UTI ambiental: práticas de manejo de bacias hidrográficas I; artigo de Osvaldo Ferreira Valente

 

[EcoDebate] Depois de analisarmos alguns aspectos importantes de ecossistema hidrológico que caracteriza uma pequena bacia hidrográfica, temos condições de avaliar o seu comportamento em relação a padrões existentes. A partir daí, será possível enquadrar a bacia em dois possíveis modelos básicos:

1) A pequena bacia tem um ecossistema em equilíbrio e mantido em condições naturais, com pouquíssima ou nenhuma ação antrópica nos últimos anos. Se a produção de água estiver dentro de um padrão aceitável, melhor não fazer nada. Se a produção de água estiver muito prejudicada, por excesso de transpiração, por exemplo, é tecnicamente possível um plano de manejo, mas com grande limitação pela legislação ambiental. Basta ver que se baixarmos a transpiração de 63 para 58 %, numa pequena bacia que recebe 1.300.000 m3 de chuva por ano, poderemos ter um acréscimo de 65.000 m3 de água no aquífero subterrâneo, no mesmo período;

2) A pequena bacia está degradada pela ação antrópica e a sua produção de água está muito aquém dos padrões aceitáveis, indicando necessidade de um plano de manejo. Alguns exemplos de tecnologias possíveis serão apresentados a seguir.

Uma bacia degradada tende a produzir muita enxurrada, fazendo a vazão do córrego subir rapidamente de nível, quando ela é atingida por chuvas fortes. Consequentemente, o aquífero recebe pouca água, o que pode ocasionar queda acentuada e até mesmo o secamento total do córrego que a drena. Para aumentar a infiltração e diminuir a enxurrada, precisamos segurar a água por mais tempo na superfície, pois a quantidade infiltrada é função desse tempo. O Gráfico a seguir, representando o comportamento de uma região degradada, serve para ilustrar o comportamento da infiltração ao longo do tempo. A linha curva indica a quantidade infiltrada (Infiltração acumulada em mm) em relação ao tempo decorrente depois do início de uma chuva forte (Tempo acumulado em min.). É fácil verificar, no Gráfico, que depois de cinco minutos do início da chuva, a lâmina d’água infiltrada foi de 4,5 mm. Já depois de vinte minutos, foi de 7,6 mm

 

 

E como segurar a água por mais tempo na superfície, para aumentar a infiltração? Colocando obstáculos para dificultar o escoamento superficial e anulando ou diminuindo, assim, a formação das enxurradas.

Na Foto 1, é fácil perceber que o escoamento precisa vencer inúmeras dificuldades para se transformar em enxurradas. A lâmina d’água ficando mais tempo em contato com a superfície do solo acabará tendo boa parte dela passando para o interior do mesmo.

 


Foto 1

 


Foto 2

A situação apresentada na Figura 1 é um exemplo típico de prática vegetativa. Trata-se de mata natural com sub-bosque e boa camada de detritos sobre a superfície. Além de criar rugosidade, os detritos formados por folhas e galhos, ao se decomporem, enriquecem a camada superficial do solo com matéria orgânica, melhorando a porosidade e facilitando a infiltração. Mesmo sendo, à primeira vista, a solução ideal para ocupação da superfície de uma pequena bacia, duas dificuldades podem surgir: primeiro, a solução pode causar o aumento excessivo da transpiração; e, segundo, não ser possível eliminar o uso agropecuário de áreas da bacia. Milhares de pequenas bacias, responsáveis pela produção de água nas regiões mais populosas do país, pertencem a propriedades rurais ou estão ocupadas por elas. Daí ser importante afirmar que sem a colaboração de produtores rurais não haverá futuro para os nossos recursos hídricos.

A Foto 2 mostra uma plantação de café em encosta, com as fileiras em nível e o controle da vegetação intercalar sendo executado por roçada, apenas, e não por capina. Além disso, o plantio das mudas foi feito em sulcos, o que, por si só, já aumenta a rugosidade da superfície. Se quisermos aumentar a eficiência da prática vegetativa, no caso, bastaria deixar algumas fileiras sem pés de café e plantar, nelas, alguma espécie de capim, formando um renque em nível ao longo da encosta (Foto 3). Tudo para diminuir a velocidade do escoamento superficial, dando mais oportunidade à infiltração. O aquífero irá agradecer.

 


Foto 3

O cuidado que se deve ter na implantação de renques ou faixas de vegetação é não usar espécie invasora, que tende a se expandir por toda a área e virar um grande problema para o produtor rural.

Quando não for possível ou suficiente a prática vegetativa, poderemos usar outras formas de retenção superficial, tais como: terraços em nível, caixas de captação de enxurradas, barraginhas, cisternas e valas de infiltração. Mas são assuntos para o próximo artigo.

Osvaldo Ferreira Valenteé engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas, professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e autor de dois livros recém-publicados: “Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas”e “Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia”; Colaborador e Articulista do EcoDebate.

valente.osvaldo@gmail.com

Nota do EcoDebate: sobre o mesmo tema sugerimos que leiam, também, os artigos anteriores desta série:

UTI ambiental

UTI ambiental: diagnóstico da água I

UTI ambiental: diagnóstico da água II

UTI ambiental: diagnóstico da água III

UTI ambiental: contabilidade de água em pequenas bacias hidrográficas

 

EcoDebate, 09/08/2013


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