A ilusão japonesa de domar o átomo nuclear

Defesa civil busca moradores de Otama, nos arredores da usina. Quase 500 estavam na região na hora da explosão. Foto: DW
Defesa civil busca moradores de Otama, nos arredores da usina. Quase 500 estavam na região na hora da explosão. Foto: DW

Os japoneses redescobrem a energia nuclear “ruim”, provocando o declínio da ilusão de ter domado o átomo. Na cabeça de muitos japoneses, um povo ferido por Hiroshima e Nagasaki, havia se enraizado a ideia de que ser pró-energia atômica era sinônimo de pacifismo .

A reportagem é de Renata Pisu, publicada no jornal La Repubblica, 13-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os japoneses estavam confiantes, convictos de que apenas eles saberiam domar a fera nuclear e torná-la inócua. Eles haviam sido os únicos que viveram o trágico “day after” depois dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, que se despertaram feridos e contaminados, talvez marcados para sempre, nas gerações por vir, pelos efeitos ainda desconhecidos das radiações. Assim, por excesso de otimismo e talvez de arrogância, quiseram construir na sua terra que treme todos os dias inúmeras centrais nucleares para resolver, de uma vez por todas, o seu problema energético.

Certamente, tanta audácia e tanta confiança na energia nuclear eram acompanhadas por uma tentativa orgulhosa de remoção da megamorte sofrida por causa da Bomba H. Domar a fera era considerado uma espécie de reconquista. Mas a fera havia se voltado contra eles, desta vez mais feroz do que nunca.

A atitude dos japoneses com relação à energia nuclear me foi explicada pelo cientista Sadao Ichikawa, diretor do laboratório de genética da Universidade de Saitama, que nasceu dois anos antes da explosão da bomba atômica e que se tornou, depois, um dos mais apaixonados defensores do uso pacífico da energia nuclear.

“Todos estávamos convictos de que, pelo fato de o Japão ser o único pais do mundo a sofrer por causa da energia nuclear, devíamos ser os primeiros a usá-la para fins pacíficos. Nas manifestações, o slogan gritado por todos era: ‘Chega de armas nucleares. Empenhemo-nos pela energia nuclear!’. Foi assim que, entre nós, na cabeça das pessoas, enraizou-se a convicção de que ser pró-energia atômica equivale a ser pacifista. Na Europa e nos EUA, as pessoas sabem que há uma relação entre uso militar e uso civil da energia nuclear, mas aqui o fato de serem relacionáveis e relacionados nem toca as consciências. Eu também não tinha nenhuma dúvida disso. Comecei a estudar os efeitos das radiações nas espigas de milho e me sentia como que investido de uma missão: o átomo faria milagres”.

Mas ele não fez milagres, e Ichikawa tornou-se um antinuclear convicto, um “verde”, graças a uma florzinha, a “Comellina comunis”, que ele submeteu a radiações nucleares, notando que ela mudava de cor, de azul tornava-se rosa. Ao redor de 10 das 55 centrais ativas no Japão, Ichikawa semeou essas florzinhas, e, por cinco anos, estudantes, donas de casa e aposentados as monitoraram: estavam todas rosas, sempre rosas, como pequenos Geiger vivos que deixavam patente a ameaça invisível.

“A flor era um mutante, e então entendi que não existe uso pacífico da energia nuclear, há apenas uso perigoso. Queremos nos tornar mutantes? Ou talvez já o sejamos?”. Esse é o pensamento do professor Ichikawa, que prega a estratégia da florzinha, não ouvido e também zombado, em um país em que a energia nuclear tornou-se uma indústria, parte integrante do sistema, uma força da conservação e, principalmente, um enorme negócio.

Dos acidentes devido à energia nuclear no Japão, sempre se falou pouco, mas a Agência para a Energia, praticamente um poderoso ministério, não conseguiu fazer passar em silêncio o grave escândalo daqueles trabalhadores chamados no Japão de “os ciganos da energia nuclear” cerca de 20 mil pessoas encarregadas dos trabalhos de limpeza dentro das centrais, contratados por um máximo de três meses por empresas de serviços que, por sua vez, subcontratam outras empresas e assim por diante, para que, no fim, se perca todo rastro.

Todos os trabalhadores têm uma placa pessoal para o controle da exposição às radiações, e pode ocorrer que um operário, tendo alcançado o seu limite de horas de exposição, seja “confiado” a uma outra central, onde lhe é dada uma nova placa. Ninguém controla. Basta que o operário mude de nome, e, se adoecer com um tumor por causa da exposição excessiva às radiações, ninguém é responsável, respondem na Agência para a Energia – e responderam para dezenas e dezenas de casos – que não sabe nada de nada dessas pessoas.

Hoje, quando novamente a energia nuclear é percebida como uma tragédia, os japoneses talvez se deram conta de que, entre os “mutantes” atingidos por radiações bélicas e os filhos dos seus filhos – todos chamados de “hibakusha”, isto é, os bombardeados pelo átomo mau – e todos aqueles que na época de paz foram bombardeados pelo átomo bom das centrais nucleares, não há nenhuma diferença. Não se viu um “cogumelo”. O que se viu, no entanto, foi a onda do tsunami.

(Ecodebate, 15/03/2011) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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