Captura e o sequestro de carbono: Nos EUA projetos experimentam injetar dióxido de carbono em rochas

Estação de injeção de CO2 da American Electric Power's Mountaineer, New Haven, W.Va. Foto de Kevin Riddell/The New York Times
Estação de injeção de CO2 da American Electric Power’s Mountaineer, New Haven, W.Va. Foto de Kevin Riddell/The New York Times

Se quisermos que o carbono seja mantido fora da atmosfera, boa parte dele terá de ser injetado de volta no solo do qual ele foi extraído sob a forma de carvão, petróleo ou gás.

Nem mesmo o otimista mais ardoroso em relação às energias alternativas sugeriria que os combustíveis fósseis vão deixar de ser usados em breve. Então, a captura e o sequestro de carbono – CCS na sigla em inglês – é essencial para uma política nacional de energia. Mas quase toda a discussão tem sido sobre a captura e nem tanto sobre o sequestro. Reportagem de Matthew L. Wald, The New York Times.

Mas há sinais de progresso. O primeiro projeto de sequestro em grande escala na América do Norte, nas margens do rio Ohio em New Haven, West Virginia, vai concluir em breve sua missão, com algumas boas notícias inesperadas.

Pelo menos num tipo de rocha, o dióxido de carbono parece entrar nos pequenos espaços abertos com mais facilidade do que o esperado, o que significa que o trabalho pode ser mais fácil do que se imaginava. E mais de 800 quilômetros a oeste, perto de Meredosia, Illinois, um projeto maior para tentar injetar carbono num tipo mais comum de rocha está prestes a começar.

“Isso nos incentivou bastante”, disse Gary Spitznogle, gerente de engenharia de captura e sequestro de carbono da American Electric Power, uma companhia que produz eletricidade em 11 estados, principalmente a partir da queima de carvão. No final de 2009, ela começou a capturar o dióxido de carbono de uma parte dos gases de sua usina de carvão em Mountaineer, New Haven.

Com quase todo tipo de rocha em que o dióxido de carbono pode ser injetado, o objetivo é fazer com que ele tome o lugar da água – normalmente água salgada, sem valor econômico. O projeto perto de Meredosia injetará dióxido de carbono no arenito, uma formação porosa encontrada sob a maior parte do Meio Oeste e de outras partes da América do Norte. O arenito também está embaixo de Mountaineer, e seus poros costumam ser muito pequenos para serem vistos a olho nu. Mas outra camada sob Mountaineer é de um outro tipo de rocha, a dolomita, que tem poros mais parecidos com os buracos de um queijo suíço. Essas são as “porosidades vugulares”.

Na dolomita, descobriu-se que o dióxido de carbono tem propriedades interessantes, de acordo com Spitznogle. Ele é mais fluido do que a água salina que desloca, diz ele, e, como resultado, à medida que mais dióxido de carbono era injetado, e a fronteira entre o dióxido de carbono e a água salgada ficava maior, o fluxo ficava mais fácil.

“O sistema foi projetado para aguentar até 1,27 toneladas por polegada quadrada, mas não precisamos chegar perto dessa pressão”, disse ele. Na verdade, o dióxido de carbono tem fluido lentamente numa pressão de 680 a 815 quilos por polegada quadrada.

Como cada quilo de pressão a mais significa mais energia elétrica para fazer o trabalho, uma pressão menor significa que o sequestro será mais barato. (A maior parte do consumo de energia, entretanto, está na fase de separação.)

Ainda assim, o teste de Mountaineer é apenas um piloto. A fábrica de separação está funcionando com menos de um sessenta avos dos gases da usina, 20 megawatts de uma produção de 1.300 megawatts. A próxima fase é uma unidade de 235 megawatts, disse ele; se a regulamentação do carbono exigir, a companhia construirá módulos desse tamanho perto de suas usinas. A injeção poderá então acontecer em vários poços, cada um deles chegando a uma profundidade diferente.

O projeto de Meredosia usará um método totalmente diferente para separar o dióxido de carbono. Em fevereiro, os patrocinadores do projeto disseram que identificaram uma área em Morgan County, Illinois, para sequestro, em Mount Simon Sandstone, uma estrutura geológica que se estende pela maior parte do Meio Oeste. No local em questão, ela tem uma espessura de cerca de 260 metros.

“A quantidade de espaço de poros que vamos consumir em 30 anos seria da ordem de menos de 1% até alguns pontos percentuais”, disse Kenneth Humphreys, diretor-executivo da FutureGen Alliance, um consórcio de companhias que construirão e operarão o projeto.

Um problema para a FutureGen é que a propriedade da terra na área está dividida entre muitos proprietários e, no momento, o espaço poroso da rocha é considerado propriedade do dono da superfície. Humphreys disse que não sabe quanta área subterrânea será necessária para o projeto – ele pode caber em 2.500 acres ou pode precisar de 10 mil, disse ele.

O fluxo de dióxido de carbono da FutureGen será cerca de dez vezes maior do que o de Mountaineer. O projeto piloto da Mountaineer, que deverá funcionar durante cinco anos, deve ser concluído antes, porque as companhias envolvidas já descobriram o que precisavam saber. A usina de Meredosia deverá funcionar por 30 anos.

Muitas organizações ambientais nacionais e internacionais são a favor do sequestro de carbono, embora se preocupem com os detalhes. Houve uma oposição local, em alguns lugares, que pode ser descrita como: “não no meu quintal”. Os patrocinadores da FutureGen dizem que escolheram as terras em Illinois em parte por causa do apoio local.

E várias seções da estrutura legal para o sequestro de carbono estão começando a ser definidas. Em novembro de 2010, Lisa Jackson, administradora da Agência de Proteção Ambiental, deu a aprovação final para uma decisão que foi preparada durante três anos, criando uma nova classe de poços para a injeção de dióxido de carbono. A norma trata de como as operadores precisam estudar a geologia subterrânea, construir o poço, operá-lo, testar o fluxo subterrâneo, responder em caso de emergência e fechar o poço quando ele estiver cheio.

Um dos principais pontos da norma é proteger a água potável. Embora o dióxido de carbono não seja tóxico – na verdade, os seres humanos o emitem toda vez que expiram – ele muda a acidez da água na qual é injetado. Isso pode fazer com que a água subterrânea aja sobre materiais tóxicos que existem no subsolo e os dissolva.

Então a EPA não permite que o dióxido de carbono seja injetado nos reservatórios de água subterrânea que atendem aos padrões de potabilidade. Em vez disso, ele será injetado em aquíferos salinos, onde a água é muito salgada para beber e ser usada na irrigação.

A EPA já tem regras que cobrem a injeção de dióxido de carbono em campos de petróleo, onde ele é usado para forçar o petróleo a subir para a superfície. A nova regra regulará esses campos que passarão a ser utilizados como locais de depósito de carbono.

Uma parte da estrutura legal continua em grande parte indeterminada. Companhias privadas dizem que assumirão a responsabilidade pelo dióxido de carbono que colocam no subsolo pelo tempo em que estiverem injetando-o, e talvez durante algumas décadas depois. Além disso, no projeto de Illinois, o plano é comprar seguros comerciais e estabelecer um fundo para lidar com problemas futuros.

A FutureGen disse que assumirá a responsabilidade por quaisquer danos enquanto estiver injetando o carbono, e estava separando dinheiro para longo prazo num fundo para pagar por problemas futuros, se houver algum. E disse que adquirirá um seguro comercial.

Isso faz com que Illinois esteja na quarta linha de defesa, disse Humphreys. Mas as companhias não aceitarão a responsabilidade para sempre, e não é uma boa ideia para elas concordarem em assumi-la, porque o dióxido de carbono durará mais do que as entidades corporativas.

“A única coisa que pode estar garantida é que os Estados Unidos da América, e o Estado de Illinois, existirão nos próximos 100 anos”, disse ele. “Você precisa que alguém seja o responsável final”.

Mas fazer com que as legislaturas concordem é um processo realizado em cada estado.

Tradução: Eloise De Vylder

Reportagem [Tucking Carbon Into the Ground] do New York Times, no UOL Notícias.

EcoDebate, 06/04/2011

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