Entrevista do jornalista Mayron Régis, do Fórum Carajás, para Tina Kleiber da ASW/Agência de Cooperação Alemã

Como é a situacão de desmatamento/ degradacão da floresta e dos recursos naturais atualmente na região onde o Fórum Carajás atua? Como é especificamente nas comunidades Quilombolas?

Boa parte das matas nativas do Maranhão e do Pará já foram desmatadas para a criação de gado, para as madeireiras e para as siderurgicas. No caso da amazônia são 60% no Cerrado 40%.
No caso das comunidades quilombolas elas geralmente ocupam partes mais distantes dos centros urbanos. Há algum tempo atrás os antigos proprietários os viam como parte das suas propriedades. Podia ser que quando um desses proprietários deixasse a propriedade para a comunidade quando morria, mas o que acontece com frequência é o proprietário vender a maior parte da propriedade e deixar alguns hectares para os quilombolas. Se formos rigorosos o estado do Maranhão é um quilombo imenso. O Maranhão junto com a Bahia possui a maior população negra do Brasil e essa população mora em boa parte na zona rural.No caso do Baixo Parnaiba, temos exemplos de Bom Sucesso em Mata Roma e Saco das Almas em Brejo que são reconhecidas como terras quilombolas, mas os antigos proprietários ou os próprios moradores venderam suas terras para plantadores de soja ou para a Suzano . Boa parte dessas áreas já estão desmatadas. A Suzano Papel e Celulose é uma empresa que produz cellulose a partir do eucalipto. Possui areas em São Paulo,Bahia, Piaui e Maranhão. Ela desenvolve umprojeto de reflorestamento de quase 500 mil hectares no Maranhão e Piaui. A razão disso é que as terras nesses dois estados são mais baratas e no Cerrado pode se desmatar até  80%.

Porque estao fazendo projetos de reflorestamento justamente nas comunidades quilombolas? Qual o resultado que se espera? Quais experiencias ja tem?

Por várias razões. Isso é uma questão cultural. Caso que se perca a história dessas comunidades o Maranhão perde sua identidade. São as comunidades mais afetadas do ponto de vista sócio-ambiental. São comunidades com pouco acesso a educação e a inovações tecnológicas. O meio ambiente acaba sendo o suporte para essas comunidades. Com o desmatamento e com a contaminação por agrotóxicos essas comunidades perdem geração de renda e qualidade de vida

O resultado que se espera é que mantenham suas tradições – tradições culturais e sociais – o quilombo de bom sucesso tem o tambor de crioula e não vendam suas terras. Experiências temos em Bom Sucesso, Mata Roma, e São Raimundo, Urbano Santos. Projeto de educação ambiental em Mata Roma e de manejo de bacuris em Urbano Santos.

Que tipo de dificuldades vocês encontram? Quais as necessidades de apoio para os quilombolas enquanto á mudanca climatica, desmatamento, degradacão dos recursos naturais?

Falta de recursos financeiros e humanos. O melhor apoio seria a formação de técnicos voltados para a questão quilombola. Justamente isso. Os técnicos fariam o inverso. Muito desses financiamentos são pacotes técnicos que obedecem a uma lógica economicista de que a comunidade deve produzir determinados alimentos não para eles e sim para outros mercados. Tem um exemplo de um assentamento em que os assentados foram orientados a cortar os bacurizeiros para plantar caju. A idéia de uma assessoria acompanha o cotidiano da comunidade em todos os seus aspectos. A Tijupá pode contribui muito com isso. A Associação AgroecológicaTijupá é uma ONG que trabalha com agricultores familiares da região do Baixo Munim.O seu trabalho é direcionado para valorização da agroecologia. Tanto o Fórum Carajás como a Tijupá vêem o seguinte do que adianta a comunidade plantar vários hectares para vender na sede do município ou para um atravessador se eles não se  alimentam bem.Então, primeiro a comunidade planta para si.

Enquanto as experiências de apoio aos comunidades de produtores extrativistas do Bacuri, de que forma pode isso ser uma estratégia contra as grandes empresas de celulose/ eucalipto?

Se do ponto de vista étnico o Maranhão é um grande quilombo, do ponto de vista ambiental o Maranhão é um grande bacurizal. O bacuri pode ser encontrado em quase todo o Maranhão e serve para muita coisa desde a alimentação, cosméticos, remédios e para a proteção dos solos e dos recursos hidricos. Essas qualidades servem de contraponto a monoculturização do eucalipto e da soja. Talvez de todas as frutas nativas o bacuri tenha o maior potencial de comercialização. Nesse momento se vende o quilo da polpa a quinze reais. O problema é guardar a polpa o ano todo. As comunidades precisariam comprar freezers e a energia elétrica deveria ser fornecida a contento. Não há um preço mínimo como o babaçu e o açaí. Diferente destes dois o mercado externo ainda não descobriu o bacuri o que obrigaria o governo federal a ditar regras de comercialização.

Que medidas/ recursos juridicas estao abertos contra as grandes empresas, quais as experiencias do Forum no trabalho com as comunidades até agora?

No caso do Fórum Carajás trabalhamos bem pouco com recursos judiciais, mas a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos vem acompanhando as ações de titulação de terra junto ao Incra e o Iterma, ações civis públicas movidas pelo minstério público. O Minsitério Público Federal iniciou uma ação civil pública contra o licenciamento da Suzano no baixo Parnaiba. O Fórum Maranhense de Segurança Alimentar entrou com uma ação contra o licenciamento da Suzano na região de Imperatriz. A Tijupá atua pouco nessa área.

Por: Tina Kleiber
www.aswnet.de

Colaboração do Fórum Carajás para o EcoDebate, 21/01/2011

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