O Verde e o Tédio, artigo de Orlando Monteiro Sbrocco

[EcoDebate] Aquela jogou o filho de 14 dias na caçamba de lixo; a outra deixou o seu morrer de fome. Isto, na mesma semana. Temos o caso Bruno; o caso Mércia; aquele outro, da Vanessa, é mais recente. Há poucos dias, a senhora atropelada e morta por um celerado na festa de casamento do filho.

Junte-se o Oriente Médio fervilhando em guerras intestinas; a boçalidade campeando à solta; o ter superando de longe o ser; a rodagem de um filme sobre o maior picareta brasileiro, enaltecido por entrevistador famoso como “ inteligente e vivaz “ e fica fácil entendermos nossa queda pela eleição de um passado melhor. Melhor em tudo : com menos drogas; mais família; mais segurança. Estável, tranqüilo, apascentado por valores que julgamos ora extintos de nossa sociedade decadente. Uma autêntica Sessão Nostalgia.

Mera ilusão.

O brilhante estudioso da cultura, George Steiner, no seu No Castelo do Barba Azul já assinalava, há 30 anos, esta nossa visão falaz de um passado edênico, em tudo superior a nossa – e então – precária realidade.

Ali, debruçando-se sobre a sociedade européia do início do século XX, belle époque dos pais da II Guerra, o autor mostra que “ a crosta de alta civilidade cobria profundas fissuras de exploração social; a ética sexual burguesa era um verniz, mascarando vasta extensão de turbulenta hipocrisia; a segurança no faubourg e nos parques baseava-se claramente na ameaça , permitida mas mantida em quarentena, dos cortiços “. Reportando-se a obra inda mais completa e que lhe atalhou de fundamento às considerações, as Notes towards the definition of culture, de Elliot, mostra-nos as bases sólidas de suas ponderações.

Esta depauperação dos valores, registra o autor, tem sua raiz primeira e mais profunda no ennui, o tédio tão propalado pelos franceses, traduzido como a perda do sentido da vida, da razão de existir. Crise, bem de dizer, que se arrasta há décadas.

A sacralidade da vida, a sua razão de ser, onde, nas condutas acima descritas?

Onde, importa mais indagar, no cotidiano de todos nós, escravos do deus Sucesso – e relembrando Hollywood, pergunte-se : a qualquer preço?

A questão, parece-me, vem a calhar no momento decisivo por que passa a humanidade, este da crise climática.

Não nos iludamos : Gaia, se chegada a catástrofe, ficará; nós que seremos varridos.

Nunca, em toda a história, viu-se a raça humana perante desafio desta magnitude, qual seja, de manter-se, de garantir sua existência.

A temática da fraternidade, do amor ao próximo – e, por que não dizer?, a todas as coisas da Criação – é frequente nos debates humanistas.

Até mesmo a salvação, ou elevação espiritual, está ligada a questão do dar-se, do solidarizar-se. Afinal, o Altíssimo prescinde de nós ; nosso irmão no pecado, não.

O que me parece novo, contudo, e emblemático, é que a crise climática traz nova realidade : é mister amar o próximo para nos salvarmos aqui. Não só na transcendência, mas aqui, neste problemático, porém único planeta.

Digam o que disserem os céticos do clima – e é divertido ver a fragilidade de seus argumentos em dados, p.ex., como os relativos aos valores pagos pela Exxon a instituições americanas para combater a teoria do aquecimento ( Atlas do Meio Ambiente, Le Monde Diplomatique, pág. 15 ) – os fatos são claros e eloqüentes quanto ao perigo que nos afronta.

E se a emissão entrópica de GEEs é a grande responsável, ela provém de onde senão de nossa sociedade de consumo, de nossos hábitos?

Indo direto ao ponto : provém de nossas mesquinharias, nossos desejos pequenos, egoístas, vaidosos, arrogantes, amparados por argumentos de vexar uma criança.

Não cabe qualquer dúvida que este é o nó da questão : o modo de vida que elegemos.

Daí, como corolário perguntar : como alterá-lo, como fazer-nos entender que o planeta não comporta mais anseios, desejos de desenvolvimento, de riqueza, totalmente dissociados de seu potencial, de suas possibilidades físicas e finitas?

Como dizer a multidões, a centenas de milhões de emergentes, que a festa sonhada, a festa, meus caros, para vocês…a festa foi cancelada, malgrado todos os preparativos. E em definitivo! Como lidar com a injustiça desta sentença? Como, ademais, entendermos que também para nós o baile acabou ?

Como, se, por um lado, há uma pressão insana pelo sucesso, representado pelo ter, pelo acúmulo e ostentação e, por outro, um descaso das alternativas a este modelo como sempre as conhecemos : a religião no seu sentido amplo, a solidariedade, a frugalidade?

Como propor sacrifícios e uma visão mais altruísta da vida se o tédio vem ganhando esta batalha há tanto tempo com folga notável e, pior, de forma solerte, silenciosa, minando nossos sentidos e, dá-lhe!, coonestando este estilo de vida com toda sorte de pequenas, leves, gentis, e nem por isto menos falsas justificativas?

Ter a casa na praia, com churrasqueira, piscina, perto de águas límpidas e areia fofa, ora, por que não?; o carrão 4X4, de quase uma tonelada, embora sejamos só minha mulher e eu, ora, por que não?; a casa espaçosa, com 5 TVs ( fora as da criadagem ), ora, por que não?; comer frutas que viajam milhares de kms de avião, ora, por que não?; tomar banhos longos e reconfortantes, bah!, por que não?

Afinal, estes os troféus, os louros merecidos da vitória, as glórias do sucesso com que almejamos desfilar, pimpões, estapeando a cara alheia – ou outro é o verbo?

À patuléia compete essa de solidariedade, de espiritualidade, de respeito ao espaço alheio , cautela e zelo quanto ao futuro e blá, blá, blá….

Bobagens, enfim, totalmente sem glamour, destituídas de qualquer charme, vazias de encanto ( porquanto simples, evidente ). Insossas, isto sim!

Até quando viveremos o domínio do supérfluo, a tirania da fatuidade, a praga da inação, o embotamento do tédio? Até quando?

A resposta pode estar com aquele russo notável, Dostoiévski.

Próximo de ser mandado para o paredão, no dia de seu fuzilamento – que não aconteceu -, vira-se para o companheiro de subversão e também condenado, Spechniev, um enpedernido ateu, e dispara : “ Nous serons avec le Christe “ ( estaremos com Cristo ) . E tem como resposta : “ Un peu poussiére ” ( um punhado de pó ).

Sim, amigos, tenho para mim que só há dois tipos de homens : os que creem e os que não creem.

Urge formar com os primeiros.

Orlando Monteiro Sbrocco é historiador e advogado, empresário na área ambiental, tendo um projeto para o plantio de 1 milhão de árvores.

EcoDebate, 12/05/2011

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