Um grande desafio: Conciliar o troca-troca das cadeiras com a capacidade técnica e a igualdade de gênero, artigo de Lélia Barbosa de Sousa Sá

[EcoDebate] De quatro em quatro anos é muito normal (anormal para alguns) e perceptível o frenesi ocasionado pela troca de governo no Brasil. No Distrito Federal as mudanças são maiores e mais intensas. Mudanças essas que mexem com a vida da população de Brasília. Afinal, ocorrem em três níveis, Governo Distrital, Governo Federal e Congresso Nacional.

São novas pessoas, com costumes diferentes e diversos, que chegam para fazer parte da nossa cidade e do nosso cotidiano. São pessoas que trazem com elas “a cara” do seu povo, cara essa que muitas vezes se confunde com “a cara’ do povo de Brasília.

Quando as pessoas chegam para trabalhar e prestar serviços à nação, o povo de Brasília vive em harmonia, mas quando as pessoas chegam trazendo as mazelas e os maus costumes do seu povo, Brasília é castigada e discriminada pelo povo “de fora”. Por isso, os brasileiros que nasceram ou adotaram Brasília, como a “terra prometida”, estão ansiosos pela chegada do ano novo e do novo governo e, esperam que tragam paz e esperança para transformar o Brasil num país melhor e mais justo. Num país, onde todos os brasileiros sintam orgulho de serem brasileiros e de terem Brasília como a capital da Republica.

Existe um misto de ansiedade x medo de quem participa do governo e ansiedade x euforia de quem está pleiteando uma vaga pra fazer parte do próximo.

Para quem está participando, o medo de ser exonerado, do amanhã incerto, da renda garantida que está por findar, da falta de emprego, de perder o status alcançado com esse emprego, misturam-se com o arrumar de gavetas, de armários, de processos, alguns paralisados por motivos diversos. Enfim, ao aproximar-se o final do governo, torna-se constante as diversas ações e medidas necessárias para uma boa transição, como deixar a casa arrumada, ou, em alguns casos, “desarrumada”, quando “quem sai” não tem espírito democrático para encarar a derrota.

Para quem está chegando, a euforia de um novo começo, ou de um recomeço, impõe uma grande ansiedade e estresse, por não saber se será convidado para fazer parte da equipe; se de fato é considerado um aliado e, portanto, merecedor de um cargo equivalente às suas aspirações. Para quem está chegando, além da ansiedade e euforia, é muito comum, também, exibir certo ar de soberba por “chegar” ao poder, mesmo na condição de simples assessor.

O ano de 2010 está chegando ao fim, porém com muitas ações, ainda, por fazer e que não saíram do papel. O ano que se aproxima está cheio de expectativas. Teremos, pela primeira vez, uma mulher comandando o Brasil, escolhida que foi por 56,05% dos brasileiros.

No seu discurso de campanha dois tópicos me chamaram a atenção:

O primeiro foi sobre a condição da mulher no poder.

A presidente eleita falou que “…meu primeiro compromisso após eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade”.
Quanto a esse fato, é importante ressaltar que, nós mulheres não queremos ocupar um cargo apenas por sermos mulher, mas queremos a garantia de poder exercer todos os nossos direitos e chegar ao poder pela nossa competência, conhecimento, atitudes, sabedoria e reconhecimento como pessoas e cidadãs. Entre um homem e uma mulher, que seja escolhido para ocupar a cadeira, aquele que estiver em melhor condição sob todos os pontos de vista. Afinal de contas, as mulheres “podem, sim!”, basta terem chance, apoio e o reconhecimento dos homens e das próprias mulheres.

O segundo refere-se à construção de “um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.”

Com relação a governar com base em critérios técnicos (capacidade profissional) e valorizando os quadros profissionais da administração pública, eu diria que é necessário um pouco mais. É necessário observar o regimento interno dos órgãos e verificar quais os profissionais que tem atribuições, segundo seus conselhos de classe, e encontram-se qualificados para ocupar determinados cargos.

Eu diria à nossa presidente eleita que não basta escolher servidores com perfil técnico, senão levarmos em consideração a sua graduação na área. Como exemplos citamos:

Não é de bom alvitre colocar um médico para presidir a Petrobras, um contador ou Administrador para dirigir o DNIT. Como, também, a ANVISA não deve ser dirigida por um advogado, o IPHAN ser conduzido por um pedagogo, muito menos a Procuradoria Geral da União ser chefiada por um dentista. A INFRAERO, por exemplo, deveria ser dirigida por um engenheiro. As Diretorias da Petrobrás, por profissionais da área tecnológica. Algumas secretarias nacionais dos ministérios, também, deveriam se ocupadas por técnicos atuantes nas respectivas áreas. Enfim, acredito que ninguém melhor do que um “médico qualificado” para gerenciar e melhorar a saúde no Brasil.

Posso afirmar que, se “cargos específicos” forem ocupados por pessoas qualificadas e com atribuições para tal, teremos, por exemplo, menos obras paralisadas ou mal executadas, melhor gestão da administração pública e, conseqüentemente, melhor controle dos gastos públicos.

Muitas vezes, o “frenesi’ da mudança de um governo, advém, principalmente, pelo fato de cargos técnicos serem ocupados por “indicados” políticos sem nenhum preparo e cujos assessores são os responsáveis, muitas vezes, por decisões que caberiam ás autoridades constituídas, gerando atos inócuos e até elefantes brancos, além de frustração a quem se dedica, há anos, pelo desenvolvimento da nação e, num piscar de olhos vê projetos, que poderiam melhorar a qualidade de vida da população, serem transformados em cinzas. Geralmente os profissionais de carreira, são os que mais sofrem com as mudanças radicais ou fora de propósito. Portanto, a nossa presidente eleita terá um grande desafio pela frente, pois o nosso país precisa se desenvolver e não apenas crescer.

A engenharia se faz presente em todas as ações que visam o desenvolvimento tecnológico, inclusive na área médica. No entanto, existe uma grande falta de engenheiros em nosso país. Uma das causas foi o êxodo para outras profissões, como a tecnologia da informação, em virtude da má remuneração desses profissionais ou pela desmotivação em ver pessoas, sem o conhecimento específico, executarem atividades restrita à área da engenharia, tão comum em órgãos federais e estaduais. Por isso, nós engenheiros achamos salutar e até compreensível a troca de cadeiras em qualquer nível do governo, porém não podemos compreender, como o Brasil quer “seguir mudando” sem que os setores da engenharia brasileira sejam comandados por engenheiros ou engenheiras, que são os profissionais capacitados e qualificados para tal.

Além disso, nós mulheres, não queremos ficar frustradas se as alianças e os acordos políticos, para permitir a governabilidade, não levarem em consideração à equidade de gênero, tão propalada pelo Presidente Lula, pois assim, estarão na contramão dos compromissos firmados junto à ONU, de promover “a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres”.

Designar as pessoas certas para os lugares certos é a forma mais inteligente e eficaz para o governante alcançar os seus objetivos, cumprir as promessas de campanha, obter os ganhos políticos e o apoio dos diversos profissionais, que passaram anos nos bancos escolares para obter um diploma e lutar para que o Brasil venha se transformar num país de primeiro mundo, capaz de exportar não apenas mulatas, carnaval e futebol, mas os diversos tipos de tecnologia, além de demonstrar para as nações mais desenvolvidas, que já está colocando em prática as “oito formas de mudar o mundo” e, desse modo, alcançar as metas do milênio, previstas de serem concluídas até 2015.

Brasília, no dia 01 de janeiro de 2011, vai vestir a sua roupa mais nova, tomar uma injeção de esperança, para dar as boas vindas aos novos mandatários e ao povo que vai se hospedar no planalto central até 2014 e que esperamos adotem o nosso jeito brasileiro de viver. Que todos sejam bem vindos e que sejam portadores, também, de boas novas.

Lélia Barbosa de Sousa Sá, paraense, engenheira civil e ex-presidente do CREA-DF.

EcoDebate, 15/11/2010


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