A ‘desgraça’ da droga, artigo de Anchieta Mendes

[EcoDebate] Encontros, reuniões, seminários, conselhos, comissões, grupos de trabalho, palestras, manchetes, notas de jornais, opiniões, críticas, rezas, e tantas outras manifestações de autoridades ou prováveis mestres; alvoroço, estatísticas, demagogia que se espraia por conta do problema, lágrimas de mães, fuga de pais, é uma verdadeira calamidade que se instaura e se instala por todos os cantos do país e do mundo.

É a droga, de qualquer nome, qualidade, quantidade e uso, com as suas desgraças, de que vêm as mortes, os crimes, as iniqüidades, a violência de todo tamanho e resultados dramáticos. É o que se vê e deplora-se. É a droga que muda de nome, muda (para pior) de resultado nefasto, devastador do corpo e da alma dos homens, de todas as idades, notadamente, das idades mais novas.

Tudo se torna alarde e alarme, gritos e gemidos, lágrimas e tristeza mortal. É a família destruída, amesquinhada, inerte, desprotegida e doente. É a sociedade que, por tudo isso, não resiste, perde as forças, a confiança, a capacidade de reagir e mudar.

Fala-se demais e faz-se de menos. Leis? Não são cumpridas, a partir do Estado que as edita. Exemplo? A lei anti-drogas que não é complementada, não surte efeito porque não se cuida de transforma-la em fatos, em realidade. Sabe por quê? O Estado não cumpre a sua parte, por exemplo, construindo e mantendo clínicas de recuperação de usuários; permite, não dá condições e as escolas se tornam despreparadas para cuidar do problema, dentro da sua especialidade. E o estado que não oferece o mínimo assegurado na Constituição: saúde, educação e segurança; não oferece salário condigno, moradia, assistência social.

O maior cliente (réu) da Justiça é o próprio Estado, incluindo-se o País, os Estados federados, os municípios, as empresas públicas, etc. que negam os fundamentais direitos do cidadão que são o salário digno, a assistência médica, etc. Negam aos cidadãos, negam na Justiça, quando pleiteados esses direitos e a via-sacra não termina.

E as causas de tantos males? As mais distantes, remotas ou mais recentes e localizadas? Quem se volta ou demonstra interesse em combater as causas de tão duro e impiedoso problema?

Ora! As causas mais gritantes do doloroso problema da droga são de natureza sociais e éticas. Querem ver? Os exemplos dos homens (não todos, claro) que exercem o poder, a corrupção despudorada, os gastos públicos excessivos com mordomias e benesses; a falta de ética e compromisso com a nação fazem com que os jovens, notadamente, percam a esperança, não acredite na vida, na realização, na conquista de valores.

Há poucos dias uma professora indagava-me: será aceitável que uma autoridade combata a droga, sendo uma usurária dela? Não deu o nome. Considerei absurdo.

Baudelaire (Charles Pierre – 1821/1867), que morreu, prematuramente, vítima dos abusos dos estimulantes nervosos, em seu famoso ensaio “Paraísos Arficiais” falou, com lucidez, sobre os efeitos do ópio, no seu exagerado pessimismo: Imaginemos uma sociedade em que todos os cidadãos se embriaguem com haxixe (Maconha)! Que cidadãos! Que guerreiros! Que legisladores!

A droga, infelizmente, está se tornando epidemia nacional. Difícil, impossível, mudar-se esta situação se todos, a partir do Estado não fizerem a sua parte.

Anchieta Mendes, Magistrado (aposentado), Professor da Universidade Federal do Piauí (aposentado) Jornalista, escritor – Membro de Academias de Letras e outras instituiçoes literárias do Piauí e do Brasil

EcoDebate, 04/03/2011


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