Resenha do livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, ‘La Chute du Ciel: paroles d’un chaman yanomami’, por Mônica C. Lepri

 

Kopenawa, Davi & Albert, Bruce

La Chute du Ciel: paroles d’un chaman yanomami

Paris, PLON/Terre Humaine, 2010

Resenha de Mônica C. Lepri
Antropóloga INCRA-RJ / Doutoranda PPGA/UFF

La Chute du Ciel: paroles d’un chaman yanomami

Ao futuro leitor da esperada tradução brasileira de La Chute du Ciel (CC),1 sobretudo o não-especialista em Etnologia Ameríndia que seu primeiro autor – o xamã yanomami Davi Kopenawa (DK) – visou alcançar, sugiro iniciar a leitura deste tesouro “desenhado na pele do papel” por seu segundo autor, o antropólogo francês Bruce Albert (BA), pelo Anexo IV do livro: Le Massacre Haximu. O denso texto atualiza artigo que BA publicou em 1993, após participar, junto com DK, como intérprete e conselheiro antropológico no inquérito da Polícia Federal e da Procuradoria Geral da República sobre massacre cometido por garimpeiros brasileiros que vitimou, de forma covarde e cruel, 16 jovens, velhos, mulheres e crianças Haximu, um dos 250 grupos identitários Yanomami (CC: 627-640).

A alta tessitura etnológica da narrativa de Bruce Albert é responsável por realçar uma segunda dimensão do massacre, para além da morte física: a do extermínio de toda uma ontologia e de sua respectiva epistemologia,2 cujo peso da ausência os Haximu carregarão pela vida. É padrão no mundo Yanomami os conflitos entre os grupos rivais serem ritualizados em combates mortais de homens guerreiros apenas contra outros homens guerreiros: “as mulheres e crianças de uma comunidade inimiga nunca são visadas” (CC: 632). A elegância da solução de nossos povos originais para o incontornável problema da guerra vem sendo enaltecida por filósofos ocidentais desde Montaigne: o guerreiro se oferece em sacrifício no ato mesmo de matar (e por vezes comer) quem matou um dos seus, pois assim transforma seu corpo no alvo da ira da vingança inimiga, que um dia virá, em um ciclo sem fim que garante uma existência tranquila para parentes e afins de ambos os lados e imortalidade a seu espírito.

Mas o horror metafísico dos sobreviventes ao presenciar seu mundo ser invadido e sua visão de mundo ser estilhaçada por tal “barbárie sanguinária” – vislumbrada até então só em seus mitos sobre “espíritos maléficos” – engendrou uma resposta dos Haximu aos garimpeiros, contudo, que prima pela sutileza de sua reflexão filosófica, como realça BA no penúltimo parágrafo do texto sobre o massacre:

Eles renunciaram a se vingar dos garimpeiros. Eles o teriam feito se tivessem continuado a considera-los como inimigos dignos deste nome, como seres humanos que partilham um mesmo código ritual de honra guerreira. Não era mais o caso. Eles só esperam que esses seres maléficos sejam mantidos cativos nas cidades de onde vêm, e nunca mais possam voltar à floresta (CC: 640).

No último parágrafo, escrito a posteriori, ficamos sabendo que dos 23 garimpeiros indiciados só 5 foram julgados e apenas dois passaram algum tempo presos. Porém, emendando neste esperado resultado, BA finaliza o texto chamando a atenção para o seguinte fato: com o caso Haximu pela primeira vez no Brasil um massacre de índios foi considerado, juridicamente, “tentativa de genocídio” (CC: 640).

Tal avanço na tipificação do extermínio étnico como crime contra a humanidade pode ser percebido, pelo leitor encantado com e pelo livro, como um dos frutos do projeto cosmopolítico de inspiração xamânica de DK, gestado desde sua primeira infância e posto em prática de forma consciente a partir de meados dos anos 1970. Essa experiência de leitura pode ser comparada a de brincar com um caleidoscópio no qual as peças de vidro colorido fossem entes reais: a floresta e suas gentes, a terrível fumaça canibal xawara que emana dos corpos e das máquinas dos Brancos, o sopro do pó yakoana que faz ver e ouvir os espíritos xapiri e devir outro, os xamãs que sustentam o céu, os textos etnográficos de BA, que contextualizam e enriquecem a narrativa xamânica, o discurso político e o alerta ecofilosófico de DK.

Em um caleidoscópio clássico, cada peça de vidro mantém sua individualidade enquanto se desloca no cilindro movimentado pelo observador: é sua fugaz localização relativa às outras peças únicas (e vice-versa), refletida e configurada pelo jogo de espelhos, que contribui para criar a miríade de mandalas que se sucedem e nunca se repetem em sua beleza instantânea. Mas o caleidoscópio proposto pela parceria de DK e BA encontra-se a uma distância fenomenal da experiência lúdico-estética proporcionada pela invenção ótica do séc. XIX: suas peças são entes vivos (incluem espíritos e espectros dos mortos), cuja interpendência mútua oferece a experiência de uma outra ontologia, moldada e sustentada pela epistemologia de base xamânica yanomami, na qual a própria identidade de cada peça também se modifica no desenrolar do ‘jogo’ da história.

Para um lampejo do que tal leitura caleidoscópica do livro pode provocar, apresentamos a seguir as principais peças-vivas que configuram esta realidade cosmopolítica intercultural, fruto maduro de um raríssimo bom encontro entre “dois universos”, forjado pela longa afinidade e parceria do yanomami nascido em uma “terra-floresta” ainda sem Brancos em 1956 e do antropólogo nascido em uma “cidade de pedra” francesa quatro anos antes.

BA define como le livre o relato de DK – “ao mesmo tempo história de vida, autoetnografia e manifesto cosmopolítico”-, que ocupa mais de 500 das 817 páginas da edição de bolso francesa: são palavras ditas em sua língua natal, registradas em quase cem (100) horas de gravação entre 1989 e 2001, transcritas em mais de mil páginas com a ajuda de um programa de computador criado especialmente para dar conta da tarefa, depois indexadas, formatadas, trabalhadas pelos dois autores, ganhando redação final primeiro em yanomami, e só então traduzidas em francês e publicadas pela emblemática coleção Terre Humaine 3 de forma a que “soassem e surtissem efeito em nosso mundo” (CC: 26).

O’ livro de Davi Kopenawa, redigido na primeira pessoa visceral que o produziu, é composto por três partes, com 8 capítulos cada uma. Abrindo o trabalho do xamã, um curto texto chamado Paroles données: nele DK dá seu aval ao que leremos e nos conta que BA falava como um “fantasma” quando chegou para viver com os Yanomami, mas aos poucos foi virando “ser humano” como eles. Por isso, quando DK mirou (no sentido xamânico e cosmopolítico) os Brancos capazes de ouvir e aprender com o mundo e a visão de mundo de seu demiurgo Omama, foi a BA que ele confiou a missão de escrever em língua napë (estrangeira) as palavras sempre vivas de seu povo e de seus espíritos, tão diferentes das nossas, que envelhecem porque “permanecem coladas à pele de imagens feita de árvores mortas” (CC: 40).

Na primeira parte ‘do’ livro – Devenir autre – DK relata: o curioso tabu que proíbe um yanomami de ter um nome (apenas quando adultos ganham um “apelido”, que é ofensa pronunciar em sua presença); os sinais precoces de xamanismo na primeira infância e a iniciação tardia, feita pelo pai de sua esposa, um respeitado xamã, em 1980; suas cintilantes versões das narrativas mitológicas yanomamis, engendradas pelo ‘par de oposição’ 4Omama, demiurgo benfeitor e seu irmão Yoasi, o trapaceiro: o primeiro é o criador dos Yanomami, dos espíritos xapiri e do pó yakoana que ajuda os xamãs a combater os seres maléficos e a morte que o segundo espalhou pelo mundo; o alerta sobre o perigo de um caçador de animal rixi das altas montanhas (duplo que forma uma totalidade com cada yanomami) magoar, capturar ou até mesmo devorar a “imagem” de uma pessoa, que se transmuta em “espectro” e a abandona, por isso apenas sua “pele”, vazia, mingua deitada na rede – entre outras tantas peças-vivas que compõem a base xamânica do caleidoscópio.

Como sintetizado no nome dado ao conjunto dos oito capítulos iniciais ‘do’ livro – Torna-se outro –, a riqueza da epistemologia xamânica yanomami se baseia na experiência de ser muitos outros em si mesmo e de ser outro para tantos outros si-mesmos, em um regime de alteridade inclusiva da multiplicidade e de suas singularidades.

A segunda parte se chama La fumée du Métal e em seus capítulos Kopenawa relata sua visão sobre o mau encontro com os Brancos: agentes do governo brasileiro “encarregados” dos índios, missionários estrangeiros, soldados e peões da Rodovia Perimetral Norte, os assustadores garimpeiros, canibais do ouro que Omama enterrou no fundo da floresta, todos portadores e produtores da fumaça xawara das epidemias e venenos que começaram a dizimar seu povo, suas águas, sua floresta, no tempo em que ele era apenas uma criança sem nome, como qualquer yanomami.

Como realça BA, no caso de DK, “os relatos dos episódios cruciais de sua vida entrelaçam de forma indissociável história pessoal e destino coletivo” (CC: 25): a alfabetização na língua yanomami pelos missionários de Teosi (Deus); o português aprendido no hospital de Manaus, onde foi o primeiro Yanomami a pisar, para tratar uma tuberculose; seu recrutamento como intérprete pela FUNAI, ainda adolescente, que o colocou em contato com outras etnias amazônicas, com as frentes de expansão de nosso capitalismo selvagem e com a engrenagem político-administrativa nacional; a descoberta de que era possível “fechar” a terra de seu povo, objetivo pelo qual começa a lutar, se formando xamã, tecendo alianças internas e externas, colocando em moto um projeto cosmopolítico intercultural visando combater o crescente terror que o avanço de L’Or Cannibale – título do capítulo final desta parte – provoca em seus sonhos e visões sobre a floresta e suas gentes, cerne do desfecho do livro.

A terceira parte se chama como o livro: La Chute du Ciel. Inicia com a explicação sobre a fala hereamu, uma prática cotidiana yanomami na qual os “grandes homens” comentam, exortam e ensinam os seus íntimos. A fala hereamu emana da “imagem” do falcão kãokãoma, dono de uma voz potente, que por vontade própria desce sobre o peito da pessoa (não precisa ser xamã) e aí se instala, se ela permitir, permanecendo invisível e insuflando vigor às palavras que brotam ágeis e firmes e inspiradas de sua garganta (CC: 396). Como de costume, DK credita a força de seu discurso – que provocou uma onda de apoio interno e internacional canalizada na homologação dos 9,6 milhões de hectares da TI Yanomami, às vésperas da Conferência Mundial RIO 92, entre outras conquistas – à sabedoria dos antigos, à generosidade de Omama, à ajuda dos seres da floresta.

Em todos esses anos, ele nunca deixou de viver com o sogro, a mulher, os filhos e agora os netos na grande casa coletiva aos pés da “montanha do vento”, onde moram seus espíritos xapiri e suas cinzas um dia serão enterradas: sua “singularidade radical” enquanto emissor e interlocutor Yanomami se nutre disso.

Importante remarcar o quanto Chico Mendes merece reverência especial em seu percurso: “homem verdadeiramente inteligente, cujo sopro de vida e o sangue se assemelham aos nossos”, o primeiro Branco que ele ouviu falar em proteger a floresta, assassinado antes que DK (na época também ameaçado de morte por um garimpeiro chamado Zeca Diabo) realizasse seu desejo de conhecê-lo: até esse bom encontro, confessa, sua defesa de Urihi, o espírito “terra-floresta”, se resumia à “cólera de discorrer sem parar contra os garimpeiros”. Depois de escutar as “verdadeiras e belas” palavras de Chico Mendes sobre o que alguns Brancos chamam de ecologia e natureza, seu pensamento “se expandiu”: “Graças a elas, eu soube melhor como entrar em contato com os habitantes da cidade para defender nossa terra e compreendi que não era suficiente proteger apenas o pequeno lugar onde nós moramos” (CC: 521-523).

Um ano depois da morte de Chico Mendes, na véspera do Natal de 1989, Davi Kopenawa assiste, na casa da antropóloga Alcida Ramos (UnB), a um programa da Rede Globo de Televisão sobre a devastação ambiental causada pelo avanço do garimpo do ouro nas altas terras yanomami. Chocado com as imagens, ele diz, em português: “Os brancos não sabem sonhar, é por isso que eles destroem a floresta dessa maneira” (CC: 581). Impactada com a afirmação enigmática, a antropóloga propõe gravar suas reflexões a respeito do que ele acabara de ver. O resultado são três horas de um discurso angustiado sobre doenças, mortes, violência e destruição causadas pelos “comedores de terra”, entrecortado por reflexões xamânicas, feito em sua língua natal e enviado a BA para que ele o traduzisse. Essa mensagem é considerada, por BA, o “evento fundador que selou entre nós o pacto político e ‘literário’, o qual se encontra na origem deste livro” (CC: 582).

Assim começam os encontros e conversas gravadas DK-BA, que se prolongarão por mais de uma década, e que quase outra depois resultaram neste livro incandescente, enviado a nós, os napë (não-yanomami) capazes dar ouvidos a quem fala pela floresta. De seu caleidoscópio-vivo emerge uma análise dilacerante da pobreza de nossos sonhos e da futilidade de nosso mundo, que “enlouquece a floresta” para inundar as cidades de insensatas máquinas, capazes de nos fazer esquecer nossa infelicidade, mas não de nos fazer felizes. DK nos apelida “o povo da mercadoria”, os pais da fumaça xawara, que envenena até os velhos xamãs yanomamis que sustentam o céu, prestes a cair sobre todos: índios, brancos, amarelos, negros, azuis, jaguares, pecaris, aviões…

Após 24 densos capítulos, DK fecha os trabalhos ‘do’ livro com Paroles d’Omama: dessa vez, são o próprio criador e suas criaturas encantadas, os magníficos espíritos xapiri – que descem do céu em seus espelhos de luz para dançar conosco e se alimentar do pó yakoana, usado pelo xamã yanomami para “devir outro” e “deixar de ser ignorante” – quem nos alertam uma vez mais, ainda, sobre as consequências de nossa loucura suicida (CC: 556).

Muito mais que um bônus cativante, ‘o’ livro apresenta dezenas de preciosos desenhos feitos por DK dos seres e entes da floresta, do mundo dos brancos e do mundo dos espíritos, que são como um caleidoscópio à parte, imagético em seu simbolismo. E com eles fechamos a resenha ‘do’ livro de autoria pessoal de Davi Kopenawa.

Além dos desenhos, dois outros conjuntos de imagens contribuem para a coleção de peças do caleidoscópio: meia centena de fotos, de vários autores e épocas, que conversam de forma mágica com as histórias ‘do’ livro e sete Mapas (de matriz cartográfica ocidental) capazes de localizar etno-geograficamente o leitor.

Depois de todas essas peças-vivas que resumidamente apontamos, ainda nos restam mais de duzentas e cinquenta páginas a resenhar, que abrigam o esclarecedor livro ‘do’ livro, de autoria exclusiva do antropólogo BA. O livro de Bruce fornece aos leitores especialistas e aos suficientemente conhecedores do xamanismo amazônico (que colocou a antropologia na crista da onda nestes tempos de pré-queda do céu) um extraordinário sustento de base etnológica e linguística ‘ao’ livro de Davi. Das peças-vivas que compõem a narrativa do antropólogo, duas são importantes escritos peri-textuais inseridos no corpo ‘do’ livro de DK: o primeiro precede as palavras do xamã, como um prefácio de apresentação clássico (Avant-propos); o segundo as sucede, com uma generosa e corajosa síntese do contexto etnográfico e político de sua antropologia, existencialmente ligada aos Yanomami por mais de quarenta anos já: Post-Scriptum: lorsque Je est un autre (et vice versa) é seu título.

Neste escrito encontramos confissões a respeito de seus preconceitos etnocêntricos iniciais, calcados em uma presumida “autenticidade” de certos índios em relação a outros, “aculturados”, como o próprio Davi Kopenawa foi classificado ao ser-lhe apresentado em 1978, por causa do short, camiseta, havaianas, cabelo cortado e do emprego no Posto de Funai (CC : 577). Há também um detalhado relato de sua formação acadêmica (iniciada na Paris de 1968), seus percalços de campo na Amazônia da tenebrosa década de 1970, sua participação como co-fundador da estratégica Comissão Pró-Yanomami (CCPY), seu tornar-se um falante e escritor fluente do Yanomami (pré-condição do “pacto etnográfico” que o sagrou privilegiado guardador do saber local) e também de sua experiência como hóspede integrado ao cotidiano de produção e reprodução social do grupo, na imensa casa coletiva, nos jardins de mandioca, banana e cana de açúcar, em suas festas reahu, nas quais as cinzas dos ossos dos mortos são consumidas ou enterradas.

Ao lado destes temas tradicionais da etnografia indígena, BA reflete sobre o desafio de ser receptor, interlocutor, meio de registro, de tradução e de expressão da espantosa mensagem “intelectual, estética e política” sobre nós e nossa civilização, que demandou um investimento metodológico complexo, inovador e de folego, claramente exposto e problematizado em suas etapas etnográficas e questões etnológicas, e que justamente fecham ‘o’ livro de DK que ele trouxe à realidade. Dado o escopo de uma resenha, entre tantas questões instigantes deste Post-Scriptum, escolhemos uma na qual BA procura refletir sobre o processo de fusão das duas epistemologias, a oral e a escrita, imanente à coautoria ‘do’ livro:

Este livro constituído de relatos autobiográficos e de reflexões xamânicas é redigido em primeira pessoa, a que carrega com vigor e inspiração a voz de Davi Kopenawa. Contudo, esta primeira pessoa engloba explicitamente um duplo “eu” [o do redator, BA], é um “texto escrito-falado a dois”. Trata-se de uma obra de colaboração na qual duas pessoas (…) se engajam em se fazer uma, um compartilhamento de identidade no qual dois autores coabitam no seio do mesmo ‘eu’, o que fala e o que escreve (CC: 589).

BA encerra o que ele mesmo nomeou “o livro” de DK com este testemunho sobre “quando eu é um outro (e vice-versa)”, no qual espera ter “dado espaço à personalidade de exceção do narrador, David Kopenawa (…) de forma a que ele mesmo pudesse oferecer seu próprio ponto de vista sobre o pacto e o projeto que sustentaram nossa empresa comum” (CC: 603).

Um folha depois, na página 605, começa o livro de BA, o etnógrafo, indispensável ao leitor especialista, que talvez pudesse ser editado em volume separado, facilitando a consulta de suas preciosas referências. Seu livro se abre com quatro Anexos informativos, accessíveis e úteis a todos os leitores ‘do’ livro de DK: Ethnonyme, langue et ortografe; Les Yanomami au Brésil; A propos de Watoriki;Le massacre Haximu. Já os dois Glossaires – um etnobiologique e outro géografique (em yanomami, português e francês) – formam um bloco de informações que talvez sejam de interesse mais exclusivo do grupo de leitores especialistas em etnografia, principalmente amazônica. Depois, BA nos brinda com cem (100) páginas de Notes, irresistíveis e essenciais, apesar da fonte diminuta, acompanhadas de extensa e detalhada Bibliografie.

E então vem a parte indispensável para qualquer aprendiz de etnógrafo: o Index Thématique elaborado por BA: uma verdadeira aula “desenhada na pele do papel” a respeito do ‘par de oposição’ registro etnográfico/elaboração etnológica em ação. Retomando a metáfora do caleidoscópio-vivo, uma leitura ‘do’ livro de DK feita a partir das classificações etnológicas e das citações etnográficas propostas por BA descortina outro livro dentro ‘do’ livro. O Índice se apresenta ao leitor separado em três grandes temas, que o escopo de uma resenha não nos permite abordar em sua riqueza de detalhes e clareza antropológica. São eles:

– Présentation: entradas para a biografia dos dois autores, do próprio livro e dos Yanomami;

– Etnographie: referências agrupadas em Agricultura, Cosmologia. Caça, Xamanismo, Jogos Infantis, Morte, Festas, Guerra e Homicídio, Alucinógenos e Sonhos, Duelos Rituais, Troca, Menstruação, Magia Amorosa, entre dezenas de outras;

– Histoire du Contact:Epidemias, FUNAI, Brancos, Garimpeiros Clandestinos, Prêmio Global 500, Missões, Ferramentas Metálicas são entradas para relatos dos Yanomami sobre o outro em suas múltiplas faces.

Bruce Albert nos brinda ainda com um Indice des entités chamaniques e cosmologiques, propiciando outro itinerário caleidoscópico, cujas peças são os entes que dão vida à ontologia Yanomami: da encantadora “árvore-que-canta” ao terrível “fogo canibal” (espírito do vulcão).

Fechando seu livro, sinceros Remerciements pessoais do etnógrafo aos colegas e parceiros que ajudaram na publicação deste “manifesto cosmopolítico” intercultural proposto pelo xamã Davi Kopenawa.

Entre tantas considerações que o livro conjunto de Davi & Bruce suscita, escolho registrar três. A primeira, de cunho etno-biográfico, decorre da fusão da imagem da “queda do céu” com a imagem das minúsculas antenas espetadas no topo das montanhas que emolduram a Baía de Guanabara, quando vistas da janela da barca com a qual atravesso suas águas, quase diariamente. A percepção da fragilidade das matrizes virtuais que sustentam nossa ontologia atual – TV, Rádio, Celular, Internet – quando comparada à vigorosa ontologia geológica que a precedeu, a sustenta e a sucederá, provoca um estremecimento semelhante ao que DK sentiu em sua Watoriki: quão iminente pode ser a queda do céu. Sem xamãs, dominados por nossas próprias criações, precisamos continuar vivendo como se tudo o que nos é mais sólido – nossa ontologia calcada na realidade virtual sustentada por invisíveis ondas e sinais – não pudesse se perder no ar.

Para alimentar a ‘Máquina dos Infindáveis Fetiches’ – que vomita mercadorias nas cidades povoadas por “espectros” insaciáveis só porque não sonham – nossa cultura canibal “enlouquece a floresta”: no contexto cosmopolítico que une xamãs e ecologistas no respeito à ontologia carregada de mistérios da Natureza, existir é resistir para reexistir.

O segundo registro emana de um eco xamânico do passado: as reflexões de Macunaíma, herói mítico-literário de raízes amazônicas: de uma forma nada surpreendente para quem conhece seu pensamento filosófico, as considerações que tece sobre o mundo dos Brancos antecipam, com o humor ainda possível em um modernista, as conclusões hoje amargas de Davi Kopenawa. Na metálica São Paulo dos ‘Anos Loucos’, nosso avô Macunaíma já havia se espantado ao perceber que “a Máquina matava os homens porém os homens é que mandavam nas máquinas” e que aluta dos “filhos da mandioca” [referência à alvura da pele dos imigrantes] com as máquinas acabava sempre em empate pois

(…) a Máquina devia de ser um deus de que os homens não eram verdadeiramente donos, já que não tinham feito dela uma Iara explicável, mas apenas uma realidade do mundo (…) [no qual] os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens (Andrade [1928] 1976).

O registro final é o mais sombrio de todos: enquanto escrevia essa resenha, no inclemente verão carioca de 2014, as primeiras bacias de prospecção e exploração de gás de xisto na Amazônia foram licitadas e ganharam força as propostas de mudanças no Código da Mineração que procuram abrir Terras Indígenas e Unidades de Conservação à cobiça canibal do padrão chinês de produção hegemônico na economia mundial. Não é nada pessoal (e isso é muito ruim para a floresta e suas gentes). Muito pelo contrário: à tragédia farsesca dos militares de verde segue-se a farsa trágica dos militantes de vermelho, ambos devotos do ‘desenvolvimento e ponto final’. Agora, como antes, a mesma ignorância do outro, o mesmo ‘eu’ poderoso que por todos decide, também conhecido como Um, que nos confina a um cotidiano privado de sonhos, afogado em mercadorias insanas, triste: como os espelhos dos xapiri mostraram a um xamã yanomami.

São Francisco da Guanabara
em meio aos incêndios florestais do verão de 2014

Bibilografia

ANDRADE, Mário de [1928] – Macunaíma. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1976.

BATESON, Gregory – “The Cybernetics of ‘Self’: A Theory of Alcoholism”, in Steps to an Ecology of Mind. Jason Aronson Inc., Northvale, New Jersey-London, 1987.

RADCLIFFE-BROW, A. R. – “O Método Comparativo em Antropologia Social” [1951], in Desvendando Máscaras Sociais. Rio de Janeiro, Ed. Francisco Alves, 1975.

1As citações do livro estão em português (tradução própria), entre aspas duplas e em itálico no corpo do texto ou em parágrafos destacados, assim referenciadas = (CC: pág.). Algumas palavras e expressões que aparecem várias vezes no livro – por ex., “pele do papel”, “terra-floresta”– nem sempre vêm com identificação do número da página. As palavras em Yanomami estão em itálico, sem aspas.

2Aqui seguimos as indicações de Gregory Bateson: “Na história natural da existência do ser humano, ontologia e epistemologia não podem ser separadas (…) [mas] parece que não existe uma palavra conveniente que dê conta da combinação destes dois conceitos.” (Bateson 1987). Essa concepção de ontologia/epistemologia como formando um ‘par de oposição’ (ver Nota 4, a seguir) fornece o contexto propício para a compreensão da alteridade radical do mundo(ontologia)/visão de mundo(epistemologia) que o xamã Yanomami desejou ver impresso em “pele de imagens” com a intenção interagir com nosso mundo/visão de mundo ocidental.

3Inaugurada com Tristes Tropiques [1955], publicou Chronique des Indiens Guayaki: ce que savent les Ache chasseurs nomades du Paraguay, de Pierre Clastes, além de Eduardo Galeano e Darcy Ribeiro. Seu fundador e mentor, Jean Malaurie, faz a apresentação do volume, contextualizando a “extraordinária” contribuição do livro à “tribo” Terre Humaine.

4No sentido que Radcliffe-Brown empresta a essa expressão, centrado na idéia de “união dos postos tomada do Oriente por Heráclito e os pitagóricos (…) [cuja] mais completa elaboração pode ser encontrada na filosofia Yin-Yang da Velha China. A sentença que a resume é a seguinte: ‘Yi yin yi yang wei tze tao’: um yin e um yang fazem uma ordem” (Radcliffe-Brown [1951] 1975: 206-207).

EcoDebate, 06/03/2014


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