Repensar o crescimento econômico, artigo de Adriano Violante

 

Repensar o crescimento econômico

 

[EcoDebate] Parece que é consenso de todos que o crescimento econômico – CE é bom, os países estipulam uma meta, procuram alcançá-la, porém, quanto maior melhor. Talvez o governo brasileiro queira crescer 10% ao ano como fez a China nas décadas passadas. Valores como este fazem a economia dobrar a cada sete anos, aumentando, em muito, os requerimentos de energia, de empregos, de matérias prima. Se for menor, os críticos caem em cima, pois dificulta o combate à pobreza, à distribuição de riqueza, o desenvolvimento de infraestruturas, os programas sociais e ambientais.

O problema é que estas teorias não condizem com a prática. Com todo CE das últimas décadas, o combate para se reduzir a pobreza se mostrou falho, mais da metade da população mundial é pobre, vivendo com cerca de 2 dólares por dia, e quanto mais riqueza é gerada no mundo, mais pobre o cidadão comum se torna. Os 20% mais ricos consomem mais de 80% dos recursos naturais. 1% da população detém 40% da riqueza do planeta, enquanto 50% da humanidade possuem apenas 1% dos recursos. A diferença da renda per capta dos 20% mais ricos, que era 30 vezes mais alta que dos 20% mais pobres, aumentou para mais de 80 vezes nos últimos 30 anos. Segundo o IPEA, dez por cento dos brasileiros mais ricos recebiam 54% da renda nacional em 1960, em 1995 passaram a receber 63% e em 2008 aumentaram para 75%.

Para continuar crescendo necessita-se de energia e esta é um tipo de matéria prima que depois de usada, não pode mais ser reaproveitada, reciclada como se faz com o cobre, o ferro ou o alumínio. Em sua matriz energética o mundo consome mais de 80% de combustíveis fósseis, dos quais o mais importante é o petróleo, responsável por um terço da matriz. Somos muito dependentes do petróleo, este está se esgotando a taxas de 3% ao ano e ficando cada vez mais caro. A produção de gás e petróleo norte-americanos teve alta expressiva no ano passado, mas responde apenas por metade de seu consumo, necessitando importar grandes quantidades a mais de cem dólares o barril, além de serem criticados pela população devido à grande carga de poluição associada à exploração do gás e petróleo de xisto.

A ONU reconhece que o homem é responsável pelas alterações climáticas, pelo aquecimento do planeta, pela degradação dos ecossistemas e da perda de biodiversidade, pois todo o tipo de empreendimento fabril tem fortes componentes de poluição e degradação ambiental. Apesar das tecnologias eficientes associadas aos processos modernos de produção, ainda é grande a emissão de CO2, NOx, SO2 entre outros.

Mesmo reconhecendo as causas da poluição e degradação, muitos países alegam que, quando atingirem determinados patamares de riqueza, colocarão em prática programas sociais e ambientais com mais ênfase que atualmente. E nesse ínterim, por conta das emissões poluentes, ocorrem secas, enchentes, furacões que, em sua reparação, cobram uma parcela do CE, mas não o reduzem, pelo contrário, fazem aumentar ainda mais o PIB.

Outra constatação é que, após determinado padrão de riqueza, mais crescimento não aumenta a felicidade do indivíduo e é principalmente entre os ricos que a maior fatia da riqueza é distribuída.

É ingênuo pensar nas contradições econômicas que a sociedade pratica sem questionar, mas que não se vive sem elas como gastos desnecessários com supérfluos impulsionados pela moda e pela obsolescência programada ou mesmo com plantações de tabaco ou a produção de material bélico. Se não se pretende fazer uso disso ou se qualquer economista racional evitaria esses gastos supérfluos em sua empresa, é interessante repensar estas atividades. Esses pensamentos se tornam infantil porque detrás dessas atividades há interesses de cunho psicológico, para a proteção nacional e/ou ganhos individuais. São os nossos paradoxos idiossincráticos. Procurando quebrar tabus, deve-se considerar o decrescimento da economia mundial para que possamos alcançar um estado estacionário, que privilegie as relações humanas e o que realmente interessa.

É certo que falar nisso é sofrer pedradas da crítica economista. O que a racionalidade desenvolvimentista (a bancada dos ruralistas e empresários) preconiza é arar e semear toda a Amazônia, sanear os pântanos, construir hidrelétricas em todo rio aproveitável, esquecendo-se que a natureza nos oferece uma série de serviços gratuitos como água e ar limpo.

O crescimento econômico está numa encruzilhada: se reduzir ou estacionar causará crises sociais imediatas – desemprego, desabastecimento, problemas financeiros – com tempos ruins em curto prazo, mas com possibilidades de sustentação. Crescimento de setores como energia renovável, alimentos orgânicos e saneamento devem ser incentivados, em detrimento da produção de automóveis de passeio, por exemplo, mesmo que seja um dos impulsionadores imediatos do CE.

Há que levar em conta que, com os problemas sociais e ambientais resolvidos não interessa se há crescimento econômico ou não. Como o crescimento não está reduzindo a pobreza, como necessita de energia (que está se esgotando e poluindo) e não traz felicidade, questiona-se a quem interessa. Crescimento pelo crescimento, incentivado apenas pela publicidade e pelo hedonismo, é hipotecar o futuro. É como continuar subindo uma escada que não tem continuação. Iremos cair e de alturas cada vez maior, conforme o patamar de nosso crescimento.

Adriano Violante é oceanólogo, doutor em Ciências Ambientais. adviolante@terra.com.br

 

EcoDebate, 21/06/2013


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