Paisagens, geobiossistemas e meio ambiente, artigo de Roberto Naime

 

Mata Atlântica

[EcoDebate] Os solos são resultantes da decomposição intempérica das rochas e são um elemento integrante das paisagens. Solos são formados por intemperismo, que é o conjunto de condições físicas e químicas do meio ambiente, como clima, temperatura, pluviosidade e demais variáveis desta natureza. Os solos são formados pela ação dos fatores intempéricos e dos organismos vivos, bactérias e animais, agindo sobre o material de origem ao longo do tempo.

Podem se encontrar no próprio local onde se formaram quando são denominados solos residuais ou solos de alteração de rocha nos casos onde é possível observar texturas e estruturas relictas da rocha original, e são denominados solos transportados quando se encontram fora do local que se formaram.

Os solos transportados se denominam aluviões quando são carregados pela água e colúvios ou elúvios quando o agente de maior influência na transposição são as reptações gravitacionais.

Nos solos aluvionares são transferidos de local pela ação da água. Há ainda os solos coluvionares onde o agente transportador mais importante são as reptações gravitacionais, e os solos eluvionares, onde o transporte é mínimo, sendo derivado de uma associação entre o agente transportador aquoso e os gradientes topográficos.

A composição química e a constituição dos solos são profundamente influenciadas pela rocha que origina o solo e pelos processos posteriores que sofre.

A interação permanente entre o meio físico e os ecossistemas terrestre e aquático precisa ser analisada através de um enfoque interdisciplinar. Os solos representam a expressão mais visível do meio físico e integram a base do conceito de paisagem. Resultam da decomposição dos substratos rochosos através de processos de intemperismo.

As modernas técnicas de avaliação geotécnica dos ambientes utilizam as classificações pedológicas e climáticas disponíveis, associando ainda fatores como declividade, cobertura vegetal e ocupação e ação antrópica.

A associação destes elementos e o uso das técnicas de sensoriamento remoto e tratamento digital de imagens de satélite, dentro de um contexto multidisciplinar, permitiu a transferência e a evolução de conceitos. Hoje, é disseminada a concepção do conceito de “paisagem” como expressão do agenciamento dinâmico e superficial dos conjuntos territoriais. Ou seja, não é mais apenas o solo a face mais visível do meio físico, e sim a paisagem integradora do solo com os demais fatores, a expressão conjunta das interações compreendidas ou ainda difusas.

Este agrupamento, capaz de expressar homogeneidades ou realçar diferenciações físicas espaciais e temporais no meio terrestre, origina a conceituação de “geobiossistemas” como unidades territoriais, geográficas ou cartográficas de mesma paisagem, definidas por características estatísticas do meio natural físico, químico ou biológico, hierarquizadas por um mesmo sistema de relações.

É nesta acepção que são entendidos e empregados os termos classificadores de solos que hoje se utiliza.

Para compreensão e entendimento da formação e equilíbrio dos solos, além da profunda e íntima relação com o clima, é preciso entender as interações com o relevo e a influência dos parâmetros hidrológicos do balanço hídrico.

Por balanço hídrico se compreende o conjunto de fenômenos posteriores às precipitações pluviométricas. A água que chove sobre uma determinada bacia hidrográfica tem 3 caminhos básicos: o primeiro caminho é sofrer infiltração nos terrenos, que depende das taxas de infiltração, dos materiais constituintes dos solos (materiais arenosos tem elevada permeabilidade e materiais com predomínio de argilas tem baixa permeabilidade).

A segunda alternativa é sofrer “run off”, expressão que significa escoamento superficial. Quanto maior for a declividade, maior é o escoamento superficial, e, portanto, menores as infiltrações e menor a decomposição das rochas que origina os solos.

E a terceira é passar pelo processo de evapotranspiração, ou seja, evaporação superficial. O balanço hídrico é a quantidade de água disponível pela ação das chuvas, menos as águas que infiltram nos terrenos, subtraídas também as águas que sofrem evapotranspiração. A água disponível para o sistema de drenagem superficial é o material proveniente da chuva que sofre escoamento superficial.

E as taxas maiores ou menores de infiltração, que dependem da quantidade de chuva e do relevo do local, influenciam na formação de maiores ou menores perfis de solo.

O solo dentro do contexto de paisagem é um recurso natural, responsável pela sustentação da flora e da fauna no meio biológico e pelas interações com a agricultura, a pecuária, o armazenamento de água, as obras de infraestrutura e edificações humanas.

Sem que suas características naturais sejam alteradas, funciona como filtro de purificação das águas superficiais ou freáticas que se infiltram em profundidade e formam os aquíferos subterrâneos ou águas subterrâneas, armazenadas dentro da rocha.

O manejo agrícola inadequado produz erosão nos solos, que é responsável pelos processos de assoreamento dos recursos hídricos superficiais, aumentando as condições para ocorrência de enchentes e alagamentos. A disposição inadequada de resíduos perigosos ou não inertes nos solos propicia a degradação progressiva do ecossistema afetado.

O conhecimento da paisagem e dos geobiossistemas são um bom exemplo da multidisciplinariedade dos estudos ambientais. Estes conjuntos harmônicos dentro de seus ecossistemas são importantes para diversas áreas do conhecimento humano. Os solos são lentamente renováveis, sendo encontrados em diferentes posições da paisagem.

As paisagens ou geobiossistemas estão presente em todas as atividades humanas e seu uso racional, economicamente viável e ambientalmente sustentável exige conhecimento prévio de suas características e limitações.

Todo estudo do meio físico necessita detalhamento das características, aptidões e limitações dos solos, sua distribuição geográfica e ocorrência. No campo, a identificação dos tipos de solo é feita pela observação do perfil de solo em um talude ou corte do terreno. O entendimento do perfil é a primeira fase na identificação e interpretação das características do solo para fins de recomendação dos usos e manejos adequados, com estes materiais inseridos dentro da concepção de paisagem e geobiossistema.

As características morfológicas que representam a aparência dos solos no campo são a cor, a textura, a estrutura, a granulometria, a consistência e a tipologia de raízes existentes (STRECK et al, 2008).

O perfil de solos mostra uma sequência vertical de camadas mais ou menos paralelas à superfície, resultantes da ação dos processos de formação do solo (processos pedogenéticos) que são diferenciadas entre si pela espessura, cor, textura e estrutura, dentre outras características.

Materiais aluvionares que representam solos transportados pela ação das águas podem ser um pouco diferentes. Da mesma forma pacotes de solos denominados eluvionares, resultantes de pequenos rastejamentos gravitacionais em superfícies de terrenos com declividades e solos chamados coluvionares, com maior reptação ou rastejamento gravitacional em superfícies do terreno com elevadas declividades, podem mostrar perfis de solo com horizontes um pouco diferenciados.

Cada tipo de solo dentro das paisagens ou geobiossistemas tem suas características morfológicas e sua classificação, ocorrendo em local determinado da paisagem, com aptidões próprias de uso e dentro de seu contexto deve ser analisado de forma sistêmica, nas relações que estabelece com os meios, biológico e antrópico, em cada situação de um determinado empreendimento.

Referência:

STRECK,, E. V., KÄMPF, N., DALMOLIN, R. S. D., KLAMT E., NASCIMENTO, P. C. e SCHNEIDER, P. Solos do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: 2 ed. EMATER/RS: UFRGS, 222p. 2008

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

EcoDebate, 05/06/2014


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