Futebol, violência das torcidas e hipocrisia, artigo de Valdeci Silva

 

Briga generalizada entre torcidas de Atlético-PR e Vasco (Foto: Heuler Andrey/ AGIF)
Briga generalizada entre torcidas de Atlético-PR e Vasco (Foto: Heuler Andrey/ AGIF)

 


TV flagra briga entre torcidas do Atlético PR e Vasco da Gama

 

[EcoDebate] Uma partida de futebol entre dois times de futebol É UM JOGO. E quando essa partida de futebol é entre dois times muito rivais ou de países diferentes – neste caso, a rivalidade quase sempre existe – é uma grande competição, é uma batalha, é uma guerra. E nas guerras tudo vale.

A mídia capitalista faz as pessoas viverem os jogos de futebol como se fosse, cada um deles, especialmente quando as equipes são muito rivais ou de países deferentes, o fato mais importante de suas vidas. A mídia faz uma cobertura superdetalhada e muito emocionante. Os torcedores não vão a um estádio de futebol assistir a uma partida de futebol. Eles vão a uma batalha; eles vão defender a própria honra. Eles têm participação decisiva no resultado do embate. Eles fazem parte do jogo. As direções das equipes de futebol sabem disso; os jogadores de futebol – aqueles que entram em campo e disputam jogadas com jogadores adversários – sabem disso; a mídia, especialmente essa, sabe disso, e, não só sabe como cria as condições apropriadas para se desenvolver, em cada torcedor- jogador, essa consciência, essa força, essa garra, esse espírito de vale tudo. Quando a torcida brasileira mata torcedor(es) de outro país, a mídia brasileira desconsidera o crime cometido, e defende a torcida brasileira com especial veemência ( há um caso recente, do ano de 2013 ).

Em resumo: um verdadeiro torcedor de futebol é um torcedor-jogador. Ela não vai um estádio de futebol para assistir a uma partida de futebol. Ele vai para participar da partida de futebol, que é uma batalha onde há confronto no gramado, entre os jogadores de futebol contratados pelos times de futebol, que chamarei de verdadeiros jogadores de futebol. O jogo de futebol segue regras previamente estabelecidas, mas durante a partida, quase sempre, há muitas ocorrências que escapam aos olhos treinados e à vasta experiência da arbitragem, a qual se confronta com a malandragem dos jogadores. As duas torcidas em campo, constituem dois grandes grupos de jogadores de futebol que se confrontam a ponto de causarem ferimentos e mortes entre seus membros, e destruição de estádios.

Diante da situação descrita – uma grande partida de futebol entre dois grandes times rivais – o que se poderia esperar da grande torcida-jogadora adversária do time de que fazia parte Tinga, jogador que entrou em campo nos últimos quinze minutos da partida, e que poderia mudar o resultado do jogo naquele momento, o qual lhe era favorável? Que aplaudisse Tinga? Que gritassem louvores e elogios a Tinga, o que, certamente, faria com que tivesse o melhor desempenho possível, podendo até ser decisivo para a mudança do resultado da partida?

Certamente, não. A torcida adversária do time de Tinga jogou conforme a lógica predominante em jogos competitivos. Era preciso evitar que aquele jogador, que acabara de entrar no jogo, fosse capaz de contribuir para que o resultado do jogo fosse alterado. Dentro de campo, muitas ofensas são ditas, com esse mesmo objetivo: desestabilizar emocionalmente o jogador adversário. Se alguém não compreender o que estou dizendo, não tem conhecimento algum sobre jogos e competições em geral. Não sabe o que é blefar.

Quanto às questões legais relacionadas a preconceitos raciais, considero um exagero ético tentar incluí-las no contexto de uma partida de futebol, especialmente quando o fato foi praticado por uma multidão que ‘lutava em defesa de sua honra’.

NOTA: o texto apresentado acima faz breve descrição de partidas de futebol e de guerras, e do estado emocional a que torcedores e soldados são induzidos, aqueles pela mídia capitalista – que prega um amor do torcedor pelo seu time que seja tão intenso a ponto de levá-lo a sacrificar a própria vida; e estes – os soldados – pelo sentimento de amor à Pátria. Estes sentimentos estão em desacordo com os meus, e com minhas convicções sociais e políticas, as quais me levam a defender a prevalência do sentimento de COOPERAÇÃO, entre indivíduos e Nações, sobre o sentimento de COMPETIÇÃO.

Valdeci Silva. Sou Arquiteto e Urbanista

Nota do EcoDebate: A ‘guerra’ de torcidas fez mais uma vítima quando o torcedor do Santos Márcio Barreto de Toledo, de 34 anos, morreu na noite de domingo, em São Paulo, após ser atacado por um grupo de torcedores ligado a uniformizadas do São Paulo. Em 2013, foram registradas 30 mortes relacionadas ao futebol.

EcoDebate, 26/02/2014


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