)

Uma década de compostagem em escolas me mostrou principalmente que a maior autoridade de uma pessoa é seu exemplo. Minha autoridade para dizer que qualquer um pode tratar seus resíduos em casa não vem de titulação acadêmica ou conceito subjetivo. Ela vem de ter feito isto. Se eu fiz, você também pode.

Compostar é, afinal, muito mais que produzir matéria orgânica. Compostar é uma metáfora poderosa acerca de cuidar de si próprio e do mundo.

Enquanto isto, em São Paulo, minhocário ou compostagem?

Terminou no dia 2 de agosto, o prazo dado pela lei 12305 de 2010 para que todos municípios brasileiros construam seus aterros sanitários.

Por isso é positiva, a priori, a iniciativa da cidade de São Paulo de distribuir vinte mil caixas plásticas para o uso de minhocas para transformar lixo doméstico em adubo orgânico é a única solução ambientalmente adequada para o problema.

A alternativa é bem intencionada mas tecnicamente inadequada.

Minhocas não comem todos resíduos. Não comem alimentos temperados, com óleo, cascas de frutas cítricas, de cebola. Colocando algumas destas sobras no substrato onde estão as minhocas, elas irão fugir por onde puderem e a decomposição para. A cada vez que elas fogem, é necessário conseguir novas minhocas para reiniciar o processo.

Igualmente, se as minhocas ficarem algum tempo sem comida, porque a família se ausentou, por exemplo, elas também morrem, obrigando mais uma vez, conseguir novo lote de minhocas.

Por estes dois fatores, a minhocultura é uma atividade que exige dedicação e conhecimento para que seja bem sucedida. É difícil encontrar uma família urbana com tal nível de abnegação.

Há uma outra alternativa, que deveria ser considerada pela Prefeitura de São Paulo.

Há milhares de anos microorganismos são utilizados para a decomposição de resíduos, ao redor do mundo, na Índia, China, Inglaterra durante a Idade Média.

Há quase uma década, alguns alunos universitários e professores do ciclo básico temos ajudado escolas e casas a compostar seus resíduos. adaptamos este conhecimento ancestral para a realidade atual.

A transformação de lixo em adubo deve ser simples e barata se quisermos que seja amplamente adotada. Qualquer caixa plástica de frutas se presta a receber todos resíduos orgânicos, incluindo resíduos animais, alimentos processados, salgados, com óleo, absolutamente todos resíduos que saem de uma cozinha.

Nas escolas, as composteiras frequentemente têm sua adição de resíduos interrompida

Por uma década compostamos todos resíduos de cozinha em meu próprio apartamento. Neste tempo adaptamos a tecnologia para o ambiente doméstico urbano.

A sugestão para a Prefeitura de São Paulo, sem prejuízo da boa intenção eco idealismo, é necessário um pouco mais de experiência antes de iniciar um projeto em tão grande escala.

Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br), Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA
http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/

 

EcoDebate, 11/09/2014


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3 comentários em “Cuidar de si e do mundo. Minhocário ou Compostagem? artigo de Efraim Rodrigues

  1. Prezado Efraim,
    Li com bastante interesse seu artigo publicado no Portal Ecodebate, que recebo diariamente por e-mail. Este assunto é muito relevante nas atuais circunstâncias em que estamos vivendo. A questão do que fazer com os resíduos sólidos domésticos já poderia estar bem avançada no país. Concordo com você no sentido de que a melhor iniciativa é o exemplo, então passo a contar um pouco o que eu faço. Desde 2009, possuo um conjunto de caixas de minhocas para redução e transformação dos resíduos domésticos. Moro num apartamento com minha esposa e somos professores. Até hoje, 2014, nunca perdi minhocas e não foi preciso comprar nem uma única vez um novo lote de minhocas. Elas não tentam escapar, não fazem barulho (rs rs rs), não deixam cheiros desagradáveis, não reclamam por mais comida, são muito boazinhas. Às vezes, por força da nossa profissão, ou nas férias escolares, já passamos mais de vinte dias fora de casa e não aconteceu nenhum problema com as minhocas, elas apenas reduzem seu metabolismo, sem traumas. É claro que elas não consomem de tudo, mas isso nos ensinou, positivamente, a reduzir ao máximo o consumo de gordura, açúcar e carne. O que é excelente para nossa saúde! Ou seja, a minhocultura não é apenas um sistema para solução dos resíduos orgânicos, é um “programa completo” de Educação Ambiental. Você tem razão quando detecta alguns problemas: nojo, preconceitos, desinformação, desinteresse, mas os professores, em especial os educadores ambientais, estão aí é para isso mesmo. Apenas com visão técnica não vamos conseguir mudar atitudes. Sou entusiasta da minhocultura, acho algo muito viável, simples, eficaz, desde que observados alguns critérios. Por isso, considerei altamente louvável a iniciativa da Prefeitura de São Paulo. Mais do que um entusiasta da minhocultura, como professor, faço questão de difundir a prática e, sempre que sou chamado, faço palestras, monto conjuntos de acordo com a necessidade da família, empresa ou escola e dou assistência, se necessário. Creio que temos de buscar alternativas simples e baratas para superar a triste visão de que “lixo” deve ir para aterros. Minhocultura é uma delas, sem desprezar as outras. Abraços.

  2. Boa tarde. Excelentes textos. Vamos aprender colocando em pratica na vida real. Obrigado.

  3. Prezado Prof. Efraim,

    Sou fundador da Morada da Floresta e coordenador do projeto Composta São Paulo, tive acesso a esse debate e achei que poderia ser útil em contribuir.

    Minha experiência pessoal sobre vermicompostagem se opõe diametralmente à que apresentara em seu texto. Como praticante da compostagem doméstica há 15 anos, vermicompostagem há 7 anos e como empreendedor neste segmento, afirmo que suas preocupações sobre fuga de minhocas e quebras no ciclo de alimento para as mesmas não encontram confirmação prática nem na minha experiência nem nos mais de 2.000 domicílios os quais já implementamos esta técnica. Colocando uma carga de alimentos na composteira antes de uma viagem, é possível deixar o sistema livre de interferências por até 3 meses.

    Ainda, trabalhando também com esta técnica em refeitórios empresarias (onde há alta incidência de alimentos cozidos e oleosos), verificamos que a afirmação de que “colocando algumas destas sobras no substrato onde estão as minhocas, elas irão fugir por onde puderem e a decomposição para” também não se confirma. Hoje, tratamos com esta técnica mais de 300 toneladas de resíduos orgânicos mensalmente em diversas residências e empresas do Brasil, e não observamos estas barreiras ou fenômenos que o senhor coloca.

    Para conhecer melhor a técnica e tirar conclusões com a prática e experiência, te convido a praticar a vermicompostagem doméstica em sua residência. Não necessariamente para substituir a técnica que você está habituado, mas principalmente para ampliar seu repertório vivencial para escrever sobre o assunto com mais propriedade. Para isso, não há a necessidade de fazer a composteira em caixas, basta inserir algumas minhocas vermelhas na composteira do seu apartamento. Como a eficiência da vermicompostagem aumenta na medida em que a população de minhocas cresce, quanto mais tempo de uso, maior é a aceleração do processo. Para esse experiência, sugiro você praticar por pelo menos 3 ciclos de compostagem. Se depois você não quiser mais a aceleração e o enriquecimento do adubo que as minhocas proporcionam, basta tirá-las da composteira e doá-las para alguém (não faltará interessados).

    A questão dos resíduos é um problema complexo, logo, suas soluções também serão. O projeto não se coloca, de forma nenhuma, como a única solução para o tratamento de resíduos orgânicos. Para não nos aprisionarmos em um embate de experiências, proponho evoluirmos este debate para outros rumos: enxergamos o projeto Composta São Paulo como processo e não necessariamente como solução. Por isso, dividirei abaixo, algumas das crenças, visões e detalhes sobre esta iniciativa que toda equipe do projeto compartilha, para que possamos evoluir de uma discussão binária, do sim ou não, certo ou errado, para algo mais construtivo e amplo:

    1. A discussão sobre o tema “produção e tratamento de resíduos” ainda é muito restrita aos meios acadêmicos e poder público. Faz-se urgente ampliar a discussão e incluir a sociedade, tanto em termos de responsabilização, quanto no desenho de soluções. Na nossa opinião, nada melhor do que vivências diárias no tema para gerar reflexões profundas e engajamento.

    2. É comum no Brasil o (sub)julgamento do comportamento dos cidadãos, sem o amparo de dados. Não podemos pré julgar a capacidade das famílias em adotar e dedicar-se a esta prática, baseados apenas em experiências pessoais, estereótipos ou consensos culturais. Até porque, ações transformadoras geram novos hábitos. Mais do que a distribuição de 2 mil composteiras, o projeto visa e foi elaborado para ser um grande estudo de aplicabilidade. Desta forma, teremos 3 pesquisas com os participantes ao longo dos 5 primeiros meses justamente para mapear e mensurar dificuldades, fatores de abandono, melhores práticas, e diversos outros aspectos como alterações de hábitos alimentares e comunitários e com a própria produção e descarte de resíduos. Acreditamos que somente com dados concretos poderemos tecer opiniões e conclusões sobre a viabilidade da prática. Estas pesquisas terão seus dados abertos para que cidadãos, gestores e legisladores públicos, setores engajados e o meio acadêmico possam trabalhar, debater, criar novas visões, hipóteses e alternativas.

    3. Desde seu lançamento, em junho de 2014, o Composta São Paulo já demonstra resultados e caminhos, para muito além do objetivo específico da vermicompostagem. Além do número de 10 mil inscritos, percebemos a formação concreta de uma rede de relacionamento entre cidadãos, contemplados ou não pela iniciativa, especialmente através do grupo de discussões do projeto (www.facebook.com/groups/compostasaopaulo). Este espaço está funcionando como encubadora de discussões, mentalidades e práticas altamente positivas. Ali, as pessoas estão trocando informações e experiências num ritmo que nem nosso pensamento mais otimista poderia prever. As pessoas estão praticando crowdsourcing e free economy, trocando conhecimento e experiências de modo descentralizado e fazendo trocas e doações de minhocas e matéria seca. De forma intencional, a equipe de suporte tornou-se a própria comunidade – permitindo ampliação e replicabilidade, numa perspectiva de gestão. Além disso, os integrantes do grupo começam a discutir sobre apropriação e manutenção de espaços públicos, como parque e praças, a partir do composto sólido e líquido – algo muito relevante quanto pensamos em insumos para formatação de uma política pública. Ou seja, com menos de 2 meses de funcionamento, o projeto, além de ter concretamente 2 mil famílias praticando a compostagem e reduzindo emissões para os aterros municipais, criou algo muito mais amplo. A possibilidade de se conectar com outras ações do prefeitura e da sociedade nos encanta. A reflexão que fazemos é que, se seguíssemos o que é praxe no Brasil – definição arbitrária de técnica e terceirização de um serviço de recolhimento de resíduos orgânicos – estaríamos, além de comprometendo ainda mais o orçamento público, perdendo toda esta oportunidade que a mobilização e consciência social promovem.

    4. Os contextos socioculturais, políticos e tecnológicos nos levam a acreditar que a experiência e inteligência coletiva são hoje tão ou mais poderosas do que experiências e análises individuais. Por isso, o número de 2 mil composteiras (não 20 mil, como informado em seu texto) é adequado para uma amostragem dos quase 3 milhões de domicílios da cidade. A distribuição foi realizada com base em fatores demográficos, econômicos, etários e mesmo de tipificação de domicílio, de acordo com os dados do Censo IBGE 2010, justamente para contemplarmos e verificarmos como esta prática se aplica nas mais diversas realidades domiciliares da cidade. A partir dos resultados finais, poderemos ter discussões embasadas sobre a viabilidade da compostagem doméstica como política pública, para além das experiências individuais. Por isto a importância de uma iniciativa ampla e afirmativa como esta.

    5. Por fim, estamos neste momento desenvolvendo outras duas pesquisas específicas com subgrupos dentro do projeto para gerar dados conclusivos sobre volume compostado e sobre o uso da técnica na compostagem do resíduos orgânicos totais do domicílio. Pretendemos buscar parcerias em universidades e institutos para a realização de trabalhos científicos nestes objetivos.

    Agradeço a colaboração e deixo aqui um convite tanto para que o senhor faça uso dos dados gerados ao final, quanto para conhecer a iniciativa mais de perto e dar suas contribuições. Afinal, este é um projeto para a cidade e todos são bem vindos para ajudar a construir.

    Atenciosamente,

    Cláudio Spínola.

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