Rio Salgado, a realidade em três momentos, por João José Anselmo dos Santos

 

Fotos da Trilha realizada ao longo do Rio Salgado, em jun/08. Fonte: Acervo do professor Anselmo
Fotos da Trilha realizada ao longo do Rio Salgado, em jun/08. Fonte: Acervo do professor Anselmo

Essa era a realidade em 2008. Essas fotos foram produzidas durante uma trilha realizada ao longo de 15 km do Rio Salgado, saindo do seu encontro com o Rio Jaguaribe até a ponte Piquet Carneiro (zona urbana do município de Icó – CE). Na época já era grande o nível de degradação ambiental observado, principalmente relacionado ao: desmatamento das margens, assoreamento de alguns trechos, lançamento de esgoto e grande volume de resíduos lançados no leito do mesmo.

O problema referente aos resíduos ficou mais evidente na zona urbana do rio, onde se encontrou de tudo um pouco. O que chamou a atenção foi o volume de entulho de construção jogado as margens. Essa ação, na época, era fruto da atividade dos caçambeiros e carroceiros que retirava areia do leito do rio. Quase sempre essa retirada era associada à colocação de entulho, pois alguns desses indivíduos aproveitavam a viagem para levar o entulho e retirar a areia do rio. Um fato a salientar é que na maior parte desses casos de retirada de área ocorreram em locais não recomendados para retirada desse tipo de material, principalmente próximo a ponte Piquet Carneiro.

Outro fato também preocupante, com relação ao tipo de resíduo encontrado, diz respeito a vasilhame de agrotóxico. Isso ocorreu e continuar a ocorre devido ao fato de que alguns lotes, explorados com agricultura, ficarem próximo ao rio e ai os produtores lançam tudo que considera lixo no mesmo.

Durante a trilha, tive a oportunidade de conversar com um desses produtores e observei que ele não possui nenhum preparo para manejar esse tipo de produto, apesar de ter conhecimento que o mesmo faz mal a saúde. Mesmo com a consciência dos danos que o produto faz, ele continua lançando ao rio. Essa realidade não é diferente dos demais.

Fotos da margens do Rio Salgado, zona urbana, em 2008. Fonte: Acervo do Professor Anselmo.
Fotos da margens do Rio Salgado, zona urbana, em 2008. Fonte: Acervo do Professor Anselmo.

Em outubro de 2011, durante a realização de uma expedição com alunos de uma escola pública, ao um trecho do rio Salgado (prainha do Salgado) notei que a situação piorou. Na ocasião foi realizada uma coleta de lixo e dentre os vários tipos de resíduos foi encontrado lixo hospitalar.

Fotos da expedição realizada em um trecho do Rio Salgado (prainha do Salgado), em outubro de 2011. Fonte: Acervo do professor Anselmo

Fotos da expedição realizada em um trecho do Rio Salgado (prainha do Salgado), em outubro de 2011. Fonte: Acervo do professor Anselmo
Fotos da expedição realizada em um trecho do Rio Salgado (prainha do Salgado), em outubro de 2011. Fonte: Acervo do professor Anselmo

Em 2012 constatei que a situação do Rio Salgado de nada melhorou. Em janeiro de 2012 fui até a lagoa de estabilização do esgoto do município de Icó-CE. A mesma localizada a margem do rio, joga constantemente o produto oriundo da decantação do esgoto. O que chamou atenção foi a grande concentração de plantas aquáticas no local do rio de água parada e animais pastando bem próximo. Outro ponto a relatar é que mais ou menos um 60 m após o local onde o material decantado é lançado, tinha uma bomba captando água para irrigar um plantio de banana.

Fotos da Lagoa de estabilização do esgoto do município de Icó - Ce (jan./12). Fonte: Acervo do professor Anselmo

Fotos da Lagoa de estabilização do esgoto do município de Icó - Ce (jan./12). Fonte: Acervo do professor Anselmo
Fotos da Lagoa de estabilização do esgoto do município de Icó – CE (jan./12). Fonte: Acervo do professor Anselmo

Já em dezembro de 2012, na área urbana, voltei ao mesmo local onde tirei fotos em 2008. A realidade é uma situação extremamente preocupante, o que se ver é uma verdadeira rampa de lixo as margens do rio. Uma novidade é a grande concentração de planta aquática, algo que não tinha, que provavelmente seja fruto de um processo de eutrofização. Esse processo é caracterizado pelo crescimento excessivo das plantas aquáticas, tanto planctônicas quanto aderidas. O principal fator de estímulo é um nível excessivo de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo. Com conseqüências indesejáveis desse processo, observadas em condição de água parada, destaca-se: diminuição do uso da água para recreação; frequente redução geral na atração turística devido a distúrbios com crescimento excessivo da vegetação; eventuais mortes de peixes; mau cheiro; mosquitos e insetos; e condições anaeróbias no fundo dos lagos.

Essa condição de eutrofização, provavelmente, seja produto da descarga de esgoto e criação de animais (porcos) no local. A liberação de despejos domésticos em recursos hídricos provoca o aumento da DBO (Demanda Básica por Oxigênio), que empobrece o meio aquático de oxigênio e provoca a morte dos organismos que precisam desse gás para respirar.

Salientando que, o Rio Salgado não é exclusivo do município de Icó, pois nasce no Crato-Ce, no Distrito do Lameiro, no pé da serra do Araripe, com o nome de Rio da Batateira. Sua bacia hidrográfica está espalhada por 23 municípios: Icó, Cedro, Umari, Baixio, Ipaumirim, Várzea Alegre, Lavras da Mangabeira, Granjeiro, Aurora, Caririaçu, Barro, Juazeiro do Norte, Crato, Missão Velha, Barbalha, Jardim, Penaforte, Milagres, Abaiara, Mauriti, Brejo Santo, Porteiras e Jati, com uma população estimada em 850.000 pessoas. Sendo assim Icó não é inteiramente responsável pela a situação de degradação que se encontra o Rio Salgado, mas a nível macro é mais um a poluir.

Fotos de trecho urbano do Rio Salgado, em dez./12 Fonte: Acervo do professor Anselmo
Fotos de trecho urbano do Rio Salgado, em dez./12 Fonte: Acervo do professor Anselmo

De modo geral, a questão ambiental com relação ao município de Icó é complexa, pois necessita de ações conjuntas de vários órgãos tanto públicos como privados, bem como da participação efetiva de cada cidadão, adotando em qualquer que seja a situação uma postura proativa em relação ao rio. A nível macro é necessário a formatação de uma política conjunta entre os municípios diretamente afetados pelo problema, algo com elaboração de leis, projetos de educação ambiental e construção de obras visando o bem comum das populações e do rio.
O Rio Salgado pede socorro, temos que fazer algo. Você pode começar assinando e divulgando a petição SALVE O RIO SALGADO (https://secure.avaaz.org/po/petition/SALVE_O_RIO_SALGADO/)

João José Anselmo dos Santos é Engenheiro agrônomo, professor da Faculdade Vale do Salgado – FVS, Coordenador do Centro Vocacional Tecnológico de Icó – CVT de Icó e membro do Comitê da Sub Bacia Hidrográfica do Alto Jaguaribe.

EcoDebate, 15/01/2013


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4 comentários em “Rio Salgado, a realidade em três momentos, por João José Anselmo dos Santos

  1. Enquanto a educação no Brasil for tratada como algo não necessário, principalmente para os pobres, porque deixarão de produzir mão de obra barata, pouca coisa muda. São 500 anos de história, divididos em 400 anos de escravidão declarada, 120 de escravidão branca, pela exploração do coronelismo, tudo isso sob as bênçãos do catolicismo selvagem. Conceitos precisam ser repensados…

  2. Concordo plenamente com o Paulo Gondim e vou mais adiante, precisamos contextualizar a educação para assim podermos conviver de forma mais armonica com o ambiente.
    Conheço o Professor Anselmo e sei da sua competencia e da preocupação constante com os recursos hidricos e ambientais.
    Precisamos estar vigilantes e exigirmos dos governantes especialmente dos prefeitos ações que priorizem a vida no planeta.

    Barbosa Soares
    Membro efetivo do CONERH – Conselho Estadul de Recursos Hidricos do Ceará.

  3. ENQUANTO ALGUNS HEROIS COMO João José Anselmo dos Santos, FAZ UMA DEMOSTRAÇÃO DESSA DE RESPEITO A NATUREZA E DA AULA DE CONSIÊNCIA AMBIENTAL OS GESTORES DESSA BACIA HIDROGRAFICA IGNORAM ESSES FATOS QUASE QUE DE FORMA UNANIME, VAMOS VER SE ESSA REALIDADE MUDA OU TUDO MORRE . FORTE ABRAÇO ANCELMO VC NÓS ORGULHA PARABENS. A TI E AOS TEUS ALUNOS.

  4. Parabenizo os ambientalista que questionam a realidade deste importante sistema hidrográfico. Na cidade de Campina Grande/PB não é diferente. Aqui nossa realidade se chama Riacho das Piabas. Foi de sua agua doce que evoluiu povoado, vila e cidade. Nossa estratégia aqui confluíu instituições pela revitalização do rio desde 2011. Nela buscamos apoio da comunidade cientifica para publicar sobre tal realidade. Neste momento estamos com campanha pela internet que talvez possa servir para demais realidades semelhantes. Favor conferir no link:

    http://www.avaaz.org/po/petition/Revitalizacao_das_nascentes_do_Acude_Velho_Riacho_das_PiabasMata_do_Louzeiro_Estado_da_ParaibaBrasil/

    Deseja-se força coletiva por causa necessária e justa. atenciosamente.

    Veneziano Guedes de Sousa Rêgo – Biólogo Doutorando PPGRN/UFCG

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Comentários encerrados.

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