População deslocada para a construção das usinas de Jirau e Santo Antônio perde renda com mudança

Desalojados do madeira sofrem – O Planalto acusou as construtoras das usinas do Rio Madeira de tratar de forma ultrapassada e autoritária os operários que, na semana passada, quebraram e incendiaram alojamentos. Mas a obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) enfrenta problemas sociais criados pelo próprio governo. Reportagem de Leonencio Nossa – O Estado de S.Paulo.

Na região onde as obras estão sendo tocadas, famílias tradicionais reclamam da perda da renda. Os moradores da localidade de Engenho Velho, na margem esquerda do rio, uma das desocupadas para abertura do canteiro de obras da usina de Santo Antônio, que junto com Jirau forma o complexo hidrelétrico, dizem que deixaram de ser ribeirinhos para virar desempregados na periferia de Porto Velho.

Transferidos para Novo Engenho Velho, uma vila construída às pressas pelo consórcio das obras numa área mais afastada do rio, eles afirmam que tiveram suas vidas alteradas e, diferentemente das famílias pobres de bairros antigos da capital, situados na margem direita, não têm acesso a programas sociais e à assistência do poder público.

Uma parte dos moradores da antiga vila ganhou casa de alvenaria, outra parte ainda espera a promessa de nova residência. É o caso do pescador Manoel Teles de Menezes, 60 anos. Ele reclama que na ponta do novo povoado, mais perto do Madeira, o rio não oferece condições de pesca. “Antes, tirava 40 quilos de peixe por dia. Ontem, não tirei nada”, diz. “A gente jogava a rede para pegar dourado lá para cima, onde o consórcio fez um porto”, completa. “Agora, só deixam pescar daqui para baixo, na água que não dá peixe.”

Canoa vendida. Os moradores estão abandonando a prática da pesca, principal atividade econômica da comunidade até a mudança. A maioria precisa fazer longas caminhadas até chegar ao rio. Muitos já venderam a canoa. Outros estão colocando placa para vender a casa que ganharam.

Sair da nova vila é o desejo da “ex-ribeirinha” Raimunda Gomes de Freitas, 55 anos. Ela morava numa palafita à margem do Madeira. Vive numa casa de alvenaria a 1 quilômetro do rio. “A vida aqui não está pior, está péssima. Eu pescava 20 quilos de peixes por dia, dava para comer e vender o restante. Aqui, a gente tem de comprar até branquinha, porque a pesca foi proibida”, relata. “Na vila antiga, eu não precisa sofrer com a carestia dos preços na cidade.”

A família de Raimunda não tem mais canoa. O trecho do rio que passa mais próximo das casas é bem mais largo e com mais correntezas do que na antiga vila, impróprio para embarcações sem motor. Raimunda reclama também da qualidade do solo. Antes, no verão amazônico (julho a dezembro), ela plantava feijão, abóbora e hortaliças nas terras da margem do rio adubadas por sedimentos acumulados na cheia.

Ela faz questão de mostrar o pequeno quintal da nova residência. “É só cascalho, veja, é terra dura, as plantas não crescem e as galinhas não engordam”, afirma. “Limão enxertado dá em todo canto. Menos aqui.” A moradora conta que, após o início do projeto da usina, passou a sentir problema da hipertensão.

EcoDebate, 25/03/2011

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