Consumo é o oxigênio do capitalismo, artigo de Maurício Gomide Martins

[EcoDebate] A partir do século XVIII, as guerras, quando não motivadas por interesses econômicos, foram ‘salutares’ para esses mesmos objetivos, representados pelos oportunistas encastelados nos países com vocação imperialista. O esqueleto econômico do sistema capitalista foi se fortalecendo, chegando ao estágio de patrocinar e escolher os governantes de uma nação.

Os acontecimentos de 2008, classificados de graves, deram ao tesouro de cada país o recado: “me salve ou arrasto todos para o buraco”. E o conjunto governamental de um país se viu na situação de atender a essa ameaça, por não ter outro caminho a seguir. Afinal, a construção política de um país é desenhada segundo os interesses econômicos das grandes empresas que têm o verdadeiro poder de mando.

Com isso, o dinheiro entesourado provindo dos tributos pagos pela sociedade consumidora é desviado para acudir as corporações econômicas, principalmente os Bancos que são os condutores e intermediários dos valores virtuais atribuídos a um pedaço de papel chamada dinheiro e que tem o atributo de se reproduzir pelo artifício dos juros.

O mundo financeiro, sustentáculo da economia de mercado – cujo objetivo é o lucro –, se preocupa apenas com o futuro de curto prazo. Os gestores desse universo há muito tempo se acostumaram a viver com os olhos e pensamento no porvir, sempre com a visão no fator segurança. O presente lhes está assegurado pelos executivos máximos, os governantes dos diversos setores geográficos a que se dá o nome de país. Este pode mudar de chefe, mas seu status econômico permanece inalterado face à constante vigilância dos mecanismos de controle político.

Todos os grandes movimentos e transações, por se fundamentarem no futuro, não se utilizam dos meios de pagamento, que são as moedas correntes. Para isso, lançam mão de um artifício urdido para sustentar a corrente financeira. Trata-se do crédito, um saque sobre o futuro. O que é crédito? Simplesmente, confiança. E construíram um mundo imerso na cultura econômica, com apoio exclusivamente na confiança.

Se um cidadão vende um bem para ser pago com 30 dias, isso significa que o vendedor acredita que o comprador terá o dinheiro no prazo ajustado. Nesse caso, há o risco individual. Por isso, faz-se a análise prévia da “possibilidade de pagamento” do devedor no final dos 30 dias.

Uma empresa age da mesma forma em relação a outra que lhe pretende adquirir algo a prazo. Esse algo pode ser algum bem, direitos ou mesmo o próprio dinheiro. Todos têm em vista unicamente o resultado final, o lucro. De qualquer forma, esse crédito é representado por um título que muda de nome conforme os tipos do negócio. A rigor, esse título representa um dinheiro que não existe, mas é prometido para o futuro; um futuro incerto, do vamos ver, do faz-de-conta.

Agora, entram os Bancos. Eles captam dinheiro dos cidadãos e o emprestam com certa margem de ganho. Mas o melhor negócio é emprestar para o governo de um país. Por quê? Porque ele representa risco praticamente zero, teoricamente não quebra e o titular é manipulado pela classe empresarial. Esses papéis são rolados indefinidamente pelo governo, sempre acrescidos dos juros. A criação de tais créditos equivale à emissão de dinheiro sem a representatividade de bens. Esse é um modo de engaiolar a inflação.

Recentemente, houve a reunião do G-20 em Seul para encontrarem uma solução para o problema financeiro mundial. Nada foi resolvido porque o mundo é retalhado em países e não podem contrariar os interesses da malha econômica que se estende às empresas nacionais. Além disso, todos se preocupam em aplicar seus recursos – mesmo sem lucratividade – com segurança. Acontece que seguro – seguro mesmo – não existe. Nem em ouro, porque afinal ele não é comestível. Segundo nosso pensamento, a aplicação universal mais segura é a representada por gado no pasto. Em qualquer ocasião, essa aplicação é conversível em alimento.

No acordo de Bretton Woods, quando ficou estabelecida, por imposição dos EEUU, a paridade dólar-ouro, o mundo tornou-se refém dos interesses americanos. Em 1971, por não agüentarem o peso da responsabilidade, aquele país eximiu-se do compromisso, dando um calote enorme nos outros países. Estes não deram nem um pio de protesto, pois quem iria contestar o rugido do “leão”, fortalecido com a posse de quase todo o ouro mundial e 737 bases militares no planeta?

Contudo, as moedas nacionais continuaram atreladas ao dólar por causa da posse americana do ouro e economia forte, e os demais países não tinham um referencial melhor. Agora, com a crise financeira, provocada pela abusiva existência fictícia de ativos, o dólar está cada vez mais desvalorizado, levando de roldão as demais moedas. Para se defenderem, os Bancos Centrais das outras nações compram o dólar, o que alimenta o fantasma da deflação. Num período de deflação japonesa, que durou uma década, o governo desse país chegou a distribuir dinheiro para seus habitantes com a finalidade de sustentar o consumo.

Foi nesse cenário que o governo americano emitiu de 600 bilhões de dólares por compra de títulos do governo e mais 300 bilhões com outras medidas manhosas, para forçar os Bancos e investidores a colocarem esses ativos na ciranda do consumo. Isso nos faz lembrar a fartura do marco alemão, nos anos 1920, e suas dolorosas conseqüências quando o governo o extinguiu.

Como já dito acima, o dólar é um simples vale. Ele tem o valor da confiança que se vota no emitente; mas só até quando ele agüentar. Enquanto o povo está consumindo, está gerando o oxigênio dessa estrutura gigantesca toda. Atualmente, o mundo financeiro em geral está sentindo falta de ar. Precisa de mais e mais consumo. Coitado do planeta!

O consumo, que move todo o organismo econômico, acarreta lixo que ocasiona poluição que destrói o meio ambiente e leva a humanidade a lento processo de suicídio.

Maurício Gomide Martins, 82 anos, ambientalista e articulista do EcoDebate, residente em Belo Horizonte(MG), depois de aposentado como auditor do Banco do Brasil, já escreveu três livros. Um de crônicas chamado “Crônicas Ezkizitaz”, onde perfila questões diversas sob uma óptica filosófica. O outro, intitulado “Nas Pegadas da Vida”, é um ensaio que constrói uma conjectura sobre a identidade da Vida. E o último, chamado “Agora ou Nunca Mais”, sob o gênero “romance de tese”, onde aborda a questão ambiental sob uma visão extremamente real e indica o único caminho a seguir para a salvação da humanidade.

EcoDebate, 25/11/2010


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