Episódio-parábola do Bom Samaritano: organização, personagens e tema, artigo de Gilvander Luís Moreira

 

artigo

 

Episódio-parábola do Bom Samaritano: organização, personagens e tema.

Gilvander Luís Moreira1

[EcoDebate] Para uma interpretação sensata e libertadora do episódio-parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) é preciso, entre vários exercícios, analisar a organização do texto, os personagens e a temática abordada. Eis o que segue.

1 – Organização do texto de Lc 10,25-37.

Podemos chamar o texto de Lc 10,25-37 de um episódio-parábola,2 que tem como figura central “um homem semimorto”. Em torno dele, diversos personagens se posicionam, em quatro cenas, além de uma cena introdutória e outra de conclusão:

Cena introdutória: Lc 10,25-29 – Diálogo de Jesus com o escriba sobre o que fazer para herdar a vida eterna.

1acena: Lc 10,30 – Um homem, vítima de assaltantes, impotente, quase reduzido à morte.

2a cena: Lc 10,31-32 – Um sacerdote e um levita vêem o “homem semimorto”, distanciam-se, rodeando e evitando o lugar onde se encontra o caído.

3acena: Lc 10,33-34 – Um samaritano entra em cena: executa uma série de “atos” destinados a recuperar o “semimorto”. Cena rica em detalhes.

4acena: Lc 10,35 – Mudança de tempo (no dia seguinte): introduz uma nova cena, mas a ação não é interrompida. Aparece um novo personagem, o dono da pensão, a quem é recomendado continuar os “cuidados”.

Cena de conclusão: Lc 10,36-37 – Conclusão: aplicação do episódio-parábola (Lc 10,30-35) às questões levantadas pelo escriba nos versículos 25 e 29.

2 – Os personagens de Lc 10,25-37.

No episódio-parábola de Lc 10,25-37 há vários personagens de vários tipos. Há personagens reais e outros implícitos. Vejamos.

  1. Escriba: homem identificado pela função de especialista na lei mosaica.
  2. Jesus: protagonista de todo o enredo, dirige a reflexão em torno da pergunta feita pelo escriba sobre o que fazer para herdar a vida eterna. Observem que Lucas não cita nenhum nome dos personagens desse episódio-parábola, exceto o de Jesus.
  3. Homem assaltado e ferido: “Único personagem que não foi identificado por uma marca social ou geográfica”.3 Dele se diz somente que viajava de Jerusalém para Jericó. Estava em movimento, depois foi “imobilizado”. Levado para uma hospedaria por um samaritano, onde ficou em “recuperação”.
  4. Assaltantes: são diversos, e o “homem” está “no meio deles”, “entre as mãos deles”. O foco não está na ação dos assaltantes, mas no estado deplorável no qual o assaltado foi deixado.
  5. Sacerdote: identificado pelo seu papel no templo. Como o assaltado, passa pela mesma estrada e no mesmo sentido: “Descia de Jerusalém para Jericó” (Lc 10,31). Seus “interesses pessoais”, como também do levita, são mais importantes do que socorrer um ferido, ameaçado de morte.
  6. Levita: personagem “semelhante” ao sacerdote, também identificado pelo seu papel no culto. Assim como o assaltado e o sacerdote, transita pela mesma estrada e no mesmo sentido. Como figuras do culto, o sacerdote e o levita representariam, em Lc 10,30-35, um tipo de piedade que favorece o sacrifício em detrimento da compaixão. Contra isso se levantou o profeta Oséias (Os 6,6, citado em Mt 9,13; 12,7), que enfatiza “quero misericórdia e não sacrifício”.
  7. Samaritano: personagem anônimo; identificado pelo seu país de origem; estrangeiro; impuro, segundo os judeus. “Está em viagem”, no mesmo movimento que os três primeiros personagens; não se sabe se ele ia a Jerusalém ou vinha daquela cidade e este detalhe é importante: tanto o assaltado quanto o sacerdote e o levita viajavam no mesmo sentido, de Jerusalém para Jericó, mas é possível que o samaritano estivesse viajando na direção contrária. Isso pode significar que o samaritano tinha suas responsabilidades pessoais; estava “em viagem” (de Jerusalém a Jericó?) trabalhando. Enquanto isso, o sacerdote e o levita estavam voltando de seu turno de trabalho no templo, e esta circunstância lhes daria maior disponibilidade de tempo.
  8. Dono da pensão: identificado pela sua profissão; não está em viagem por aquela estrada, mas tem uma hospedaria em um determinado ponto da estrada, onde exerce a profissão de acolher as pessoas. “O dinheiro que ele recebe faz dele quase uma extensão impessoal do samaritano”.4

3 – Temática em Lc 10,25-37.

A perícope de Lc 10,25-37, exclusiva do terceiro evangelho da Bíblia, não se preocupa em definir a questão “quem é o meu próximo?” A narrativa reflete sobre a misericórdia, redimensiona a pergunta do escriba e revela-nos que o primordial não é saber quem é o meu próximo, mas “fazer-sepróximo”. É nítido o contraste fundamental da narração. O sentimento de lástima e as atenções que presta um “herege e cismático” samaritano a um pobre homem, vítima de assaltantes das estradas, contrasta vivamente com a insensibilidade e a absoluta despreocupação, talvez inspirada pela própria lei dos representantes qualificados do culto judeu; precisamente aqueles que, por sua função e pela sua pertença a uma determinada tribo, tinham por missão “purificar” os afetados por alguma contaminação de ordem física (confira as funções do “sacerdote” em Lv 12.13.15).5

As prescrições sobre a impureza legal que se contraía por contato com um cadáver também faziam parte da Bíblia dos samaritanos, conhecida como Pentateuco samaritano. Mesmo assim essa prescrição não foi obstáculo para que um samaritano, protagonista da nossa “história”, depois de ver, se aproximasse, se comovesse e se envolvesse com um homem semimorto, em uma solidariedade gratuita e libertadora.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 12 de agosto de 2013.

Frei Gilvander Moreira – www.gilvander.org.brgilvanderlm@gmail.com

Facebook: Gilvander Moreira

 

1 Gilvander Luís Moreira, Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutorando em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos de Minas Gerais – CONEDH; Colaborador e Articulista do Portal EcoDebate; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.brwww.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira

Obs.: Esse texto é a “4ª parte” do artigo “Seguir Jesus, desafio que exige compromisso”, de Gilvander Luís Moreira, publicado no livro “RECRIAR O CAMINHO com as Comunidades de Lucas, uma leitura do Evangelho de Lucas feita pelo CEBI-MG, São Leopoldo, CEBI, 2013, pp. 48-77.

2Usamos esse binômio, porque Lc 10,25-37 não é somente parábola nem só episódio, mas é “episódio e parábola”.

3C. Rodet, “La Parabole do Samaritain. Un indû pour la vie,” SémiotBib 83 (1996), p. 22.

4Boers, H. Traduction semantique, transculturelle de la parabole du bon samaritain. Sémiot Bib 47, 1987, p. 21.

5Fitzmyer, J. El evangelho según Lucas. Madrid, Cristandad, 1987. V. 3, p. 279.

Nota do EcoDebate: em relação ao mesmo tema leiam, também, os artigos anteriores desta série:

Seguir Jesus, desafio que exige compromisso (1ª parte)

Seguir Jesus, desafio que exige compromisso (2ª parte)

Contexto histórico da Parábola do Bom Samaritano

 

EcoDebate, 15/08/2013


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