Solidariedade para mudar o planeta: exercício da cidadania precisa sair do discurso e ir além do ativismo

 

Reciclagem incipiente do lixo no Rio de Janeiro e a volta das sacolas plásticas em São Paulo mostram que o exercício da cidadania ainda precisa sair do discurso e ir além do ativismo demonstrado na Cidade Maravilhosa

Em meio à movimentação da Rio+20, infindáveis papéis, sacolas, CD-ROMs e kits diversos divulgavam as tecnologias de ponta em eficiência energética e as práticas sustentáveis de governos, empresas e institutos de pesquisa. Grupos da sociedade civil exibiram incontáveis experiências com agricultura orgânica, água, energia, gestão compartilhada, reciclagem de lixo e tantos outros temas.


Os exemplos de boas práticas que ajudam a tornar o planeta habitável foram muitos durante a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável. Mas poucos abordaram de frente a questão dos limites da capacidade de regeneração da natureza. Apesar disso, algumas ideias corajosas se destacaram. Suas premissas podem parecer prosaicas, mas representam uma mudança de paradigma ao individualismo e ao consumismo que caracterizam as sociedades contemporâneas.

Para “mudar o modelo de civilização” e “suscitar o surgimento de uma nova via política para as nações e a humanidade”, o filósofo Edgar Morin, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, defendeu a solidariedade entre as nações.

William Rees, da University British of Columbia, nos Estados Unidos, foi mais pessimista. Ao refletir sobre a natureza e a estrutura do cérebro humano, concluiu que as tensões entre paixão e instinto frequentemente irão confrontar a razão e por isso o homem falha em reverter a depredação que causa à biosfera. Rees é o ecólogo que cunhou a expressão “pegada ecológica”, em 1992.

O discurso do primeiro-ministro do Butão, Jigmi Thinley, contrapôs o pessimismo de Rees, no dia do encerramento do 12º Congresso da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (Isee). Efusivamente aplaudido, Thinley mostrou as estratégias adotadas para implementar a Felicidade Interna Bruta (FIB) como indicador de prosperidade de seu país, no lugar do Produto Interno Bruto (PIB).

A abordagem de bem-estar, no FIB, inclui vida espiritual, social e relações com a natureza como valores tão importantes quanto a busca pela prosperidade material. A complexa metodologia de avaliar a felicidade inclui indicadores de violência, separações conjugais, uso de drogas e álcool e muitos outros dados sobre saúde e educação. Em conjunto com as Nações Unidas, o Butão produziu um relatório detalhando o programa do FIB naquele país, disponível em http://www.2apr.gov.bt.

No Brasil, o FIB vem sendo estudado pela Fundação Getúlio Vargas para ser aplicado em algumas pequenas cidades brasileiras.

O indicador ganhou espaço em discussões teóricas sobre sustentabilidade durante a Rio+20. “Discutimos indicadores que buscam refletir de forma mais completa a prosperidade e ao mesmo tempo contabilizar os custos da produção e os prejuízos à natureza”, disse o professor Clovis Cavalcanti, da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco.


Jigmi Thinley (sentado), do Butão: felicidade em lugar do PIB

Cavalcanti abriu uma das sessões do encontro do Isee defendendo a harmonia entre o que chamou de ciclo cultural e ciclo da fertilidade. Sua fala também ganhou calorosos aplausos. “O ciclo cultural gira em torno do afeto voltado aos seres humanos e outros seres, da beleza da natureza e do amor pela vida. O ciclo da fertilidade é o ciclo da natureza. O conceito de sustentabilidade requer a harmonia entre esses dois ciclos”, disse.

O professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, afirma que é preciso estabelecer limites para os que estão no nível mais alto da pirâmide social. “Se a oferta de produtos e serviços não respeitar os limites dos recursos naturais, a conta ambiental não fecha”, disse ao Jornal da USP.

Abramovay esteve no encontro da Isee e aproveitou para lançar o seu livro, Muito além da economia verde, durante o Fórum de Empreendedorismo Social da Rio+20. Na obra, defende uma reversão nos padrões de consumo das sociedades contemporâneas.


Cidades sustentáveis – Os resultados práticos de uma conferência como a realizada no Rio de Janeiro levam tempo para ser percebidos. Apesar de pouco se ouvir e de pouco se falar sobre ideias que realmente poderiam atacar de frente a questão dos limites do planeta, algumas metas ambiciosas anunciadas no âmbito privado e de prefeituras poderão representar o maior ganho do megaevento.


Representado pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, o grupo C40 – rede que reúne as maiores cidades do mundo, criada em 2005 – assinou, na Cúpula dos Prefeitos, realizada em evento paralelo à Rio+20, o compromisso de evitar a emissão de 1,3 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa até 2030. Significa manter daqui a 18 anos os mesmos níveis de poluição registrados em 2010. Equivale ainda aos níveis anuais de emissão de México e Canadá, juntos.

Além da Cúpula de Prefeitos, outros eventos na Rio+20 buscaram estabelecer metas voluntárias e compromissos entre cidades e governos. A campanha I’m a city changer, lançada pela ONU-Habitat, divulga e promove práticas cidadãs através do site www.imacitychanger.org.

Foram contabilizados 705 compromissos voluntários, com investimentos acima de US$ 500 bilhões, em torno de ações para sustentabilidade do planeta nos próximos dez ou 15 anos. Os investimentos em transportes, energia limpa, redução de desastres e proteção ambiental foram anunciados por empresas, governos, universidades, ONGs e a própria ONU.

Ações de transição para a economia verde foram traçadas no Pacto Global da ONU, assinado por 7 mil empresas de todo o mundo, sendo 226 do Brasil, entre elas as gigantes Petrobras, Braskem e Vale.
“Na Rio+20 as lideranças das cidades foram além e buscaram estabelecer objetivos claros e prazos definidos para implementar ações de sustentabilidade. Estabeleceram inclusive mecanismos para verificar se as metas serão cumpridas”, disse o professor Arlindo Philippi Junior, adjunto da Pró-Reitoria de Pós-graduação da USP, que participou de debates sobre cidades sustentáveis durante a Rio+20 e lançou um livro editado pela Capes (leia o texto A Universidade fala sobre ambiente).

Plástico e lixo – Os compromissos assumidos pelos prefeitos da C40 incluem o tratamento adequado ao lixo e o investimento em saneamento básico como medidas urgentes para a sustentabilidade das cidades.

São Paulo e Rio de Janeiro são signatários do compromisso firmado pelo grupo das maiores cidades. Apesar disso, o retorno das sacolas plásticas nos supermercados paulistanos parece ter sido bem-aceito pela mesma população que cobra ações de sustentabilidade. No Rio de Janeiro, grande parte dos cidadãos sequer ouviu falar da coleta seletiva de lixo, que a Prefeitura garante que existe em 41 bairros cariocas.
“A sociedade precisa encontrar alternativas de consenso, mas não só isso. A questão do lixo passa pela educação da população. As lideranças municipais precisam se aproximar mais das universidades para pensarmos as formas de promover a educação, a cidadania e o combate às desigualdades”, destacou Philippi Junior.

“A questão das sacolas em São Paulo precisa ser mais bem discutida. Não acredito que a decisão do juiz tenha sido para refutar ações de sustentabilidade. A situação culminou no ônus que sobrou para o consumidor. Mas a proteção ao ambiente deve ocorrer com respeito ao consumidor. Existe uma questão técnica sobre a sacola oxibiodegradável e a discussão sobre dividir custos de uma sacola feita de material ambientalmente amigável. Mas tudo isso ainda precisa ser revisto e mais bem discutido”, afirmou Rubens Harry Born, coordenador-executivo do Vitae Civilis, organização não-governamental que foi uma das principais articuladoras das entidades brasileiras da sociedade civil durante a Rio+20.

Plásticos recolhidos do mar

Espírito aventureiro – Um navio veleiro construído nos moldes de embarcações europeias do século 19 vem sendo usado como plataforma marítima de educação e cultura há mais de cinco anos e integrou a programação da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP durante a Rio+20. Trata-se do Tocorimé Pamatojari, ou Espírito Aventureiro, em português, que ficou atracado na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, mostrando a exposição “Na Trilha de Darwin” até o dia 24 de junho.

Com curadoria da professora Maria Isabel Landim, do Museu de Zoologia da USP, a exposição itinerante reúne objetos do museu e réplicas para contar a fascinante viagem do naturalista inglês Charles Darwin e suas descobertas realizadas a bordo do HSM Beagle.

A programação na Rio+20 incluiu palestras com o físico da Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa, Daniel H. Garrison, com o redator-chefe da National Geographic Brasil Mathew Shirts, e com o professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da USP.

A exposição ainda não tem roteiro fechado para as próximas paradas, mas chegará até o Norte e Nordeste. As visitas são monitoradas e, ao final, o grupo participa de uma discussão sobre sustentabilidade dentro de uma atividade de educação ambiental realizada por Gabriel Monteiro, mestre pelo Instituto Oceanográfico, que participa do projeto Plásticos e Poluentes Orgânicos no Ambiente Marinho (PPOAN).
O PPOAN é um projeto de coleta de microplásticos, lançado durante a Rio+20, que iniciará a primeira fase de levantamento de dados com as viagens do Tocorimé, realizadas por ocasião da exposição “Na Trilha de Darwin”.

“A ideia é inicialmente coletar material durante o trajeto do barco. Nas paradas faremos atividades de educação ambiental, como ocorreu na Rio+20. O estudo preliminar vai dar as bases para realizarmos um projeto de pesquisa sobre a ocorrência de plásticos em toda a costa brasileira”, afirma a professora Rosalinda Monteiro, que também integra a equipe do projeto de pesquisa.

Gabriel Monteiro a bordo do Tocorimé: pesquisa vai detectar presença de plásticos na costa

Monteiro afirma que o estudo também buscará avaliar os impactos da decomposição do plástico na vida marinha. A ação conta com a parceria da Global Garbage. O pesquisador participou do Dia do Plástico, o Plasticity, evento paralelo no Joquei Club do Rio de Janeiro, que discutiu as novas tecnologias e formas de reciclagem em todo o mundo.

“Chamou a minha atenção o projeto da ONG PlasticPollutionCoalition, que tem ideias realmente inovadoras para eliminar o uso do plástico em determinados objetos e parar a sua expansão nos oceanos, já que este é um dos mais graves problemas no ambiente marinho atualmente. A organização possui um projeto de parcerias com universidades para reduzir e eliminar o uso de plásticos nos campi universitários”, disse Monteiro.

“Planejamos todas as etapas para qualquer tamanho de campus, desde a divulgação da ideia até a forma e meios de reduzir e retirar o plástico dos campi. Simplesmente reduzir e reciclar o plástico não é uma solução sustentável. A poluição de plásticos está se expandindo de forma catastrófica, em todas as comunidades do mundo e precisamos parar isso”, afirma Daniella Russo, diretora-executiva da ONG. O projeto Reducing Plastic Pollution on Campus e outros podem ser conferidos no site http://plasticpollutioncoalition.org

Matéria de Sylvia Miguel, no Jornal da USP, publicada pelo EcoDebate, 20/07/2012

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4 comentários em “Solidariedade para mudar o planeta: exercício da cidadania precisa sair do discurso e ir além do ativismo

  1. Os donos do Planeta ( o capitalismo e seus representantes) não se cansam de dizer que a Rio+20 significou a salvação do Planeta, dos recursos naturais, da espécie humana e de toda a biodiversidade. Segundo eles é só uma questão de tempo para que tudo seja resolvido. Será que eles estão esperando por um milagre?

  2. Penso que a questão da solidariedade é realmente fundamental, mas por em prática é um passo muito grande e distante da realidade de hoje. O prof. Boaventura de Souza Santos expôs também a dificuldade que as nações e principalmente os movimentos populares tem em exercer a solidariedade e assim fortalecer as ações individuais.
    Até mesmo o prof. Abramovay, que é economista compreende a dificuldade de estar em um mundo regido por relações capitalistas.
    Nos basearmos em boas práticas ambientais é a bola da vez, mas já nasce murcha. O problema é estrutural e construído por isso um milagre não é esperado nem desejado.

  3. Olás!!!!!Na Cúpula dos Povos, fizemos oficinas de pintura (TV Povão)e cartografia social somente com material reaproveitado, todo coletado no ambiente da própria cúpula e alguma coisa nas imediações (centro do Rio de Janeiro e UFRJ/URCA). A atividade foi organizada pelo Comitê Paranaense para a Rio+20 em conjunto com o CEDEA (Centro de Estudos, Defesa e Educação Ambiental), a UNEGRO (União dos Negros e Negras pela Igualdade), CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), UBM (União Brasileira de Mulheres), AGB (Associação Brasileira de Geógrafos, seções de Curitiba e de Quatro Barras) e pelo coletivo cultural Repelentes (Quatro Barras – Pr).

  4. Apenas e apenas a solidariedade pode salvar-nos. Pois, a nossa razão de ser são os demais. Sem os nossos companheiros de viagem também não temos razão de existir. Todos os seres vivos são a razão de nossa existência. arsildo

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