Eco-consumismo, artigo de Janos Biro

[EcoDebate] O grande conflito entre a perspectiva ecológica e a político-econômica é que o equilíbrio dinâmico dos ecossistemas limita a possibilidade de manter o desenvolvimento da produção e do consumo regulado apenas pelas leis de mercado e pelos poderes políticos. Se o consumidor está submetido a um sistema econômico e político incompatível com a realidade ecológica do mundo natural, ele não tem o poder de fazer escolhas que levem a um consumo sustentável.

O consumo sustentável, ético, responsável e consciente não é uma simples questão de escolha de consumo. Depende de um sistema político-econômico compatível com as leis da ecologia. Quando é a própria cultura de consumo que define o que é ecológico, a ecologia se reduz à produção e ao consumo de tecnologias mais eficazes e que desperdiçam menos matéria e energia, mas não necessariamente respeitam as limitações ecológicas. A cultura de consumo não consegue ser ecológica porque não consegue ser limitada pelas leis que limitam todas as outras espécies de animais, ela meramente usa o conhecimento ecológico para proveito próprio, evitando seus efeitos limitadores o máximo possível.

Nossa cultura elegeu o consumidor como agente multiplicador de ações políticas e privadas que visam a sustentabilidade. Ele deve entender o que motiva o consumo e saber separar necessidades reais de necessidades criadas. Mas a sua “consciência ecológica” também é um produto cultural sendo propagado pelos meios de comunicação que estão sob controle do sistema econômico. É uma consciência ideológica que segue o critério da racionalização das relações em função da produtividade. A ideia central é racionalizar o uso das tecnologias e dos meios de produção para benefício da sociedade civilizada. O indivíduo que assume o papel de consumidor consciente e ecologicamente correto não percebe que está seguindo uma exigência criada pela indústria cultural, que por sua vez está apenas explorando um promissor segmento de mercado.

A cultura de consumo propaga uma ética baseada no “consumir bem”, que é confundida com a ética do “viver bem”, porque a vida passa a ter o sentido de consumo. Atribui-se uma responsabilidade meramente nominal a um sujeito que não recebeu condições para ser responsável. Pede-se que ele crie uma consciência que na prática é rejeitada pela sociedade industrial ou pós-industrial em que vivemos. O consumo se tornou espetáculo, assim como a própria crítica ao consumismo. A cultura de consumo apresenta aquele que não consome como avarento, e o que consome como generoso, reforçando assim uma representação que tem o objetivo de gerar coerção social. O consumo chega a adquirir um significado existencial. Ser ecológico se torna uma questão de marketing pessoal e de gestão da imagem que visa nada mais que melhorar as condições de consumo.

O discurso eco-civilizado diz que a preservação da natureza só será possível quando os bens naturais forem considerados como recursos econômicos e regulados seja pelo mercado ou pelas instituições. Ou seja, o discurso ecológico só passa a ser possível se estiver submetido a um discurso político e econômico. O mais lógico seria o inverso, já que a sociedade humana é apenas um sistema dentro do ecossistema planetário. Essa inversão está pressuposta quando se fala de tecnologia verde, reciclagem, créditos de carbono, pegada ecológica, capital natural… O símbolo disso é o planeta sendo segurado por mãos humanas. Estabelecemos uma relação economicamente racionalizada com a natureza enquanto fonte de recursos materiais da civilização. Uma economia baseada em recursos é o inverso de uma ecologia que compreende os problemas econômicos inerentes ao desenvolvimento da civilização. Esse tipo de ecologia, que poderíamos chamar de “ecologia compreensiva” ainda não encontra espaço para ser devidamente formulada e discutida.

Janos Biro
Site pessoal: https://sites.google.com/site/janosbirozero/

EcoDebate, 12/05/2011

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4 comentários em “Eco-consumismo, artigo de Janos Biro

  1. Concordo com a necessidade de evitar a filosofia do consumo pelo consumo, porém o autor simplesmente não questiona mecanismos inventados nestes dois últimos séculos com o objetivo de induzir a este consumo.

    Acho SIMPLESMENTE inócuo não coibir a propaganda, o marketing (que tenta convencer que aquilo que nunca precisaste como algo essencial a sua vida).

    É simplesmente ridículo e NUNCA dará resultados esperar que surja uma “consciência ecológica” para inibir o consumismo desenfreado.

    Este é o problema dos ecologistas em geral, negam que por trás de toda esta máquina de consumo está uma imprensa que vive exatamente da divulgação disto.

    No fundo os ecologistas estão num dilema, ou rompem com a sociedade liberal dos dias de hoje ou morrem com ela.

    Conheci vários próceres da ecologia que adotaram posições radicais quanto a postura individual do cidadão, porém quando chegou a hora de romper com todo o status quo, andaram no sentido contrário.

  2. Rogério,

    Na verdade eu concordo plenamente com você. Este pequeno texto é apenas um resumo de um trabalho mais extenso, que você pode ler clicando no meu link. Minha perspectiva também é a de questionar radicalmente os mecanismos que incitam ao consumo e criam uma cultura de consumo. Talvez isso não tenha ficado claro por causa do limite de tamanho do texto.

    Só penso que não é exatamente a publicidade que convence as pessoas. Há uma visão de mundo que antecede e está pressuposta na aplicação dessas regras de publicidade ecológica. E nesse caso atacar somente os meios de propagação de uma ideia sem atacar a fonte dessa ideia seria uma ação paliativa. A publicidade é a expressão de um problema social mais profundo.

    Concordo plenamente não é possível esperar que surja uma “consciência ecológica”. E por outro lado não podemos obrigar as pessoas a fazer algo que elas não acreditam. Impor uma solução sem que as pessoas tenham mudado seu modo de pensar seria igualmente equivocado. As pessoas precisam de um bom motivo para romper com algo tão arraigado, e não basta apenas culpá-las por não conseguir fazer isso.

    Porém, se ler outros dos meus textos verá que eu concordo plenamente em romper radicalmente com a sociedade liberal. Embora este texto seja bem leve comparado com os outros que eu escrevo, parto da premissa que a civilização é inerentemente insustentável. É importante romper com o status quo, mas é preciso questionar também as condições de possibilidade de uma cultura insustentável.

  3. A ciência econômica se baseia na satisfação de necessidades humanas supostamente ilimitadas a partir de recursos supostamente limitados. Essa equação, em si mesma, já se mostra impraticável. Se todos almejassem o mesmo padrão de consumo das classes mais altas ou dos cidadãos comuns dos países mais ricos, não daria para todos. Também vejo com suspeita a invenção da ecoindústria, mais ainda quando seus produtos são tão industrializados quanto os demais (Natura, por exemplo). A atuação capitalística de ongs que hoje são verdadeiros potentados econômicos transnacionais (WWF, Greenpeace) também me assusta.
    Em suas páginas na Internet há sempre um link bem visível: como fazer uma doação.

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