Adeus a João Zinclar, o fotógrafo do Rio São Francisco, por Ruben Siqueira

 

Mudar o mundo eu acho que é uma tarefa muito maior do que a fotografia. Mudar o mundo é ter milhões de pessoas na rua em movimentos contra os opressores, contra as ditaduras, é isso que muda o mundo. E a fotografia, se ela quiser cumprir esse papel, tem que andar pari passu com esses movimentos, colocando realidades objetivas e subjetivas, porque não existe verdade absoluta.”
(João Zinclar, em “Caçadores de Alma”, de Silvio Tendler: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ydBFjU8EPW4).

 

João Zinclar
João Zinclar, em foto de Flaldemir Sant’Anna

 

Bandeiras de todos os tons vermelhos, mas sobre o caixão apenas uma do básico socialismo. Mais três foram admitidas: a dos Metalúrgicos de Campinas, a da luta palestina e a da Articulação Popular São Francisco Vivo. Dentro e fora, uns 400 militantes de todas as boas causas populares. Fraterno convívio, como a mais justa homenagem ao companheiro João Zinclar na sua derradeira jornada.

Fotógrafo, ex-hippie, comunista, operário, sindicalista, sócio-ambientalista mais recentemente – as diversas faces do João foram se somando numa vida breve e intensa de 56 anos, interrompida por trágico acidente rodoviário. Como não poderia deixar de ser, estava a serviço, vindo de ônibus de Ipatinga-MG onde cobrira as eleições sindicais dos metalúrgicos. Cada face ou fase do gaúcho de Rio Grande-RS, que se fez cidadão do mundo, agregou amigos e amigas sem conta, parceiros e parceiras de pelejas pela superação do capitalismo, pela construção do verdadeiro socialismo, pela vitória da vida.

De repente, a propalada e difícil unidade da esquerda social e política parecia tão simples… A razão eram as qualidades humanas e políticas do velado: humilde, fiel à causa, generoso, suficientemente para iluminar e agregar tanta diversidade. O contrário do tipo político relacionado com todos à base de concessões e conveniências… O testemunho de toda a trajetória de coerência, até o momento final, faz de João Zinclar daqueles raros imprescindíveis de que falava Brecht, que lutam toda a vida! Ah, se mais fôssemos assim!

A luta em defesa do São Francisco – Rio e Povo deve muito a João. Desde 2005, não há um só momento importante desta luta – contra a transposição de águas, pela revitalização da bacia hidrográfica, da resistência nos territórios dos povos tradicionais, nos encontros da Articulação São Franscisco Vivo, nos mutirões de formação e mobilização, nas visitas às comunidades, nas greves de fome de frei Luiz Cappio – que ele não estivesse presente, com o seu olhar único que valorizava a luta popular, que mostrava a beleza das pessoas do povo em marcha nas ruas ou no cotidiano sofrido mas cheio de esperanças. As vezes, vinha com pouca ajuda nossa ou às próprias custas. E questionava, dava sugestões e conselhos, sempre com muito respeito, impressionante humildade. João vai nos fazer falta!

Seu monumental livro fotográfico “O Rio São Francisco e as Águas do Sertão” revela um pouco desta operosa e prazerosa convivência/militância humana/política/artística. O rio por seu povo em luta, nenhum dos muitos fotógrafos do São Francisco havia feito. E ele não sossegou enquanto não viabilizou a entrega gratuita do livro diretamente às comunidades e entidades que participaram dele.

Recordamos e valorizamos, ainda mais agora que ele se foi, os momentos de convivência e companheirismo, com humor e alegria, nas viagens, hospedagens, visitas, reuniões… A vontade de comer pão e ouvir rock, o medo de adoecer e de morrer que não empatava as ousadias, dormir e comer em qualquer lugar, sem reclamar, parar o carro porque viu uma boa foto, o incentivo aos/às iniciantes da fotografia… Histórias inesquecíveis de uma pessoa de muita fácil e gostosa convivência, um amigo fraterno…

Ao nos aproximar da cova na qual devolveríamos João a terra-mãe, no Cemitério dos Amarais, nos demos conta de que ficava próxima dos fundos de uma fábrica. E logo apareceu um operário a observar de cima o embandeirado enterro… Agora sobre o caixão apenas a unitária bandeira vermelha. Uma gaita, que João também no seu próprio dizer “arriscava” tocar, soprou “A Internacional”. E aí Victória, filha sua e de Silvia Ferraro, fez a síntese perfeita da vida do pai, de sua estreita relação com ele; entre pessoal e política sem separação, falou das faltas e outras formas de presença amorosa do pai em sua vida dali para frente, da continuidade da amorosa militância que aprendeu dele. Fiquei achando que Victória era a melhor obra de João e Silvia – o novo ser humano, socialista, que buscavam…

Antes que sob aplausos e balançar das bandeiras João Zinclar fosse coberto pela terra, joguei sobre ele, misturada às lágrimas, água do Rio São Francisco, que colhemos juntos na nascente, na Serra da Canastra, em 12 de outubro de 2012, no início das comemorações dos 20 anos da Peregrinação do São Francisco da Nascente à Foz, feita por frei Cappio e mais três companheiros. Na foz do rio chovera depois de muito tempo seco, na madrugada do desaguar da vida de João Zinclar no Infinito… Vai em paz, companheiro! Seguimos na luta, também por você!

Ruben Siqueira
(representou no enterro a Articulação Popular São Francisco Vivo e a Comissão Pastoral da Terra)

Colaboração de Ruben Siqueira, Comissão Pastoral da Terra / Bahia, Articulação Popular São Francisco Vivo – www.saofranciscovivo.com.br , para o EcoDebate, 23/01/2013


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