A proteção do Cerrado é tão importante quanto a da Amazônia

 

[O Estado de S.Paulo] A crescente produção agropecuária do Cerrado tornou o Brasil um dos celeiros do mundo, mas 48,5% de sua mata nativa tinha desaparecido ao fim do ano passado, segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Um dos desafios com os quais o Brasil se defronta é como conciliar o desenvolvimento do agronegócio com a preservação da biodiversidade do maior bioma do País, com 2,39 milhões de quilômetros quadrados, espalhados por 11 Estados e o Distrito Federal. É preciso também levar em conta que a demanda por terras na região é pressionada por novos núcleos urbanos que se formam, por cidades que crescem, por estradas que são abertas, etc. E tem havido no Cerrado exploração madeireira, quase sempre para a produção de carvão vegetal.

O compromisso atual, estabelecido em lei, é de reduzir em 40% até 2020 o ritmo de desmatamento no Cerrado, tomando como base uma projeção para aquela data da destruição que ocorreria se nenhuma medida fosse tomada. A meta tem sido cumprida, afirmou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. A medição feita em 2008/2009 indicava que o Cerrado tinha perdido 7.637 km² de mata nativa, área reduzida em 15,3% em 2009/2010, quando foi de 6.439 km². Contudo, em comparação com a média de anos anteriores (14,2 mil km²), a redução foi de 54%.

É uma boa notícia e, segundo técnicos do governo, o ritmo de contenção da derrubada poderia ser acelerado. Em 2009, quando foi lançado o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado, foi proposta uma diminuição de 60% do ritmo de desmatamento até 2020, mas essa taxa foi considerada muito ousada. Hoje não parece tanto assim.

Isso se deve, em grande parte, ao monitoramento por satélite, que sofisticou a fiscalização, no dizer da ministra. De fato, de janeiro a agosto deste ano, o Ibama lavrou 517 autos de infração por destruição da flora do Cerrado, o que se converteu em multas no valor de R$ 142,6 milhões em 140 municípios. O monitoramento indica que os Estados onde a área plantada de soja mais tem avançado são justamente aqueles onde mais se desmata o Cerrado, como o Maranhão (1.587 km²), o Piauí (979 km²) e o Tocantins (960 km²).

O MMA prevê fiscalização em toda a cadeia produtiva, mas, aparentemente, só está agindo junto aos produtores rurais. O desmate se faz também em atendimento a uma demanda industrial. Embora haja compromisso das siderúrgicas de só utilizarem madeira de florestas plantadas, a queima de variedades nativas para obtenção de carvão vegetal – insumo para a produção de ferro gusa – ainda está longe do fim. Além disso, o cultivo de eucalipto em grande escala muitas vezes substitui as matas, sem que seja reservada uma área de 35% das propriedades para as variedades nativas, como exige a lei.

É verdade que o clima quente e a umidade muito baixa nos meses de inverno (de maio a setembro) tornam o Cerrado sujeito a incêndios espontâneos. Estes, porém, têm sido muito mais raros do que os resultantes da ação humana, não poupando nem mesmo as áreas federais de conservação, nas quais foram queimados 3.228 km² só este ano. A Polícia Federal atualmente investiga a origem criminosa de incêndios em quatro florestas nacionais. O mais grave, na Floresta Nacional de Brasília, consumiu 4 mil de seus 9.351 hectares, sendo mais afetada a área que continha o maior volume remanescente da flora e da fauna do Cerrado.

De acordo com Rômulo Mello, presidente da ICMBio, ficando a Floresta no entorno de Brasília, onde as terras têm valor significativo, há suspeitas de que o incêndio tenha sido provocado. Pode ser, mas aquela foi apenas uma das 11 áreas de conservação atingidas pelo fogo nesta seca, como lembrou a ministra Izabella Teixeira.

De todos os biomas do País, o Cerrado talvez seja o mais ameaçado atualmente. É difícil saber , a esta altura, se aumentar a meta de redução do desmate é o caminho indicado. O certo é que o Cerrado é uma savana das mais ricas em biodiversidade do mundo, e a sua preservação é tão importante quanto a da Amazônia.

Análise originalmente publicada em O Estado de S.Paulo

EcoDebate, 20/09/2011

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