Mudanças Globais – A hora da adaptação e mitigação, artigo de Paulo Artaxo

 

impactos do aquecimento

 

[Amazônia Real] O IPCC (sigla em inglês de Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) publicou recentemente os relatórios finais dos Grupos de Trabalho 2 e 3. Estes dois novos relatórios lidam com as questões de impactos, vulnerabilidades e adaptação e a mitigação das emissões.

O relatório sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade faz pela primeira vez uma análise quantitativa dos riscos que estamos correndo ao não reduzir as emissões de gases de efeito estufa. A vulnerabilidade é certamente muito maior nos países pobres e em desenvolvimento (Bangladesh, índia, países da África central) do que nos países desenvolvidos. Portanto a mudança climática vai aumentar o fosso entre países ricos e em desenvolvimento.

A vulnerabilidade ao aumento do nível do mar (projetado de 40 a 90 cm ao longo deste século) e às alterações na chuva na região Nordeste do Brasil é apontada também como um potencial aumento na desigualdade regional. A questão da disponibilidade de água é apontada como uma das maiores vulnerabilidades sócio-econômicas, e que já afeta atualmente grande parte de nosso planeta, com impactos importantes na agricultura, que deverão se agravar ao longo das próximas décadas.

O relatório sobre mitigação das mudanças globais relata que as emissões continuam a aumentar, apesar de ser muito clara e urgente a necessidade da redução de emissões de gases de efeito estufa. Se quisermos evitar que nosso planeta seja aquecido de 2 a 5 graus centígrados em média, temos que agir já (na verdade, ontem). Minimizar as emissões de gases de efeito estufa exigirá alterações importantes no modo como produzimos e consumimos energia e usamos matéria primas.

A produção de alimentos também poderá ser afetada, bem como nosso estilo de vida, onde teremos que usar os recursos naturais de nosso planeta de modo mais inteligente.

É fundamental a redução de subsídios aos combustíveis fósseis, e a um aumento de eficiência energética em todos os setores. Transporte urbano é um bom exemplo. Já existe tecnologia automobilística que é 4 vezes mais eficiente do que os nossos automóveis em uso. Veículos híbridos 4 vezes mais econômicos e com baixíssimas emissões de poluentes já existem. Por que não são utilizados em larga escala? Faltam políticas públicas que incentivem a transição a automóveis mais eficientes e limpos, e a falta de inovação industrial é enorme nesta área.

Como resolver estes conflitos, sem que haja um sistema de governança global em funcionamento? Esta é uma das questões mais importante e pouco discutida na área das mudanças climáticas globais. A ONU (Organização das Nações Unidas) não tem poder nem meios para atuar nesta questão. Teremos que construir organismos multilaterais para administrar esta que é maior crise que nosso planeta já passou.

A perspectiva de aumento forte de temperatura, com intensificação de secas, enchentes e destruição dos ecossistemas, como os conhecemos, é algo que nos escapa à percepção. Mas é claro hoje que temos que usar os recursos naturais do planeta de maneira muito mais inteligente que usamos hoje. Já existe tecnologia de mitigação de emissões em larga escala. Mas a força econômica e política da indústria do combustível fóssil é muito grande, em todos os países, e seus lucros se baseiam na extração, no processamento e na venda de combustíveis fósseis.

Há alternativas em escala menor, como a energia eólica e solar, além dos biocombustíveis de última geração. Mas a maior questão é a redução do consumo de modo geral, pois isso vai contra o motor atual das economias de todos os países. A questão de que habitamos um planeta comum, com recursos naturais finitos, está ficando cada vez mais clara. Mas, nosso planeta não tem um sistema de governança para implementar as medidas necessárias. Teremos que construir este sistema de governança global, e isso deverá demora algumas décadas. Um tempo que não dispomos, pois as mudanças climáticas já estão entre nós e se acelerando. Temos que agir já, pois a ciência do clima é robusta o suficiente para mostrar a urgência da necessidade de redução de emissões, e agora indicando como reduzir e quanto vai custar. Mas, falta governança.

Paulo Artaxo é doutor em Física Atmosférica pela Universidade de São Paulo (USP), onde é professor titular. Atua nas questões de mudanças climáticas globais e meio ambiente na Amazônia. É membro da equipe do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima), que foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz de 2007.

Artigo originalmente publicado no portal Amazônia Real e reproduzido pelo EcoDebate, 28/04/2014


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