Produtores ribeirinhos pedem socorro. O caso da juta no Pará, artigo de João de Deus Barbosa Nascimento Júnior

 

PRODUTORES RIBEIRINHOS PEDEM SOCORRO: INEXISTEM PROGRAMAS DE PRODUÇÃO DE FIBRAS NATURAIS NO ESTADO DO PARÁ, o caso da produção de juta.

 

Cultivo de juta. Foto no blogue pautasnaweb ~ Política e economia
Cultivo de juta. Foto no blogue pautasnaweb ~ Política e economia

 

RESUMO:

Considerando que a cultura da juta é típica das áreas de várzeas e sendo, a região amazônica rica em áreas dessa natureza, por possuir a maior bacia hidrográfica do mundo, isso bastaria para mostrar a importância socioeconômica do seu cultivo para os ribeirinhos amazônicos.

Este artigo tenta resgatar o passado, fazendo um histórico da cultura no Estado do Pará, delimitando as áreas produtoras, detalhando seus aspectos geográficos, econômicos, demográficos, clima, solo, etc. E, alerta para as questões que dificultam a produção, comercialização e o abastecimento das indústrias do setor e, por fim, tenta fazer uma avaliação, dar sugestões para que possam amenizar a crise que o setor atravessa.

SUMMARY:

Whereas the culture of jute is typical of flood plains and being rich Amazon region in such areas by having the largest watershed in the world, it would suffice to show socioeconomic importance of its cultivation for Amazonian riverside.

This article tries to redeem the past, making a historical culture in the State of Pará, delimiting the producing areas, detailing their geographic, economic, demographic, climate, soil, etc. aspects. And, alert to the issues that hamper the production, marketing and supply of the industrial sector and, finally, attempts to make an assessment, give suggestions so that they can mitigate the crisis that the industry is experiencing.

INTRODUÇÃO:

A economia Paraense ainda vem sofrendo o agravamento da crise que assolou o país em 1989, cujos principais danos causados foram a aceleração do processo inflacionário – com o fracasso do Plano Verão – e a queda dos investimentos públicos e privados, especialmente na logística necessária ao escoamento da produção agrícola brasileira, e o primeiro reflexo disso, foi o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A crise de 2008, com a derrocada do sistema financeiro americano e europeu, também tiveram as mesmas consequências, ampliada por uma crise cambial sem precedentes, empobrecendo, ou em outras palavras, dificultando nossas exportações, como as de café, Cebola e Batatas, que se utiliza de sacos ainda fabricados por fibras têxteis de origem natural, exceto algodão, foram prejudicadas mais uma vez, com o avanço da utilização dos sacos produzidos na Índia, dando assim, um tiro de misericórdia nas indústrias de aniagem, resultando na demissão em massas de trabalhadores tanto nas cidades quanto nas zonas rurais.

Sendo a Juta (Corchorus capsularis L.), uma cultura industrial e este setor teve como resultado um baixo incremento, em seu desempenho, que pode ser considerado desastroso no presente, que ocasionou o fechamento de mais uma dezena de indústrias têxteis no país, nos mostrando, através de seus indicadores socioeconômicos, que muitas vezes é negativo, por desestímulo oficial para o cultivo desta e de outras fibras vegetais como: Rami, Curauá e malva no Estado do Pará, na Amazônia de uma forma geral. Como resgatar esses cultivos? Quais as causas que levaram essas culturas, particularmente a cultura da juta, a sofrer o agravamento dos seus indicadores socioeconômicos? São questões que nos leva a refletir e procurar soluções técnicas, ambientais, sociais, creditícias e tecnológicas que amplie o cenário de possibilidades para incrementar tais mercados, já que grande parte das populações ribeirinhas do Estado do Pará e a Amazônia como um todo, ficaram sem nada fazer de produtivo, retirando do cardápio, atividades que geravam renda e ocupação para mais de 250.000 famílias espalhadas, só no Pará, na região do Médio Amazonas (Santarém, Óbidos, Oriximiná, Monte Alegre, Juruti, Almeirim, dentre outros municípios).

CONSIDERAÇÕES SOBRE A CULTURA DA JUTA:

HISTÓRICO:

A juta cultivada na Amazônia é uma planta dicotiledônea, têxtil, anual que pertence a família Tipiaceae, trazida da Índia em 1930, por imigrantes japoneses, que aqui vieram se fixar, cabendo ao senhor Ryota Oyama, no ano de 1934, adaptá-la às nossas condições edafo-climáticas, no município de Parintins, Amazônia (Libonati, 1958). Durante o processo de adaptação, provavelmente a juta deu origem, por mutação e/ou recombinação genética, a quatro cultivares conhecidas: Branca, Roxa, Lisa e Solimões.

CONDIÇÕES EDAFO-CLIMÁTICAS:

A juta sendo uma cultura tropical tem como ideal para seu desenvolvimento o clima quente e úmido, com variações de temperatura na ordem de 22° a 32° C, com umidade relativa do ar em torno de 90% e a precipitação pluviométrica variando entre 2.000 a 2.500 mm/ano. Os períodos secos podem prejudicar o desenvolvimento das plantas, como também, o excesso de água nos primeiros dias após o plantio. Quanto ao tipo de solo, depende da finalidade do plantio. Se o objetivo for a produção de sementes, deverão ser utilizados solos de terra firme de alta fertilidade natural como a terra roxa. Se o objetivo for a produção de fibras, então o solo deverá ser de várzea, onde predomina o solo Gley Pouco Húmico.

O SISTEMA DE PRODUÇÃO:

Na região, o cultivo é feito de duas maneiras, o primeiro para produção de sementes e o segundo para produção de fibras. Para a produção de fibras, o plantio deve ser iniciado nos meses de outubro e novembro e a área a ser colhida deve ser roçada, queimada e caso haja necessidade se elimina as touceiras (enovamento) existente, caso esta área já tenha sido usada em plantios anteriores. Para a produção de sementes, em área de mata virgem, usam-se as fases de broca, derruba rebaixamento, queima encoivaramento, iniciando-se em meados de julho de cada ano. Para a produção em áreas já alteradas deve-se iniciar o plantio no mês de janeiro. Quanto à época de semeadura, para produção de fibras, deve-se plantar no início da época chuvosa, esse período se inicia na Amazônia no mês de dezembro. Para a produção de sementes a melhor época é a primeira quinzena de janeiro. Em relação às etapas de colheita e beneficiamento, para produção de fibras, no início da floração, ou seja, quando 80% das plantas estiverem florando, corta-se com um facão, a uma altura de 20 cm do solo, enfeixa-se (cerca de 20 a 30 hastes), e deixa-se secar a sol, para que as folhas caiam; após leva-se ao local de maceração biológica (afogamento), durante 10 a 15 dias em água semi-corrente. Após esse procedimento, desfibra-se, lava-se com água corrente e estende-se em varais para secagem, tendo-se o cuidado de retirá-las, para que sequem uniformemente. E, para a produção de sementes, temos duas operações, a primeira seria o corte na secante e a outra a batedura, daí as sementes são colocadas em recipientes adequados até a época de plantio. Quanto a etapa de armazenamento, as sementes devem ser conservadas em latas, sacos plásticos (0,15 mm de espessura) e reservatório plástico, pelo período de até 16 meses.

No que se refere a comercialização essa deve ser feita diretamente às indústrias ou a Comissão Nacional de Abastecimento – CNA. Com relação ao emprego, são os mais diversos, que vão desde ao preparo de sacos de aniagem até os produtos mais bem processados com maiores valores agregados como produtos de revestimentos e peças artesanais.

PRINCIPAIS ESTADOS E MUNICÍPIOS PRODUTORES:

A produção brasileira de juta se concentra na Região Norte, estando às áreas restritas as várzeas dos Estados do Pará e do Amazonas. Seu cultivo apresenta grande dependência do comportamento anual do nível das águas dos rios das zonas produtoras, às vezes, as águas alcançam os cultivos antes da época prevista para o corte, enquanto que outras vezes, essas águas ficam muito distantes das áreas de plantio, dificultando assim, a maceração ou “afogamento” da colheita. A área plantada de juta no Estado é pouco significativa, considerando as áreas de várzeas disponíveis com potencial para seu cultivo.

A fibra de Juta produzida no Estado é comercializada junta às indústrias têxteis no estado (60%) e no país (40%), e, essas, mantêm sempre compradores nos locais de produção, muitas das vezes fazendo o que se chama na região de “aviamento” ou troca de produto por gêneros de primeira necessidade, a preços escorchantes.

Tradicionalmente os principais municípios produtores de juta no Estado do Pará são: Juruti, Almeirim, Santarém, Óbidos, Porto de Móz e Gurupá.

IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO:

Nos anos 80, pelo lado da importação, o mercado dos têxteis de fibras brutas (exceto algodão), sofreu um impacto forte no mercado externo, ao competir diretamente com a indústria Indiana, que oferecia os mesmos sacos para café, por exemplo, a cerca de Cr$ 75,00, enquanto no Estado do Pará, o custo do mesmo produto era de CR$ 249,00 (fonte SACIPAN, 1988), naquela época, já caracterizava, ou um “Dumping” ou falta de competitividade do mercado brasileiro. Isso ainda, nos dias de hoje, existe o mesmo problema, e, como consequência, a demissão de mais de 25 mil empregados ligados diretamente as indústrias pelo fechamento de mais de uma dúzia delas pelo país e mais de 250.000 famílias sendo prejudicadas diretamente, em seus rendimento mensal, por não ter mais para quem vender sua produção, no oeste do estado do Pará.

PESQUISA AGRÍCOLA:

A juta desempenha papel importante na geração de ocupação e renda complementar aos agricultores ribeirinhos nos Estados do Pará e Amazonas. Segundo Jefferson & Milton Mota, foram testadas oito linhagens de juta (Corchorus capsularis L) oriundas da Índia e quatro cultivares locais assim identificadas: Linhagens introduzidas (Dhalesware; S.P.F. nº 3; S.P.F. nº 4; C. capsularis sem identificação; J.R.C. 321; Cheneese; CV 154 e Taoyuang Green Bark). Cultivares locais (Roxa (P. 123); Roxa (P-3); Branca e Solimões). Os resultados de produção de fibra seca no campo, no período de 1977 a 1986, mostraram os seguintes desempenhos:

TABELA 1 – Desempenho de produção entre as linhagens introduzidas e as cultivares locais:

Linhagem/Cultivar local Fibra seca (kg/ha) Fibra seca (Kg/ha)
Dhalesware 575,51 1712,83
C. Capsularis L s/ident. 289,10 860,42
Taoyuang Green Bark 222,00 660,72
S.P.F. nº 4 191,75 570,69
S.P.F. nº 3 189,38 563,63
C.V. 154 132,83 395,33
J.R.C. 321 131,43 391,16
Cheneese 112,00 333,26
Roxa (P-123) 728,43 2.167,95
Roxa (P-3) 566,95 1.687,35
Branca 507,75 1.511,16
Solimões 264,00 785,71

Fonte: Embrapa Amazônia Oriental, resultados de pesquisa, 1977 a 1986.

As pesquisas realizadas tiveram como objetivo central, comparar o potencial produtivo das linhagens introduzidas, trazidas da Índia e EEUU, com cultivares locais, em uso na região, em seguida melhorá-las.

A cultivar que apresentou o melhor rendimento por hectare foi a Roxa 123 (local), com uma produção experimental de matéria seca na ordem de 2.167,95 kg/ha, sendo a cultivar um produto de melhoramentos genéticos sucessivos já realizados pela Embrapa Amazônia Oriental, comparando-se com a cultivar Roxa tradicional que tem um rendimento médio na ordem de 1.200 kg/ha, obteve-se um acréscimo na produção/hectare em torno de 80,66%.

SUGESTÕES:

  1. Aconselhar o agricultor a não praticar o monocultivo da Juta e sim utilizar a rotação de culturas ou sistemas de produção em consórcio com outras culturas de subsistência como milho, arroz, feijão, etc;
  2. Tornar o cultivo da Juta como atividade “redutora de custos”. Isto se daria, dando ao agricultor conhecimento da utilização do tear, e este faria de forma artesanal os sacos, telas, cordas, tapetes, etc., além da redução dos custos de produção ou a renda gerada, seria reaplicada nos sistemas produtivos das culturas de subsistência aqui citadas, que garantiriam a segurança alimentar das populações ribeirinhas;
  3. Tornar as práticas mais profissionais do ponto de vista mercadológico, não comercializando apenas o material bruto, como matéria prima, para outros processos industriais, e sim, utilizando-se de tecnologias que pudessem produzir materiais que seriam utilizados diretamente para outras indústrias mais bem posicionadas no mercado, como por exemplo, a indústria automobilística e de contenção de encosta e asfaltamento de vias urbanas e de estradas rurais como revestimento anterior a pavimentação asfáltica, como já é utilizada em outros países.

BIBLIOGRAFIA:

Nascimento Jr. J.D.B. do; ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS DA CULTURA DA JUTA NO ESTADO DO PARÁ – Belém, PA, 1991, 25p.

João de Deus Barbosa Nascimento Júnior
MSc em Planejamento do Desenvolvimento
Analista A da Embrapa Amazônia Oriental
Joao.nascimento@embrapa.br

EcoDebate, 10/02/2014


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