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O caminho do agrotóxico para engordar as empresas

O Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário é a soma de todas as mercadorias agrícolas vendidas. Os dados disponíveis são estimativos, mas pode-se dizer que o PIB agropecuário de 2009 esteja em torno de R$ 163 bilhões, cerca de 15% do PIB total do Brasil.

Desses, calcula-se que cerca de R$ 120 bi sejam do agronegócio, e R$ 60 da agricultura familiar, não entrando no cálculo os produtos de auto-consumo. Por Joana Tavares, da Página do MST.

Para entender o que significa esses R$ 163 bilhões, é necessário conhecer o modelo que sustenta a produção. Mais da metade do valor gerado – cerca de R$ 90 bi – é o volume de crédito oficial destinado para as fazendas do agronegócio.

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Quase dez vezes mais a quantia do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.(Pronaf) destinada à agricultura familiar.

A professora Rosemeire Aparecida de Almeida, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, comparou os índices de financiamento público no MS e comprovou que as pequenas unidades de produção, com menos de 50 hectares, multiplicaram por 20 o valor do financiamento. Já a grande propriedade dividiu por dois o valor do financiamento. E são essas grandes propriedades que concentram a maioria do maquinário agrícola, o que deveria aumentar a produtividade.

“Moderna” agricultura

O Censo Agropecuário de 2006 demonstra que os tratores estão concentrados nas propriedades acima de 500 hectares, que possuem 73% do total das máquinas. “Isso demonstra que a modernização da agricultura serve somente a uma pequena parcela do campo. A sua disseminação foi desigual, o que lhe rende o rótulo de ‘modernização conservadora’. Como podemos observar pelos dados do IBGE, o pacote tecnológico – mecanização, insumos e conhecimento técnico – não abrange homogeneamente toda a atividade agropecuária”, aponta Tiago Flores, estudante do mestrado de geografia humana da USP.

Para seguir o modelo da “moderna agricultura”, grande parte dos R$ 90 bi de crédito vai para o pacote máquinas-fertilizantes-venenos. E quem controla esse comércio?

São 50 grandes empresas transnacionais que controlam esse mercado, apresentarando juntas lucros acima do total do PIB agrícola.

Segundo o anuário do agronegócio, referente a 2010, os ativos das 50 empresas ficou em R$ 189 bilhões. As dez maiores controlam 51% do já oligopolizado mercado.

Deste valor, parte considerável vai para o mercado de agrotóxicos. As vendas mundiais de venenos chegaram a US$ 48 bilhões. No Brasil, o mercado cresceu 172% entre 2000 e 2009.

Venenos

Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Agrícola (Sindag), somente no ano passado o mercado movimentou US$ 6,6 bilhões no país. E a expectativa é que cresça 10% na análise de 2010.

“Somando as receitas das principais empresas estrangeiras produtoras de agrotóxicos no Brasil, segundo o balanço de 2009, temos um total de R$ 14 bilhões. Este dado é muito significativo, já que revela que, do PIB agrícola como um todo, o setor de agrotóxicos abocanhou, sozinho, cerca de 10%, isso lembrando que não estão computados os dados da Monsanto. Isto significa que estamos, literalmente, comendo veneno, monopolizado pelo capital estrangeiro”, explica Larissa Mies Bombardi, professora do Departamento de Geografia USP.

Segundo João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST e da Via Campesina, o modelo do agronegócio leva ao consumo de venenos em larga escala. “Sempre que aumentar a área de um produto em monocultivo, mais máquinas e venenos serão necessários. Gera-se um desequilíbrio ambiental, então é preciso aumentar o uso de herbicidas (para matar as ervas), fungicidas e inseticidas para matar insetos e ainda secantes e desfolhantes na hora da colheita”, aponta.

Paulo Alentejano, Andre Campos Burigo e Alexandre Pessoa Dias, professores-pesquisadores da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) acompanham a questão dos agrotóxicos e afirmam que o controle das grandes corporações sobre a agricultura no Brasil gera concentração de renda e empobrecimento dos agricultores.

“As empresas estrangeiras, produtoras de agrotóxicos, controlam cerca de 92% da receita no setor. Considerando que nestes dados não estão incluídas as informações da receita da Monsanto – fabricante do glifosato “round up”, herbicida vendido em larga escala no Brasil e popularmente conhecido como “mata-mato” – este número é, sem dúvida, maior. Isto significa que o setor de agrotóxicos é absolutamente monopolizado pelo capital estrangeiro, particularmente estadunidense, seguido pelo suíço e pelo alemão”, aponta Larissa.

O crescimento nos últimos anos das culturas de milho, soja, cana e algodão, de acordo com os pesquisadores da Fiocruz, geram um aumento do consumo de agrotóxicos. No caso da cana, foram 6,13 litros por hectare em 2008, e 6,7 litros no milho, em 2008. Na soja, chegou a 15,14 litros e no algodão a 39,7.

Doenças

O aumento do uso de venenos agrícolas tem efeitos graves no ambiente e, inclusive, na saúde pública. Os agrotóxicos podem provocar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica.

Na aguda, os sintomas surgem rapidamente. Na intoxicação subaguda, os sintomas aparecem aos poucos: dor de cabeça, dor de estômago e sonolência. Já a intoxicação crônica pode surgir meses ou anos após a exposição e pode levar a paralisias e doenças, como o câncer.

Um estudo publicado em abril no “Americal Journal of Epidemiology” demonstra que a exposição a pesticidas e herbicidas aumenta em até 75% o risco de desenvolver a Doença de Parkinsosn. A pesquisa foi realizada na região agrícola do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, e mostra ainda que crianças expostas a esses produtos têm mais chance de desenvolver câncer, tumores e até leucemia.

Mesmo com todos esses indícios de que o veneno faz mal à saúde, o governo autorizou em novembro elevar em dez vezes o limite máximo de resíduo (LMR) no cultivo do milho.

Segundo matéria do jornal Valor Econômico, o índice de Ingestão Diária Aceitável (IDA), que é uma referência máxima que uma pessoa pode consumir, aumentou para 10 miligramas por quilo. O milho conterá mais resíduos à base do princípio do glifosato. Com a alteração, o agrotóxico passa a ser aplicado após o nascimento da planta.

“Isso significa que o governo está cedendo aos interesses das grandes empresas interessadas em vender esse tipo de produto”, apontam os pesquisadores da Fiocruz.

EcoDebate, 09/12/2010

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