A Crise dos Rinocerontes, artigo de Priscila Salvino

 

[EcoDebate] Recentemente, me deparei com uma noticia. A espécie de rinoceronte negro da África Ocidental foi declarada oficialmente extinta pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) no ultimo dia 10.  O que me chamou a atenção foi que a tal noticia estava num artigo pequenino, de poucas palavras, quase imperceptível. Afinal, noticias de primeira pagina como a crise europeia, tema principal do ultimo G20, a crise no Ministério da Imigração do Reino Unido, a crise dos EUA, a ocupação da bolsa, a violência no Egito, enfim, vivemos tantas crises, que não ha um interesse maior em reportar a extinção de uma espécie. Vale afirmar, que alguns sites de informação mencionaram o desaparecimento ad aeternum dessa espécie, já ameaçada em extinção e listada pela UICN ha muitos anos. Mas nada muito relevante.

Entretanto, o que torna tal noticia trágica, e que em menos de um mês atrás, outra espécie de rinoceronte, o Javan do Vietnã, também foi declarada extinta pela UICN. E sabido que todas as espécies de rinocerontes estão ameaçadas em extinção. Os rinocerontes estão vivendo uma crise também, contudo a deles não tem saída.

E por quê? Sabe-se que esses mamíferos perissodátilos (pois possuem numero impar de dedos em cada pata) que habitavam as savanas e florestas tropicais da África e Ásia ha mais de 50 milhões de anos foram sempre alvo de caçadores, devido à crença de que os chifres do animal possuem propriedades curativas de doenças como câncer e problemas de fertilidade masculina. Contudo, essas crenças nunca foram cientificamente comprovadas. Entretanto, os chifres são incrivelmente valiosos, e, só esse ano, 330 rinos já foram mortos. Mas, o que o desaparecimento de uma espécie como a do rinoceronte, tem a haver com a gente? Como a nossa vida pode ser afetada por essa extinção?

A maior consequência da extinção de uma espécie é a irreversível perda da biodiversidade ou diversidade biológica, que é a variedade de todas as formas de vida na Terra.

A biodiversidade pode ser medida em diferentes níveis, como os genes contidos em todos os indivíduos e as inter-relações (ecossistemas) entre as espécies e seus habitats. A existência de uma espécie afeta diretamente a de muitas outras. Um ecossistema é mantido em equilíbrio por meio de uma interação complexa e multifacetada entre um grande numero de espécies. A extinção de uma espécie pode causar o colapso de todo o ecossistema. Nós, humanos, nos beneficiamos e dependemos dos ecossistemas. Se eles são afetados, consequentemente, nós também somos.

Porque rinocerontes são mega-herbívoros, eles têm um grande impacto sobre o ecossistema. Devido ao se tamanho, eles abrem caminhos na mata densa e na floresta para outros animais. Seu excremento enriquece o solo alem de conter sementes que podem germinar, já que a excreção serve de fertilizante. Eles também escavam para criar chafurda, estabelecendo piscinas de água que beneficiam outras espécies, como sapos e insetos que precisam deles para completar seu ciclo de vida.

Os rinocerontes são também carismáticos, atraindo muitos dólares em turismo, inclusive safaris em regiões da África, financiando a conservação de todas as espécies das áreas protegidas e inclusive de populações locais.

Mas há ainda um agravante no caso dos rinos. A biodiversidade também pode ser avaliada pelo nível genético, que se refere às diferenças entre as espécies em termos de variabilidade de genes, que determinam a individualidade de cada espécie. As diferentes cores das penas ou a resistência a doenças são exemplos da expressão da diversidade genética. Os rinocerontes, devido ao seu longo tempo de gerações na Terra, possuem alta diversidade genética, o que os torna uma espécie extremamente importante para os estudos de conservação, inclusive, de outras espécies. A perda de populações distintas entre a mesma espécie, como no caso dos rinocerontes, é tão grave quanto à perda de toda a espécie.

Recentemente, cientistas descobriram um fóssil de um rinoceronte-lanudo, que viveu ha 3.6 milhões de anos, no Plioceno Médio. Tal descoberta sugere que esses animais se modificaram para sobreviver às adversidades naturais. O estudo dos genes dos rinocerontes pode nos ajudar a entender as mudanças climáticas ocorridas durante os diversos períodos.

Enfim, não precisamos listar mais razões para valorar a existência dos rinos e o tamanho da crise que eles estão passando, que como as outras, tem um mesmo causador, a espécie homo sapiens. Contudo, o problema da crise dos rinocerontes, diferentemente das outras mencionadas, é bem mais grave, afinal as espécies remanescentes estão indo para o mesmo caminho sem volta.

Sites para consulta:

http://www.savingrhinos.org/

http://www.rhinos-irf.org/afrsg/

http://wwf.panda.org/wwf_news/?202250/Black-rhinos-moved-to-new-home

Priscila Salvino, advogada, gestora ambiental e ativista, é colaboradora internacional do EcoDebate. Email:priscilasalvino@googlemail.com

EcoDebate, 28/11/2011

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