Porque ‘não vai ter Copa’, artigo de Montserrat Martins

 

Manifestação na Avenida Paulista dia 20 de junho de 2013. Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Manifestação na Avenida Paulista dia 20 de junho de 2013. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

[EcoDebate] Tem quem não entenda os protestos e ache que é coisa de baderneiros ou golpistas. Vamos aos fatos, então. Quando o Brasil foi escolhido como sede e assinou o protocolo para a Copa do Mundo, lá em 2007, o governo afirmou que nenhum dinheiro público seria gasto, que as obras seriam da iniciativa privada, o que seria perfeitamente possível, dado o potencial de negócios gerado por uma competição desse porte. Só que nada disso ocorreu, não houve planejamento e após 7 anos, quando chegou a hora do “vamos ver”, tudo estava por ser feito. O governo que prometera nada gastar na Copa, acabou desviando dos cofres públicos pelo menos 25 bilhões de reais (quase o orçamento anual do RS). “Desviando” é o termo certo, já que a promessa era que a iniciativa privada investisse na Copa e se beneficiasse com esse empreendimento.

A revolta contra a falta de investimentos em saúde e educação não é retórica, a associação entre os fatos é verídica. Dez bilhões deixaram de ser investidos em saneamento, valor que foi gasto apenas em estádios. Não é mesmo uma “revolta sem causa” e também não é uma manifestação eleitoral, já que os protestantes não tem partido, na sua grande maioria, nem tem apoio da mídia.

O povo brasileiro sempre foi criticado por sua passividade, questionamento que uma peça de teatro clássica consagrou, “Esperando Godot”. Estamos sempre esperando que chegue alguém e nos salve, faça por nós o que não temos a iniciativa de fazer. Nos falta convicção, para não dizer que falta coragem, nos falta autoestima, nos falta identidade. Acontece que não adianta nos reunirmos todos os dias para esperar Godot que nunca chega. Um dia teremos de acordar e fazer por nós mesmos.

Os protestos não são uma solução em si mesmos, é óbvio. Serviram para enterrar a famigerada PEC 37 que iria tirar o poder de investigação do Ministério Público, o que já é alguma coisa. Mas principalmente sinalizaram que a era do “pão e circo” deve ficar para trás, para a política clássica romana, que não é essa a política que queremos para o século XXI.

Há mais um detalhe perverso, ainda. Na tradicional cultura do “pão e circo”, o povo tinha direito ao lazer, à alegria. O mais paradoxal desse enorme gasto em elefantes brancos é que o povo não vai poder entrar neles, porque o “padrão Fifa” é caro e elitista, apenas para quem pode pagar. Quer dizer, o governo investe uma fortuna mas ao invés de oferecer circo, tira os estádios – construídos com dinheiro público – do povo, que antes do “padrão Fifa” tinha direito pelo menos a ir numa geral ou “coréia” e gritar pelo seu time, ao vivo. Agora, chega a ser humilhante ver as obras suntuosas do esporte que é a paixão popular, mas da qual o povão acaba de ser excluído.

“Não vai ter Copa” é um meme, não quer dizer que os jogos não vão ocorrer, literalmente. Quer dizer que a Copa imaginada como consagração da velha política vai se voltar contra ela, como já aconteceu durante a Copa das Confederações, a Copa que “não houve”, porque o governo não pode faturar em cima, ao contrário, teve de passar o tempo todo dando explicações. Que venham as seleções, os turistas, que conheçam as belezas naturais do nosso país, que movimentem o comércio, que se apaixonem pelo Brasil e até mesmo que nossa Seleção ganhe a Copa, como já ganhou a das Confederações. Que aconteça tudo isso sem sermos feitos de bobos, achando tudo lindo e gratos ao governo por desviar verbas públicas de coisas mais importantes para nós.

O “pão e circo” acabou, é isso que quer dizer “não vai ter Copa”, que não é contra um governo, é contra um jeito muito antigo de governar.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

 

EcoDebate, 23/05/2014


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8 comentários em “Porque ‘não vai ter Copa’, artigo de Montserrat Martins

  1. É retórica sim ora…. 10 bilhões não pra nada…o preço da copa custa um ano do orçamento de educação….se pegasse todo dinheiro da copa e investisse em educação, continuaria uma merda!! precisamos de uma muleta (copa) pra apoiar, pq estamos perdidos…Nem o fundo social destinado a educação vinculado ao pré-sal vai alterar significativamente a educação, e vejam que serão 400 bilhões em 30 anos…

  2. Como a mídia não apoia o “não vai ter copa”???? Ela é um dos braços fortes deste movimento que tenta resgatar o complexo de vira-lata…de demonizar tudo relacionado ao Brasil…será um reflexo do ano eleitoral? Dahle PIG!

  3. Excelente artigo. Análise correta. Concordo em gênero, número e grau com tudo o que foi colocado. Parabéns.

  4. Este artigo deveria estar no gabinete de cada político no Brasil. Os mais inteligentes provavelmente iriam entender com clareza o recado do povo. Parece, pelo que estamos assistindo, que continuam cegos e surdos para o povo. Aliás, parece também que estes, que já foram povo um também um dia, ao chegar no poder se comportam como a nobreza que acreditava que foram eleitos por Deus ao nascerem em berço nobre. Esquecem que não é uma divindade que os coloca lá e sim o povo.

  5. O grande problema do “não vai ter Copa” é todos se esquecerem da roubalheira e das falcatruas assim que o Brasil fizer um gol em campo.

  6. Prezado Montserrat. Gostaria de complementar teu artigo “não vai ter copa”com mais algumas observações. Enquanto nós formos apenas o País do futebol, samba e mulher pelada ficaremos rodando qual cachorro querendo morder o próprio rabo. É realmente necessária uma Nova Política para sairmos do é dando que se recebe. Temos condições de construir uma Nação forte e independente com pessoas sérias e voltadas para as necessidades maiores de nossa população. O que estamos gastando com a copa FIFA é um ABSURDO. Faltam-nos recursos para educação, saúde, saneamento básico e outros itens importantes da nossa vida diária. O dinheiro que rola na mão dos dirigentes da CBF e assemelhados é pra deixar vermelho de vergonha qualquer empresário Estamos gastando BILHÕES para atender exigências da FIFA. O que faremos com o desperdício do nosso dinheiro aplicado na construção dos estádios de Brasília, Cuiabá e Manaus? Este último já estão aventando a hipótese de utilizá-lo como cadeão. Serviria para fazer triagem dos presos. A guisa de contribuição informamos que o Figueirense Futebol Clube ( o mesmo que acabou de ganhar do Corinthians de 1X0 no Itaquerão – projeto Lula), na administração Prisco Paraiso enviou para a FIFA a remodelação do estádio Orlando Scarpelli sem ônus para o País. Como nosso poder de fogo é pequeno, não levamos. Saiu uma notícia, hoje, que a FIFA registrou o termo PAGODE no Instituto Nacional de Patentes, não permitindo a utilização do termo pelos brasileiros. A isso chamamos de SUBSERVIÊNCIA. Abraços sustentáveis.

  7. Do ponto de vista das camadas oprimidas, exploradas e excluídas, o capitalismo é absolutamente incoerente, mas a grande maioria das pessoas que compõem esses camadas – quase a totalidade – não percebe essa incoerência, pois são levados pelos discursos dos Partidos Políticos – que são tantos, tendendo quase ao infinito – e dos candidatos. Esses discursos são os mesmos desde sempre: resolvem tudo, e, no final, nada de diferente acontece.
    As campanhas políticas são os meios utilizados pelos Partidos Políticos e pelo TSE para mais imbecilizar, politicamente, a grande maioria do eleitorado já imbecilizado.
    Mas, seja como for, o sistema capitalista sempre sairá “vitorioso”, até o final.

Comentários encerrados.

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