Aprovação da PEC 215 seria ‘o fim dos povos indígenas’, diz neta de cacique Raoni

 

Raoni Metuktire, cacique caiapó de 83 anos, durante manifestação em frente ao Congresso, 3 de outubro de 2013. REUTERS/Ueslei Marcelino/RFI
Raoni Metuktire, cacique caiapó de 83 anos, durante manifestação em frente ao Congresso, 3 de outubro de 2013. REUTERS/Ueslei Marcelino/RFI

 

Na semana passada, diversas etnias indígenas se mobilizaram para protestar contra a emenda constitucional 215, de 2000, que transfere do Executivo para o Congresso a demarcação de terras indígenas no Brasil. Os índios prometem manter a mobilização para impedir a modificação, que resultaria “no fim dos povos indígenas” no país, na opinião de Mayalu Txucarramae, uma das líderes do Instituto Raoni.

A proposta de emenda também abre o caminho para a revisão das terras já demarcadas. Mayalu é neta do cacique Raoni, conhecido internacionalmente, e participou das manifestações ao lado do avô. Segundo ela, os deputados federais, influenciados pela bancada ruralista, acabariam com a preservação dos territórios indígenas.

“Muda totalmente. O governo, queira ou não, precisa obedecer à Constituição. E passando pelo Congresso, ficará muito difícil. Seria o fim dos povos indígenas, porque os deputados só estão preocupados com os interesses próprios”, lamenta.

A representante dos caiapós afirma se sentir abandonada pelo poder público brasileiro: por um lado, a Funai (Fundação Nacional do Índio) é marginalizada dentro do governo, e por outro o Congresso é dominado por deputados que, segundo ela, não demonstram interesse pelas causas indígenas. “Todas as portas estão se fechando para a gente. Por isso que temos buscado o apoio da sociedade civil, de pessoas comuns, que não são nem do governo, nem da política. Todo mundo critica as ONGs, mas elas são as únicas que nos ouvem.”

O tema causa tensão na Câmara e já quase resultou em briga de tapas entre deputados favoráveis e contrários à PEC. Na semana passada, a votação do projeto foi adiada, mas agora a bancada ruralista promete obstruir a pauta das outras votações se a emenda não retornar à ordem do dia.

Maíra Irigaray, advogada e coordenadora do programa Brasil da ONG internacional Amazon Watch, destaca que, atualmente, a maioria das áreas florestais preservadas encontra-se em regiões indígenas. Para ela, é inadmissível haver retrocesso nesta questão. “As áreas realmente protegidas são indígenas, e essas leis ameaçam essas regiões. Nós chegamos a um ponto que não há mais para onde correr”, diz.

Maíra, que ajuda na articulação política dos índios, reconhece as dificuldades em manter a mobilização das tribos, afinal as distâncias são imensas e os deslocamentos em massa são raros. Mas ela percebe que, cada um na sua região, eles estão decididos a manter a pressão e agregar o apoio da sociedade civil à causa.

“Não é tão simples, mas de alguma maneira, este movimento existe há 513 anos, e estes povos têm resistido por todo este período. Enquanto houver sangue nas veias, eles não vão desistir”, constata.

Por enquanto, ainda não há data para a votação da PEC 215.

Matéria de Lúcia Müzell, da RFI, reproduzida pelo EcoDebate, 11/10/2013


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2 comentários em “Aprovação da PEC 215 seria ‘o fim dos povos indígenas’, diz neta de cacique Raoni

  1. A atual constituição do Congresso é um vergonha nacional. Esta casa está tomada por pessoas interessadas em beneficiar somente a si próprio e a apenas um setor do país, em detrimento de todos os outros. Querem fazer valer somente suas vontades e interesses nada republicanos, e como bem escreveu o autor da reportagem neste site sobre os três banhos de venenos que a soja poderá tomar daqui a pouco tempo, já que também as agências reguladoras estão capturadas ideologicamente, “DOA A QUEM DOER”. Enfim, é uma vergonha para nosso país este atual Congresso, salvo raríssimos e combatentes nomes…

  2. Concordo com você Renato, o congresso a cada dia vem tentando enfraquecer a Constituição, desatualizada ou não, é o único amparo legal. Já que moral, deixou de existir a muito tempo nesse país. Devo concordar com a Maíra, criticam as ONGs, mas elas são as únicas com interesse em melhorar a situação de vida dos indígenas, pelo menos algumas, já que os órgão públicos e as pessoas envolvidas com as políticas indigenistas nesse país querem acabar mesmo com os direitos dos índios! Querem acabar com os índios!

Comentários encerrados.

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