A crescente presença feminina nos cursos superiores no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

A crescente presença feminina nos cursos superiores no Brasil

 

[EcoDebate] O Brasil demorou muito a criar universidades e dar acesso aos cursos superiores para sua população. No tempo da colônia não havia faculdades ou universidades. Entre o século XIX e a primeira metade do século XX a educação superior cresceu (embora menos do que o desejado), mas as oportunidades para as mulheres permaneceram muito restritas. Foi depois da Lei de Diretrizes e Bases da educação de 1961 (LDB – Lei no 4.024 de 20/12/1961) e das mudanças sociais e culturais ocorridas na década de 1960 que as mulheres começaram a entrar em massa na educação superior no Brasil.

Em poucas décadas as mulheres deixaram de ser minoria para se tornarem a maioria das pessoas com curso superior no Brasil. Segundo o Censo Demográfico de 2010, do IBGE, havia 13,5 milhões de pessoas com formação universitária no país, sendo 5,6 milhões de homens e 7,8 milhões de mulheres. Ou seja, havia 2,2 milhões de mulheres a mais com curso superior, representando 58,2% para o sexo feminino e 41,8% para o sexo masculino.

Houve, portanto, uma reversão do hiato de gênero na educação superior. As desigualdades de gênero mudaram de lado. E estão se ampliando a favor das mulheres.

Na parcela da população com mais de 70 anos de idade havia, em 2010, 47,7% de mulheres e 52,3% de homens, refletindo a hegemonia masculina que existia no passado. Todavia, no grupo 60-69 anos as mulheres já representavam 51,1% e os homens 48.9%. Quanto mais novo o grupo etário maiores são as vantagens do sexo feminino. No grupo etário 20-24 anos as mulheres já representam 62,5% das pessoas com curso universitário, contra apenas 37,5% dos homens.

As mulheres têm avançado em todos as áreas, embora ainda estejam atrás nos cursos de engenharia e computação e naqueles considerados da “ciência dura”.

O Brasil é um exemplo de país que conseguiu reverter o hiato de gênero na educação em geral e na educação superior em particular. O caso brasileiro pode servir de exemplo na medida em que as políticas universalistas adotadas no Brasil – tais como o direito de voto feminino, a educação igualitária, os direitos civis e de família da Constituição de 1988 – contribuíram para que as mulheres brasileiras avançassem na conquista de maiores níveis educacionais.

Todavia, se o hiato de gênero continuar crescendo, mesmo que a favor das mulheres, o Brasil contrariará as recomendações das Conferências Internacionais da ONU que apontam para a equidade de gênero em todos os campos de atividade. Homens com níveis educacionais muito inferiores ao das mulheres podem dificultar o diálogo e a convivência entre os gêneros (aumentando os níveis de violência). Evidentemente, é preciso elevar os graus de escolaridade dos homens e não interromper a ascensão das mulheres. Ao mesmo tempo, seria preciso, também, melhorar a qualidade do ensino para ambos os sexos.

Referências:

ALVES, J.E.D, CORREA, S. Igualdade e desigualdade de gênero no Brasil: um panorama preliminar, 15 anos depois do Cairo. In: ABEP, Brasil, 15 anos após a Conferência do Cairo, ABEP/UNFPA, Campinas, 2009. Disponível em:

http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/cairo15/Cairo15_3alvescorrea.pdf

BELTRÃO, K., ALVES, J.E.D. A reversão do hiato de gênero na educação brasileira no século XX. Cadernos de Pesquisa, FCC, São Paulo, V. 39, n. 136, jan/abr 2009, pp 125-156. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/cp/v39n136/a0739136.pdf

ALVES, J.E.D. Revolução feminina: as mulheres à frente na educação, EcoDebate, RJ, 23/07/10

http://www.ecodebate.com.br/2010/07/23/revolucao-feminina-as-mulheres-a-frente-na-educacao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED; CAVENAGHI, S. Indicadores de Desigualdade de Gênero no Brasil. Mediações – Revista de Ciências Sociais, Londrina, p. 83-105, 2013

http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/16472

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

EcoDebate, 16/10/2013


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