Estratégia florestal do Banco Mundial, concentrada em grandes concessões industriais, é um fracasso, indica auditoria

 

eucalipto

 

Maior extensão de floresta tropical da Terra, a floresta Amazônica é fonte de sobrevivência para diversas comunidades locais

O balanço das intervenções do Banco Mundial no domínio florestal nos últimos dez anos é um fracasso geral: essa é a conclusão de uma avaliação interna discutida a portas fechadas, na segunda-feira (4), pelo Comitê sobre a Eficácia do Desenvolvimento, na sede da instituição, em Washington. O documento confidencial de 202 páginas redigido pelo Grupo de Avaliação Independente (IEG, sigla em inglês), que reúne executivos do banco e consultores externos, foi divulgado pelo site especializado REDD-Monitor. Matéria [La stratégie forestière de la Banque mondiale est un échec, affirme un audit interne] de Laurence Caramel, no Le Monde, reproduzida pelo UOL.

Desde 2002, a organização multilateral investiu US$ 2,6 bilhões (R$ 5,15 bilhões) em 75 países e 345 projetos. Esse dinheiro permitiu – isso é um ponto positivo – classificar em áreas protegidas 24 milhões de hectares de florestas ameaçadas, ou seja, uma vez e meia a superfície das florestas francesas. Mas os auditores apontam que os resultados não foram os esperados, tanto no sentido da redução da pobreza (principal missão do banco), quanto no da luta contra a mudança climática e da preservação da biodiversidade.

Esse desempenho medíocre, segundo o relatório, é explicado pelo fato de que o Banco Mundial decidiu concentrar sua ação nas grandes concessões industriais em vez de florestas geridas pelas comunidades, por exemplo: “ao ignorar o setor informal, o Banco Mundial perdeu uma oportunidade de alcançar as populações pobres que dependem da floresta para viver, além da possibilidade de promover uma gestão sustentável dos espaços florestais”.

O caso de Camarões é bem elucidativo, na opinião dos auditores: o volume de madeira produzida pelo setor informal aumentou dez vezes ao longo dos quinze últimos anos, e hoje equivale ao das grandes concessões voltadas para a exportação. Mas ele alimenta o desmatamento e circuitos financeiros ocultos.

“Análise bem limitada”

Quando foi dada prioridade à conservação (100 projetos foram dedicados à criação de áreas protegidas desde 2002), o impacto sobre as populações locais foi mal administrado. As indenizações prometidas para compensar a perda de acesso aos recursos florestais raramente foram honradas, tanto que “a perenidade dos ganhos ambientais está em risco em três quartos dos projetos financiados pelo banco”.

O relatório acusam os executivos da instituição de terem superestimado o papel que as concessões industriais poderiam exercer sobre o desenvolvimento. Sobretudo na África. Na Libéria, por exemplo, a estratégia de redução da pobreza elaborada em 2008 apostava em receitas superiores a US$ 100 milhões entre 2007 e 2011. Menos de 10% dessa soma foi atingida.

Finalmente, por não terem sido criados os indicadores certos, foram emitidas sérias dúvidas sobre a capacidade do banco de compreender o desempenho ambiental e social de seus financiamentos.

Esse relatório já está despertando reações exaltadas no exterior. O Greenpeace e o Global Witness comemoraram essas conclusões, pois confirmam os alertas dados por eles ao Banco Mundial há vários anos. As duas ONGs exigem a suspensão dos financiamentos para as concessões industriais.

O trabalho realizado pelos auditores, no entanto, não está livre de críticas. O renomado especialista em sistemas florestais na África Central, Alain Karsenty, considera “pobre a qualidade do relatório”. Parte da literatura científica foi ignorada, segundo ele. “A ideia de que o apoio do Banco Mundial à reforma do regime das concessões florestais impediu a eclosão de uma série de empresas artesanais e de florestas comunitárias que teriam tirado as pessoas da pobreza é uma análise bem limitada”, critica o pesquisador do Cirad.

Está aberto o debate.

Tradutor: Lana Lim

EcoDebate, 08/02/2013


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