Indústria do alumínio: A floresta virada em pó

 

Reportagem produzida pelo Núcleo Amigos da Terra Brasil mostra casos de destruição social e ambiental que empresas transacionais provocam nos Estados do Pará e Maranhão, onde está concentrada mais de 80% da bauxita explorada no Brasil. O alumínio é uma das principais commodities brasileiras e o país é o 6º produtor mundial do metal, atrás da China, Rússia, Canadá, Austrália e EUA. O Brasil possui a terceira maior jazida de bauxita do mundo e é o quarto maior produtor mundial de alumina.

A reportagem é de Bruna Engel, do Núcleo Amigos da Terra Brasil e reproduzida no blog de Telma Monteiro, 15-12-2011.

Violação aos direitos humanos e degradação da natureza andam juntos quando o tema é territórios ocupados pelas corporações de mineração e produção de alumínio. Tão útil e adaptado aos modos de vida moderno, por ser leve, macio e resistente, esse metal esconde um processo industrial penoso e degradante. A reportagem cinematográfica, produzida pelo Núcleo Amigos da Terra Brasil e realizada por André de Oliveira (Coletivo Catarse), revela casos de destruição social e ambiental que empresas transacionais provocam nos Estados do Pará e Maranhão, onde está concentrada mais de 80% da bauxita explorada no Brasil.

Ao percorrer todas as etapas do processo industrial (mineração da bauxita, transporte por mineroduto, refino da alumina e a redução desta para obtenção do alumínio), a equipe de repórteres flagra diversas ameaças aos povos tradicionais e aos trabalhadores da indústria, e dá voz aos afetados. São populações rurais de baixa renda e sem assistência dos poderes públicos – com exceção do Ministério Público Federal, que ainda exige o cumprimento das leis e busca assegurar as reparações aos povos afetados.

A maioria das comunidades, até que a destruição comece, desconhece as estratégicas de inserção e apropriação de territórios exercidos pelas corporações mineiras, assim como seus direitos e a legislação que rege as relações comerciais do setor no Brasil. Só depois dos danos causados é que passam a se organizar e lutar por melhores condições de vida. O mesmo acontece com os trabalhadores, que aliciados por oportunidades de trabalho não imaginam que estão sendo pagos para adoecerem e terem reduzido o tempo de vida laboral.

A pressão do capital

Com o avassalador ingresso das indústrias, a região de mineração passa a depender economicamente do empreendimento. O processo anterior à mina, de expropriação e compra de terras, gera especulação imobiliária inflacionando o valor da terra. Esse processo incentiva pequenos agricultores a venderem suas terras, seduzidos pelas quantias oferecidas (de grande monta para a realidade deles, mas de baixo impacto para o mercado imobiliário), e engrossar as periferias dessas pequenas cidades, com aumento da violência, prostituição, analfabetismo, entre outros graves problemas sociais.

Quando as empresas se instalam sobre essas áreas fatalmente cessa a atividade de extração sustentável dos recursos na floresta, porque extrativismo e mineração são atividades excludentes. A degradação ambiental provocada pela instalação e operação das fábricas também resulta em impactos na economia local: a contaminação de igarapés, lagos e rios por lama vermelha (rejeito tóxico da limpeza da bauxita) provoca mortandade de peixes e destrói a possibilidade de pesca artesanal; com a poluição pelo ar, as árvores frutíferas próximo das fábricas não dão frutos, os açaizais (principal fonte de renda das famílias camponesas da região) sofrem queda de produtividade, assim como outras culturas tradicionais das regiões.

Hidrelétricas e finaciamento público

A cadeia produtiva do alumínio é eletrointensiva, ou seja, necessita de grande quantidade de energia elétrica e de água para se viabilizar. Para a expansão da produção do alumínio, o governo federal vem promovendo a construção de novas barragens na Amazônia, entre elas Belo Monte, que cederá parte de sua energia para as indústrias eletrointensivas. Além disso, bancos públicos, como o BNDES, assumiram papel fundamental para o fortalecimento da cadeia produtiva.

O financiamento público, aliado ao reaquecimento do mercado internacional, impulsionou a expansão das fábricas da Alunorte/Albrás, Alumar e CBA, incluindo o financiamento de novos projetos de refinaria em Barcarena, maior pólo do setor, a 50 km de Belém. E as fábricas não se expandem sozinhas, junto com elas vem a abertura de novas lavras, a construção de novas usinas hidrelétricas e termelétricas, duplicação de ferrovias, minerodutos e etc. Ou seja, a degradação ambiental que foi registrada nesta reportagem cinematográfica.

A força da grana

A exportação do setor metalúrgico, pelos dados mais atualizados, de 2009, correspondeu a 2,1% da balança comercial. Por sua vez, as exportações influenciam em 2% do PIB nacional. O alumínio é uma das principais commodities brasileiras e o país é o 6º produtor mundial do metal, atrás da China, Rússia, Canadá, Austrália e Estados Unidos. O Brasil possui a terceira maior jazida de bauxita do mundo e é o quarto maior produtor mundial de alumina. Contando toda a cadeia, foram produzidas 26074,4 mil toneladas de bauxita, 8625,1 mil toneladas de alumina e 1690 mil toneladas de alumínio.

Em termos de negócio, a produção brasileira perde muito em valor agregado, pois só produz produtos primários, concentrando somente os processos mais agressivos ao meio ambiente. Exportamos, no máximo, lingotes de alumínio. Quando chegam nos outros países, para as etapas seguintes de transformação do metal, o alumínio para a valer quatro vezes mais.

(*) O Núcleo Amigos da Terra Brasil, em contato com organizações e movimentos locais, foi registrar esses conflitos com ribeirinhos para avaliar os impactos sociais e ambientais que a indústria do alumínio provoca desde à década de 80 no Brasil. Para isso, organizou visitas técnicas em pelo menos um local de cada etapa da cadeia produtiva. Essa reportagem, acompanha a pesquisa de campo e revela os casos de ameaças aos povos tradicionais e aos trabalhadores da indústria, dando voz aos afetados.

(**) Para ver a versão em inglês do documentário, clique aqui.

(Ecodebate, 19/12/2011) publicado pela IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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Um comentário em “Indústria do alumínio: A floresta virada em pó

  1. Muito oportunas considerações.
    Do tópico “A força da grana” transporto para aqui o seguinte texto: “A exportação do setor metalúrgico, pelos dados mais atualizados, de 2009, correspondeu a 2,1% da balança comercial. Por sua vez, as exportações influenciam em 2% do PIB nacional. O alumínio é uma das principais commodities brasileiras e o país é o 6º produtor mundial do metal, atrás da China, Rússia, Canadá, Austrália e Estados Unidos.”
    Esses números revelam a “uma estranha competência” de todos os gestores envolvidos em avaliar a relação de custos e benefícios e, à vista de tão reduzido benefício (2,1% da Balança comercial e 2,0 do PIB nacional) não será difícil tomar uma drástica medida em favor do “Brasil dos Brasileiros” e não do “Brasil de Todos” que inclui, tão predominantemente os interesses estrangeiros e das multinacionais. Ambos os valores de apenas 2% podem ser ganhos apenas com melhor gestão do comércio exterior e com estímulos até por demais simples na produção interna de alguns bens, até mesmo naturais, extrativos. O setor do alumínio poderá ter, no Brasil, o tamanho exato da demanda real de seu consumo interno. Os manufaturados desse metal, de uso comum e geral, deviam ser trabalhados aqui – a partir dos lingotes, e gerar empregos aqui e não lá fora – nos “desenvolvidos” para retornarem com preço multiplicado.
    O PAC não precisaria estar impondo “as Belo Monte da vida” com o principal objetivo de atender complementarmente ao crescimento da extração e redução da bauxita até o estado de mero lingote de valor menor. Raciocinando pelo modo inverso, quando gastamos demais um insumo nobre (energia) para produzir bem que visa exportação de apenas 2,1% na balança comercial e deixa tremendos danos ambientais na Amazônia, cujos custos ocultos devem superar de muito tal diminuta vantagem, devemos repensar um mínimo para decidir pela não expansão e até mesmo pela redução ao nível menor, cessando enorme consumo de energia elétrica e disponibilizando-a para destinação a outras produções mais atrativas e vantajosas para o nosso país e não de todos os países dos outros.
    O lobby, os agentes, as empreiteiras, as fabricantes dos equipamentos e os fornecedores dos insumos necessários para as hidrelétricas querem apenas o “seu peixe” embora aparentem vender desenvolvimento (nenhum real) para o Brasil de Brasileiros, e realmente pensam e fazem o desenvolvimento dos “de lá”, “de fora”, daí ficar muito adequado o mal escolhido slogan “Brasil de Todos”.
    Sem deixar de ser solidário e longe de parecer egoísta, gostaria de ver o Brasil mais dos brasileiros, sem ser de todos que inclui os de fora, ou mais precisamente os importadores e “desenvolvidos” que consta serem os Estados Unidos, Japão, Canadá e Austrália, a que se junta a China.
    O Brasil precisa de um bom gerente de logística e de metas. Tanto esforço para quase nada!

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