O petróleo e os protestos, artigo de Tomás Togni Tarqüinio

 

Manifestação na Avenida Paulista dia 20 de junho de 2013
Manifestação na Avenida Paulista dia 20 de junho de 2013. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

[EcoDebate] As manifestações em várias cidades do país, capitais e interior, contra o aumento da tarifa dos transportes urbanos é um signo anunciador do que virá a acontecer nos próximos anos. A razão é muito simples: estamos vivendo o fim da era do petróleo barato, pois estamos prestes a atravessar o chamado pico do petróleo. Com isso, as tarifas de transporte vão continuar a aumentar em valor monetário constante.

O pico do petróleo, ou de qualquer jazida mineral não renovável e cujo estoque é fixo, ocorre quando a extração alcança a produção máxima, pois a metade das reservas já foi extraída. O custo econômico do que resta a explorar é mais elevado, nem sempre de boa qualidade e de difícil acesso. Como é o caso dos recursos do pré-sal, que, aliás, representa apenas 2% a 3% das reservas mundiais.

Tudo que se transporta no mundo depende do petróleo. Os objetos que estão à nossa volta, onde quer que estejamos, bem como as pessoas que encontramos, foram transportadas por um veículo movido por um motor térmico que consome um derivado do petróleo. A mobilidade urbana é completamente dependente desses produtos não renováveis.

Até hoje tudo conspirou em favor do petróleo: a mobilidade oferecida pelo motor a explosão permitiu aumentar a distância entre o domicilio e o trabalho, fez com que o emprego se concentrasse geograficamente, enquanto que o domicilio individual se dispersasse em periferias gigantescas. Aumentou a distância percorrida anualmente pelas pessoas entre o trabalho, a escola, o lazer, a moradia e a expansão de viagens e lazeres, inclusive a distância entre as famílias.

Tudo isso foi possível graças aos custos decrescentes da exploração do petróleo e, em consequência, dos transportes, em valores constantes. Essa tendência à baixa foi verificada desde o Século XIX, perdurou ao longo do século passado. Mas, hoje, essa tendência inverteu-se: a produção estagna, os preços, os custos e a demanda aumentam.

Mas, infelizmente, o Brasil não está preparado para enfrentar esse problema. Ao contrário, o transporte individual beneficia de incitações cada vez mais importantes. A lógica que preside do nosso processo de desenvolvimento, há 60 anos, consiste em incentivar expansão do setor automotivo individual, graças à isenção de impostos, entre outros. Por outro lado, as diversas esferas de governo, federal, estadual e municipal, tampouco se deram até hoje os meios necessários para fazer face a essa nova conjuntura marcada pelo aumento de preços da energia, seja no caso da construção de infraestruturas para que esses veículos possam circular, seja na ampliação de outros meios de transportes alternativos.

Não há mais tempo a perder. É preciso colocar na cachola de nossos dirigentes que a época do petróleo barato acabou. Que é necessário e urgente revolucionar o sistema de transportes no país, preparando a sociedade para dias difíceis, pois não se trata de uma crise, posto que essa é passageira, mas de um estado permanente de dificuldades econômicas sociais, políticas e culturais. É preciso estarmos preparados para fazer face a esse problemas.

Tomás Togni Tarqüinio, Antropólogo e pós-graduado em Prospectiva pela EHESS, Paris

EcoDebate, 25/06/2013


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