João Zinclar. Um ano sem ele

 

João Zinclar, em foto de Flaldemir Sant’Anna
João Zinclar, em foto de Flaldemir Sant’Anna

 

“Mudar o mundo eu acho que é uma tarefa muito maior do que a fotografia. Mudar o mundo é ter milhões de pessoas na rua em movimentos contra os opressores, contra as ditaduras, é isso que muda o mundo. E a fotografia, se ela quiser cumprir esse papel, tem que andar pari passu com esses movimentos, colocando realidades objetivas e subjetivas, porque não existe verdade absoluta.”
(João Zinclar, em “Caçadores de Alma”, de Silvio Tendler: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ydBFjU8EPW4).

 

Ele eternizou várias lutas, manifestações e ações de movimentos sociais por meio de suas imagens. João Zinclar Lima Silva, fotógrafo e militante…, nos deixou há um ano.

 

Elvis Marques, da Comunicação da CPT Nacional

Histórias de lutas, mobilizações de movimentos sociais, marchas, a busca por direitos e por condições melhores de vida ou o olhar de esperança. Esses são alguns episódios capturados pelas lentes de João Zinclar. O fotógrafo e militante morreu há um ano após acidente em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. Passado esse tempo, João continua vivo, com o povo, por meio de seus registros históricos.  “É gratificante colocar minha fotografia a serviço da luta do povo”, dizia ele.

As fotos produzidas por Zinclar denunciavam, muitas vezes, o descaso do poder público com o povo. Mas as imagens também ressaltavam a cultura desse mesmo povo, retratava os rostos presentes em uma marcha em busca da tão demorada reforma agrária, a busca dos indígenas pela demarcação de suas terras. As fotografias capturavam ainda a felicidade e a esperança de gente que aprendeu a lutar desde cedo.

Crianças retratadas tão bem nos fazem refletir o porquê que a luta por nossos direitos não pode parar nunca. O menininho da foto, com a bandeira do MST ao fundo, parece soltar um grito. Será que tão novo ele já sabe o significado deste gesto dele? Bom, a imagem nos remete a pensar o quanto simboliza a mão erguida e o grito forte.  Na outra foto, os olhos da menina brilham e ao fundo os pais trabalham. O olhar brilha como quem vê e registra as vias de Brasília lotadas por trabalhadores em caminhada e em manifestação.

Ah, João viu e registrou muitas ruas, avenidas, rodovias, órgãos públicos e praças cheias de gente. Pessoas com cartazes e que carregavam bandeiras com orgulho e que sabiam muito bem o valor que elas possuem. Ele também não deixou fotografar questionamentos como “A transposição trará água para o povo do sertão???”. O trabalhador lá no alto de uma cruz para hastear a bandeira do movimento social era capturado com sensibilidade. Zinclar fotografou o sem terra em 1999, no acampamento Nova Canudos.

Quando procurada a definição de fotógrafo ou fotografia nos dicionários, muito se fala e se vê a palavra “técnica” nas explicações. Com certeza João Zinclar tinha muita técnica em suas fotos. Mas ele ia além. O militante conseguia capturar a alma, o momento e a história da foto. Seus registros são sempre atuais e repletos de mensagens porque eles vão além de simples fotografias, basta dedicar alguns minutos para olhar os momentos que ele eternizou, por meio de fotos, ao longo de sua vida.

Instituto

A primeira reunião para a formação do Instituto João Zinclar foi realizada no Dia do Fotógrafo, em 8 de janeiro deste ano, no Museu de Imagem e Som (MIS) de Campinas. Na reunião que decidiu pela fundação da instituição em homenagem ao pai, Victoria Ferraro Lima e Silva comunicou a autorização da guarda do acervo ao Museu da Imagem e Som de Campinas, onde o fotógrafo realizou exposições, oficinas e palestras voluntárias.

A reunião, convocada por Victória Ferraro deliberou que o Instituto será uma organização civil de interesse público, sem fins lucrativos, responsável pela preservação e divulgação do acervo do fotógrafo falecido em 19 de janeiro de 2013, aos 54 anos de idade. (Com Centro de Documentação e Memória Fundação Maurício Grabois)

Confira alguns relatos de movimentos sociais e pessoas que conheceram João de perto:

“Com uma habilidade e um olhar primorosos, João captava o sentimento dos trabalhadores, trabalhadoras, quilombolas, indígenas, militantes de todo o país, e de várias partes do mundo. Suas fotos há anos ilustram o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conflitos no Campo Brasil, que denuncia a cada ano os conflitos e a violência empreendida contra o povo do campo. João se somava a essa tarefa, ao ilustrar bravamente esses conflitos, e de fazê-lo de uma forma bela e forte ao mesmo tempo. Jamais perdeu a ternura ao retratar seus personagens. Ao fotografar o III Congresso Nacional da CPT, realizado em Minas Gerais em 2010, ele se encantou por uma senhora, quilombola do interior mineiro. Ele dizia que ela falava com simplicidade, mas com uma força de anos de história que a acompanhavam”. Nota da Coordenação Nacional da CPT

“Zinclar fazia da máquina fotográfica um instrumento de luta do povo brasileiro ao registrar as manifestações dos sem-terra, ribeirinhos, indígenas, quilombolas e operários. Foi um homem simples, humilde e genereso. Era um homem do povo e sempre esteve no meio do povo. Compartilhou com a nossa militância mais do que fotos, mas sua companhia, suas ideias e o bom humor”. MST (2013)

“A fotografia para o meu pai não era apenas uma arte, era uma forma de contribuir para a mudança da sociedade. O que movia o meu pai era a luta política e a convicção da necessidade, mais que urgente, de transformar a sociedade”. Victoria Ferraro Lima e Silva, filha de Zinclar

“A rica trajetória militante e fotográfica de João representa de forma única – pela ótica do povo que luta, nas cidades e nos campos – os últimos 30 anos da História do Brasil. Nela está belamente registrada a luta socioambiental pela vida do São Francisco – Terra e Água, Rio e Povo. Preservar e disponibilizar ao povo a obra de João é continuá-la, educando o olhar, a consciência e a atitude emancipatória”. Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Articulação Popular São Francisco Vivo.

“A maneira como João realizou e administrou seu acervo diz muito sobre sua opção ideológica, que orientou e deu sentido ao seu trabalho e à vida. Sua preocupação foi manter as imagens e informações sempre acessíveis e disponíveis para uso dos movimentos sociais”. Sonia Fardin, do Museu de Som e Imagem (MIS)

“Esse cara vai fazer falta neste mundo!”, estava escrito sobre esta foto que roubei do Facebook. Sem dúvida, vai! Todos os vazanteiros, quilombolas, indígenas, pescadores e lutadoras do São Francisco, começando por meu amigo Ruben Siqueira, perderam um grande companheiro. E com certeza o Velho Chico vai correr suas águas chorando um pouco com eles. Que viva João Zinclar!. Tânia Pacheco, do Combate ao Racismo Ambiental

Veja mais fotos de João Zinclar:

 

EcoDebate, 21/01/2014


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