O edifício de 1 km de altura e o pico do petróleo na Arábia Saudita, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

“It has taken between 50-300 million years to form, and yet we have managed
to burn roughly half of all global oil reserves in merely 125 years or so”.
http://www.oildecline.com/

 

“It took us 125 years to use the first trillion barrels of oil.
We’ll use the next trillion in 30”.
Cambridge Energy Research Associates

 

 

[EcoDebate] A Arábia Saudita está planejando construir o edifício mais alto do mundo, com um quilômetro (1 km) de altura. Se for realmente construído e concluído, o Kingdom Tower será 173 metros mais alto do que o atual prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, que fica em Dubai.

A torre de 200 andares deverá custar pelo menos US$ 1,23 bilhão, devendo exigir 80.000 toneladas de aço e a capacidade de bombear 500 mil metros cúbicos de concreto a 1 km de altura. Os desafios da engenharia são enormes. Mas a Arábia Saudita tem planos de ampliar e construir novas cidades que terão uma população de quatro a cinco milhões de habitantes, requerendo um investimento de US$ 60 bilhões. Cada cidade ficará localizada em uma área do país para desenvolver suas regiões – Rabigh, Hail, Medina e Jazan. Por exemplo, a Cidade Econômica King Abdullah (nome inspirado no rei saudita) pretende abarcar 2 milhões de pessoas e tem conclusão prevista para 2020. Vale dizer que a Arábia Saudita já tem o segundo prédio mais alto do mundo, o Makkah Royal Clock Tower Hotel, com 601 metros de altura (o prédio mais alto do Brasil, com 51 andares, tem 170 metros).

Aproveitando a riqueza gerada pela exportação da energia fóssil acumulada durante milhões de anos, a Arábia Saudita teve um dos maiores crescimentos demográficos e econômicos do mundo. A população era de 3,1 milhões de habitantes em 1950 e passou para 27,5 milhões de habitantes em 2010. A divisão de população da ONU estima, na projeção média, um volume populacional de 45 milhões em 2050 (crescimento de 15 vezes em 100 anos). Contrastando com o estilo de vida beduína, a sociedade saudita adotou um alto padrão de vida e consumo, construído em cima da aridez do deserto, o que só foi garantido pela existência dos combustíveis fósseis. As divergências internas na elite política e econômica do país foram amenizadas.

Assim, a pegada ecológica per capita do país chegou a 3,39 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade per capita de apenas 0,65 gha, de acordo com o relatório Planeta Vivo, da WWF. Portanto, o país possui um dos maiores déficits ambientais do mundo. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,65 em 1980 para 0,77 em 2010.

 

 

Portanto, os dados mostram que a Arábia Saudita teve um grande crescimento demoeconômico e tudo isto ocorreu às custas do petróleo e do gás. Esta riqueza, contudo, é finita e já tem prazo para acabar. O mais provável é que a Arábia Saudita passe por enormes dificuldades quando a riqueza fóssil se esgotar, especialmente se não fizer os investimentos necessários para mudar sua base produtiva e educacional para uma situação pós-petróleo. Noventa por cento das exportações sauditas são de petróleo e produtos derivados e o país é totalmente dependente destas exportações para importar a maior parte dos alimentos e bens de consumo.

Desta forma, fica claro que a Arábia Saudita montou um modelo de sociedade de alto consumo e baixa capacidade autônoma de produção. O problema é que 90% da extração de hidrocarbonetos vem de apenas 5 mega-campos, que estão todos em risco de colapso de produção, segundo o site Oil Decline. Durante anos, a Aramco, a companhia petrolífera saudita, usou técnicas de recuperação secundária por injeção de enormes quantidades de água do mar (7 milhões de barris por dia) em seu maior campo para aumentar a produção. Estes métodos têm efeitos meramente temporários , e levar a taxas aceleradas de esgotamento no futuro. Isto vai provocar uma divisão política e econômica no país e tenderá a incentivar manifestações populares.

Matt Simmons, no livro “Twilight in the Desert”, considera que a Arábia Saudita em breve atingirá o pico do petróleo e depois que sua produção vai diminuir e o mundo vai ser confrontado com uma escassez catastrófica de óleo. A base factual do livro tem mais de 200 trabalhos técnicos publicados nos últimos 20 anos, que mostram problemas com poços particulares ou campos específicos, e que demonstram coletivamente que todo o sistema do petróleo saudita é “velho e desgastado” com reservas deliberadamente superestimadas.

No final de 2009, a universidade da empresa Kuwait Oil Kuwait elaborou um estudo para prever a tendência de produção de petróleo e com base em modelos estatísticos sofisticados estimou o pico para 2014. Outras estimativas variam entre 2015 e 2020. O que é certo é que a produção mundial de combustíveis fósseis vai entrar em um declínio permanente ainda na atual geração.

Reportagem da Bloomberg, mostra que a Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo, corre o risco de se tornar um importador de petróleo nos próximos 20 anos. Isto porque, o petróleo e seus derivados são usados ??para atender uma demanda interna crescente, que aumenta em cerca de 8% ao ano (nesta taxa o consumo dobra em menos de 10 anos e quadruplica em menos de 20 anos), para sustentar o maior consumo populacional per capita do mundo, inclusive superando as nações mais industrializadas. Para a Bloomberg, a solução parcial deveria ser a retirada dos subsídios que mantêm a energia muito barata e o desperdício muito alto. Se o consumo de combustíveis fósseis se multiplicar por 4 nos próximos 20 anos e a produção cair, a Arábia Saudita vai enfrentar grandes dificuldades. O mundo industrializado também sofrerá com a escassez de petróleo disponível.

 

 

O fim das receitas de exportação geraria um caos social na Arábia Saudita e tenderia a espalhar as manifestações populares e as divisões políticas na elite no poder. Segundo Immanuel Wallerstein: “O fato é que o regime saudita esconde poeira debaixo do tapete. A elite interna está mudando da chamada segunda geração, dos filhos de Ibn Saud (os poucos filhos sobreviventes estão bem idosos), para os netos. Eles são um grupo grande e inexperiente, que pode ajudar a derrubar a casa real devido à competição pelos espólios, que ainda são consideráveis”.

As ambições imperiais da Arábia Saudita são muito altas e infinitas, mas dependem de um combustível que não é renovável, finito e tende a chegar a um pico em breve, para depois iniciar o declínio. Não será fácil para a Arábia Saudita manter as suas cidades, seus enormes edifícios e o alto padrão de consumo importado, depois que houver a depleção dos seus campos de petróleo.

Referências:
Tafline Laylin. Saudi’s 1km high Kingdom Tower needs 500,000 cubic meters of concrete, March 4, 2014

Ayesha Daya and Dana El Baltaji. Saudi Arabia May Become Oil Importer by 2030, Citigroup Says. Sep 4, 2012

The Saudi Arabia Case

Immanuel Wallerstein. Saudi Arabia: Besieged and Fearful. Fernand Braudel Center, Binghamton University, Commentary No. 372, Mar. 1, 2014

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

EcoDebate, 23/05/2014


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