O meu nome não tem a minha cara. O seu tem? artigo de Lélia Barbosa de Sousa Sá

[EcoDebate] Existem pessoas que tem a cara de José ou de Zé; outras de Manoel; muitas tem a cara de Maria de Nazaré, da Silva, de Fátima, da Conceição ou simplesmente Maria. Acredito que ninguém quer ter a cara de Maria “das Dores” ou Maria do “Socorro”.

O Brasil inteiro conheceu um deputado que ganhou as eleições porque mostrava a cara e dizia “meu nome é Enéas”. A imagem (cara) e o nome eram tão fortes que bastou dizer “Meu nome é Enéas” para alavancar 1.500.000 votos do eleitorado paulista. Nas eleições de 2010 percebi que alguns candidatos tentaram adaptar as suas fisionomias ás do Enéas, deixando a barba crescer e impostando a voz de forma parecida. Não sei se conseguiram votos usando a “cara’ de outro.

Durante as eleições, por exemplo, é muito comum, a área de marketing pesquisar o nome político mais adequado para colocar no material de campanha. Esse nome, com certeza, deverá ser marcante e ter a cara do candidato. Só assim ficará gravado na mente do eleitor.

Esse assunto parece brincadeira, mas é muito sério. Tão sério que, muitas vezes, tem gerado conflitos de identidade. Já imaginou alguém que foi registrado com o nome de Lucia e ser chamada de Raquel? E um “Antonio” ser conhecido por Fernando? Isso é muito comum no Brasil e dá uma tese de mestrado.

Se chegarmos ao Senado Federal e procurarmos pelo senador José de Ribamar, ninguém vai identificar, mas se dissermos que queremos falar com o José Sarney, todos saberão. Eu não estou me referindo a apelidos. Estou falando de pessoas que possuem um nome próprio na certidão de nascimento e serem chamadas por outro.

Se convidarem para um show da dupla Mirosmar e Welson David, ninguém vai, porém se disserem que se trata de Zezé de Camargo e Luciano, os ingressos vão esgotar rápido. O Señor Abranavel, alguém conhece? O Silvio Santos, porém todos sabem quem é. A Glória Menezes tem cara de Nilcedes Soares Magalhães? E a Fernanda Montenegro, tem alguma coisa a ver com a Arlete Pinheiro? Não, mas são as próprias.

Eu acho que o nome deve ter “a cara” da pessoa, mas nem sempre a “cara” tem o nome adequado. Ás vezes fico em dúvida se é a pessoa que tem duas caras? Eis a questão.

Eu tenho um amigo que se chama Luiz Carlos, nome esse chamado apenas pelos seus pais. Os amigos e o resto da família o chamam de Caio. Seus colegas de profissão e pacientes o conhecem por Luiz ou Dr. Luiz, respectivamente, porém ele está em busca de saber, qual deles tem mais a sua cara. Este caso é interessante, pois dependendo do ambiente em que ele se encontrar, todos os nomes tem a “sua cara”. Estou, também, na expectativa porque, afinal de contas, ele só tem uma cara, porém se sobrar nomes vou sugerir que ele dê “aos bois”. O que acham?

Uma pessoa ter o seu nome próprio e ser conhecida por outro “normal”, pode trazer apenas conflitos de identidade, porém existe uma categoria de nomes, dito exóticos ou “esquisitos”, para não dizer inadequados, devidamente inspirados pelos pais, que contribuem para situações de constrangimento e chacotas aos filhos. Como exemplo, relacionamos alguns, dentre 250 nomes registrados em cartório e selecionados pela justiça brasileira:

Adolpho Hitler de Oliveira, Amazonas Rio do Brasil Pimpão, Antonio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado, Antônio Morrendo das Dores, Antonio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete, Bemvindo o Dia do Meu Nascimento, Bizarro Assada Brasil, Primeiro Centenário da Independência Capote Valente e Marimbondo da Trindade, Chevrolet da Silva Ford, Comigo é Nove na Garrucha Trouxada, Éter Sulfúrico Amazonino Rios, Faraó do Egito Sousa, Flávio Cavalcante Rei da Televisão, Himineu Casamenticio das Dores Conjugais, Homem Bom da Cunha Souto Maior, Inocêncio Coitadinho Sossegado de Oliveira, Janeiro Fevereiro da Silva Março, João Sem Sobrenome, José Casou de Calças Curtas, Lança Perfume Rodometálico de Andrade, Maicon Jakisson de Oliveira, Naída Navinda Navolta Pereira, Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel, Tospericagerja (Homenagem à seleção do Tri: Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho), Última Delícia do Casal Carvalho, Vicente Mais ou Menos de Souza, etc.

Como podemos observar, existem vários tipos de nomes; os normais e os exóticos ou esquisitos; os que não têm a “cara” da pessoa e aqueles que “caíram que nem uma luva”.

Existe uma historia interessante de um mecânico chamado Dagmar, que conseguiu trocar o seu nome para Dalton. Á época, ele relatou que antes de trocar de nome, a sua namorada não queria casar, para que não constasse da certidão de casamento dois nomes femininos. Além disso, tento imaginar as piadas na oficina mecânica por causa do “Dagmar”. Já Imaginaram a frustração de um cliente, querendo ser atendido “pela Dagmar”, e ao chegar à oficina se deparar com um homem?

Eu, por exemplo, me chamo Lélia, mas tenho cara de Lia.

Desde criança que sou chamada de Lia pelos meus pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos, cunhadas, etc. Sempre fui apresentada como Lia, sendo que a Lélia ficou escondida por toda uma vida. A Lélia sempre existiu nas listas de chamada dos colégios, que eu nunca respondia; nos documentos de identidade, embora em alguns casos, eu tivesse que recorrer à fotografia para comprovar que a Lélia era a Lia. O nome grafado no convite do meu casamento foi Lia, caso contrário ninguém iria. A maioria dos convidados ficou sabendo do meu verdadeiro nome, somente no momento da cerimônia.

Certa vez um amigo me presenteou com uma muda da orquídea denominada “Laélia Purpurata”, a rainha das orquídeas, como forma d‘eu gostar do meu nome. Ele passou, então, a me chamar de Lélia, porém como a estratégia não deu certo, voltou a me tratar por Lia.

É muito importante esclarecer que eu acho Lélia, nome de origem grega e que significa “a que muito fala”, um nome bonito, diferente, porém ele não tem a minha “cara”. Já me disseram, inclusive, que é um nome “elegante”. Mesmo assim, acho muito estranho ser chamada de Lélia. Eu fiz terapia a respeito e a minha terapeuta, quando descobriu a confusão de nomes, passou a me chamar de Lélia. Cada vez que eu entrava no consultório, me sentia outra pessoa. Interrompi a terapia, pois constatei que a questão não iria ser resolvida.

Durante todos esses anos, aconteceram muitas cenas bizarras por causa do(s) meu(s) nome(s). Passei por alguns constrangimentos e, por incrível que pareça, às vezes, quando eu ouço chamarem por Lélia, verifico primeiro se estão se referindo a mim ou à outra pessoa, de tão incomum que é a situação.

Em ocasiões formais, quando sou apresentada como Lélia, as pessoas ficam em dúvida quanto ao meu verdadeiro nome, pois dentre 10 pessoas que me cumprimentam, 9 me chamam de Lia. Passados alguns minutos todos estarão me chamando assim. Às vezes tenho a impressão de que a Lia e a Lélia são duas pessoas distintas, com nomes diferentes, querendo e tentando utilizar a mesma cara. Entenderam? Eu disse no inicio, que o assunto daria uma tese de mestrado, lembram?

Quando eu resolvi escrever para o EcoDebate optei por assinar Lélia, como um teste para ver se algum conhecido identificava o “nome” com a “pessoa” ou com a “cara”. Apenas um amigo de Pernambuco me reconheceu como sendo a autora. Ao mesmo tempo em que confirmei o que eu já sabia, fiquei feliz de saber que as crônicas foram elogiadas, sem saberem que se tratava da Lia. Eu diria até que a Lélia está surpreendendo como escritora.

Hoje, a justiça brasileira já aceita a troca de nomes, além daqueles que ridicularizam as pessoas. Em função disso, pretendo trocar o meu nome. Para tanto, estou preparando um dossiê, com documentos, fotos, revistas, jornais, etc, para provar que até no exterior, sou conhecida como Lia. Com isso eu espero que, ao encaminhar uma correspondência com a minha assinatura, eu não tenha que esclarecer que a Lia e a Lélia são a mesma pessoa. Fiz isso várias vezes.

Resolvi falar sobre o assunto, porque de tanto pesquisar a respeito, descobri que o meu caso não era uma exceção à regra, mas a própria regra, ou seja, existem inúmeros outros casos no Brasil e, ainda, que as pessoas envolvidas não sabem, inclusive, da existência de lei que permite a troca do nome ou do prenome, por outro mais adequado.

O nome de uma pessoa constitui “a designação pela qual se identificam e se distinguem as pessoas naturais, nas relações concernentes ao aspecto civil da sua vida jurídica” (LIMONGI FRANÇA, in “Do nome civil das pessoas naturais”, pág. 22).

Espero que este artigo sirva de incentivo aqueles que não aceitam o seu nome e que não tem coragem para trocá-lo ou não tem conhecimento da legislação vigente ¹ e jurisprudência ² sobre o assunto e, principalmente, aos pais que tentam inovar e dão aos seus filhos nomes que, muitas vezes, servem de chacota na infância e geram traumas que comprometem a sua vida adulta.

Em síntese: Como o nosso nome é a nossa identidade, ele deve ter sempre a nossa “cara’ e a nossa cara deve ter um nome que “caia como luva”. Assim, seremos felizes para sempre.

Assinado por Engenheira Civil Lélia Sá ou simplesmente Lia Sá.

¹ Lei 6.015/1973
² “A Lei dos Registros Públicos faculta a alteração do nome, sem necessidade de maiores fundamentações, desde que postulada no prazo de um ano após o interessado alcançar a maioridade (art. 56 da Lei 6.015/73). Todavia, ultrapassado este prazo, o art. 57 dispõe que qualquer alteração posterior do nome somente ocorrerá em situações excepcionais e devidamente motivadas.” (Apelação Cível Nº 7003368100, Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS, Comarca de Erechim,Relator: Des. Claudir Fidélis Faccenda)
 
Lélia Barbosa de Sousa Sá, paraense, engenheira civil e ex-presidente do CREA-DF.

EcoDebate, 30/11/2010


Compartilhar

[ O conteúdo do EcoDebate é “Copyleft”, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta clicar no LINK e preencher o formulário de inscrição. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

4 comentários em “O meu nome não tem a minha cara. O seu tem? artigo de Lélia Barbosa de Sousa Sá

  1. Tem essa..
    Um famoso ator nasceu, em Madri, veio para o Brasil e aqui se fez famoso duarante mais de 60 anos.
    Seu nome de batismo? OSCAR LORENZOJACINTO de LA IMACULADA DE CONCEPCIÓN TERESA DIAS…faleceu em 70
    Você sabe quem é ele??
    Um a dica: ele foi muito amigo de Grande Otelo.
    Abraço

  2. Acho que isto não é motivo de preocupação. Que diferença faz como te chamam, se vc sabe quem é, e que está em constante transformação, como qquer ser humano?
    Abraços tranquilizadores.
    Damarci.

  3. Olá, Lia!

    Concordo plenamente com você, quando diz “Eu acho que o nome deve ter ‘a cara’ da pessoa, mas nem sempre a ‘cara’ tem o nome adequado”. O problema é acertar ou ajustar o nome à cara, principalmente quando a criança nasce. Todo mundo diz “Ah! que bonitinho, lindinho e tudo o mais, para agradar ou ser gentil com os pais, até dizendo que o bebe se parece mais com um ou com outro. Na verdade, não se parece com nada. Todo recém-nascido tem cara de bunda (desculpe o termo chulo usado). Eis a questão. Que nome combinaria coma cara da criança, do bebe ou do recém-nascido? Só dá para sabermos depois, quando já tiver começado a tomar forma de gente. Além do que, as pessoas passam por diferentes fases na vida e trocam de cara, deixando o cabelo ou a barba crescer, no caso do homem, por exemplo; já no caso da mulher, se engorda, logo faz regime para emagrecer e, às vezes, acaba emagrecendo demais da conta que até mudada de cara. Que nome daríamos para ela, depois dessa metamorfose ambulante? É complicado ficar mudando de nome a toda hora, se ou quando muda de cara. Fico imaginando se um caminhão-jamanta, digamos assim, passa por cima da cara de uma pessoa e a transforma, num segundo, em outro ser vivente, que a essa altura parecerá mais um ou uma ET que um cidadão brasileiro. Novamente, eis a questão! Como o ou a chamaríamos então? Lookson? Mok? Djeefdef? Luka?… e por aí vai. Outra coisa, por exemplo, você mesma suprime, deliberadamente, os seus próprios nomes do meio “Barbosa de Sousa”, quando assina como Lélia Sá ou Lia Sá. Você se dá o direito de suprimi-los. Eu, por exemplo, permito-me tirar o nome do meio também, assinando somente Clóvis Gualberto. E o José, meu nome do meio, onde ficou? Se ilá, desapareceu… rs. Entendeu? Nós mudamos a nosso bel-prazer porque nos simpatizamos mais com esse ou aquele nome. Ou, talvez, porque nos identificamos mais com um que com outro. Nesse momento, deve ocorrer um tipo de simbiose, eu creio, entre a identidade psicológica e a fisiológica ou física. Elas se ajustam e se identificam mutuamente, gerando o novo ser. Isso pode ocorrer tanto materialmente quanto imaterialmente. Não sei se você está podendo me entender quanto ao que digo agora… Mas acho que sim. Você é inteligente! As pessoas estão transformando-se constantemente. Costumo dizer que a única coisa permanente me mim é a mudança constante. Chega a ser paradoxal, mas é verdadeiro. Quanto ao aspecto legal, na minha opinião, todos deveriam poder trocar ou mudar o nome sim, não a bel-prazer, mas quando a ocasião o justificasse. Por exemplo, quando a mulher se casa, ela pode acrescentar o sobrenome do marido, e vice-versa. Outro aspecto, é o chamado nome de guerra. Quase todo mundo tem um. Eu nunca tive. Lula, por exemplo, é outro exemplo clássico disso. O nome Lula pegou. É forte. Ele era semianalfabeto, digamos assim. Mas o encontro da força do nome certo com a pessoa errada resultou mais positivo que o contrário. Deu certo! Verdade é isso. Verdade é o que dá certo. Existem verdades eternas e verdades que se transformam ou se modificam ao longo do tempo. Quase toda verdade é relativa. Ela é filha do tempo e do lugar. E qual é a verdade? O que é verdade? Verdade cada um tem a sua. Como diz o Arnaldo Jabor: “A verdade está na cara, mas não se impõe”. Além do mais, cada indivíduo vê ou percebe as coisas, ao seu redor, pelo seu prisma psicológico particular. A verdade de cada um é diferente. Por isso, há conflitos. Por essa razão, desentendemo-nos uns com os outros. Em contrapartida, o judiciário acumula pilhas e pilhas de processos cujas causa levam 10, 20, 30 anos ou mais discutindo-se quem está certo. Nem sempre quem tem razão é o que leva o direito, gerando assim outro processo. É como uma rosca sem-fim. Compreenda que as pessoas que pensam diferente estão sinceramente convencidas de que o errado é você. Ou vice-versa. Durma com esse barulho!!! Costumo dizer, também, que os outros nos matam um pouco por dia. É um crime não visto a olho nu, mas é cometido por todos. É o anti-humanismo no humanismo. Todavia, isso é assunto para outra tese de doutorado. Enfim, viver não é fácil!

    Um forte abraço,
    Clóvis Gualberto

Comentários encerrados.

Top