Sofrimento de Mãe, artigo de Maurício Gomide Martins

[EcoDebate] O amor de mãe supera o amor à própria vida. É quase inexplicável a energia presente no vínculo de uma mulher a seu filho. Torna-se até misterioso esse liame que une causa e efeito, de forma tão forte que a causa-mãe chega ao ponto de se dar em holocausto no esforço de preservação ao efeito-filho.

Na Natureza, entre os animais, são comuns esses atos de renúncia suprema. Vimos muitas vezes que, sob ameaça à integridade dos filhos, uma débil geradora ataca furiosamente o forte predador, em qualquer circunstância, mesmo sabendo da possibilidade de seu próprio sacrifício.

Há poucos anos, por ocasião do pavoroso incêndio ocorrido no edifício Joelma, em São Paulo, as lentes dos jornalistas ali presentes tiveram a oportunidade histórica de gravar as ações de desespero, nas alturas, de uma mãe e seu filho de uns 9 anos. Ambos, na fuga desesperada das chamas que queimavam e matavam, saíram pela janela, num esforço muscular enorme, com o objetivo de entrar na do andar inferior contíguo.

Ficou registrado que, durante todo o tempo do transbordo, a mãe protegia o filho para que este não caísse de tal altura, de forma que o guri conseguiu pôr-se a salvo no gradil da janela de baixo. O esforço dessa mãe, frágil de músculos, foi tão grande que as forças lhe faltaram para sustentar-se nas alturas e despencou para o solo. Essa cena tornou-se emblemática para a grandeza do amor materno, infelizmente hoje bastante enfraquecido pelos vícios e seduções do ambiente materialista do sistema econômico.

A Natureza ensina: a vivência de uma genitora se destina a garantir a sobrevivência de sua prole. No caso, não nos vamos enredar em considerações biológicas, filosóficas ou mercadológicas – ricas nesses aspectos –, porque o foco de nosso tema é o meio ambiente, muito mais importante porque vital, eis que ele engloba todas as referências imagináveis, inclusive aquelas áreas.

O suplício da mãe Terra, neste momento, torna-se triplamente doloroso quando percebe que suas próprias chagas são causadas pelas ações insanas dos filhos humanos. Desgarrados da vivência natural pela ganância e conforto material sem limites, estes são levados à própria extinção, como vêm fazendo com seus irmãos da fauna e flora. Na qualidade de sua natureza criadora, a Terra sofre por amar sua prole humana e suporta o tratamento ingrato e vil recebido. Nesse desespero, pede socorro à consciência dos homens que ainda são capazes de uma visão crítica e depositários de amor filial.

Essa desditosa queixa-se que, não satisfeitos de lhe sugar todo o leite-vida das mamas, extraem-lhe com violência os próprios seios, o ventre e o sangue para transformá-los em metais sonantes, alimentando a volúpia do desenvolvimento econômico até o infinito. Apesar de ela estar ferida e em prantos, seus filhos, ditos inteligentes, não querem enxergar que tais sofrimentos ainda são suportados por amor a eles. Mas esse amor pode se transformar em ódio!

Ainda assim, pela sua sabedoria e destino sideral – após o perecimento da humanidade perversa e ingrata – ela continuará viva e renovável nos tempos futuros, tão futuros que não marcam tempo. Ela terá mais de 5 bilhões de anos para se renovar e criar outros filhos ao modo que mais lhe convenha.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 24/02/2011


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