Vilarejo morre após a ‘maré’ de lama vermelha na Hungria

Vazamento inundou casas com lama tóxica e revirou carros. Foto de: Sandor H. Szabo/Associated Press/Folha.com
Vazamento inundou casas com lama tóxica e revirou carros. Foto de: Sandor H. Szabo/Associated Press/Folha.com

A lama vermelha recobre, a perder de vista, os campos, os jardins, os rios. Um odor acre pinica a garganta, o ar irrita os olhos. Quatro dias após o rompimento de um reservatório em uma usina de alumínio de Ajka, a 165 quilômetros de Budapeste, que na segunda-feira (4) despejou mais de 1 milhão de metros cúbicos de resíduos extremamente tóxicos sobre sete municípios vizinhos, centenas de militares, agentes da defesa civil e voluntários ainda tentavam tirar o vilarejo de Kolontar de sua ganga envenenada.

Interditada ao público, sobrevoada por helicópteros militares, percorrida por especialistas de macacão branco e máscara de proteção, a zona parece uma imensa cena de crime. Aqui ocorreu a pior catástrofe ecológica jamais vista na Hungria. “Não se pode fazer mais nada, o ecossistema está totalmente destruído, todos os animais morreram ou morrerão em breve. Agora, só nos resta salvar o Danúbio”, suspira Gyorgyi Tottos, um porta-voz do serviço de desastres naturais. Reportagem de Grégoire Allix, Le Monde.

Mesmo em Kolontar, epicentro do cataclismo, o Danúbio, situado 120 quilômetros mais ao norte, está no pensamento de todos. Os primeiros peixes mortos foram observados no braço principal do rio, na quinta-feira. As autoridades quiseram se mostrar tranquilizadoras: “Graças a nossos esforços extremos, o Danúbio está fora de perigo”, afirmou na quinta-feira, em Kolontar, o secretário de Estado para o Meio Ambiente, Zoltan Illés. Para impedir o fluxo tóxico, carregado de metais pesados e arsênico, de atingir o rio, as autoridades inundaram de produtos ácidos e de gesso os rios que levavam a ele, o Marcal e o Raba.

A taxa de alcalinidade na confluência do rio Raba com um braço secundário do Danúbio havia ultrapassado o nível 9 na quinta-feira, antes de baixar para 8 no curso principal – seu pH habitual. Em torno de Kolontar, no rio Torna e no rio Marcal, esse pH ultrapassou 13, matando toda forma de vida. Segundo o serviço hídrico, se essa taxa permanecer abaixo de 10, a catástrofe ambiental poupará o Danúbio. A poluição “provavelmente não terá efeito sobre o ecossistema do Danúbio a partir da cidade de Komarom”, a 80 quilômetros de Budapeste, garante Emil Janak, diretor do serviço regional das águas. “Os peixes pescados são comestíveis e as águas dos arredores são totalmente potáveis”. As organizações ambientalistas também esperam que a considerável vazão do Danúbio baste para diluir a poluição. “A catástrofe não irá se agravar. O principal desastre já aconteceu em Kolontar, uma região que se tornou inabitável”, acredita Robert Fidrich, dos Amigos da Terra.

Kolontar, inabitável? A maré vermelha devastou as ruas, arruinou as casas. Os muros, manchados de vermelho até dois metros de altura, mostram o poder da vaga. A vida não poderá renascer antes de três anos no rio e demorará muito até que algum legume cresça nas hortas. Daí o desânimo. “Eles nunca poderão limpar tudo isso, terão de demolir as casas”, suspira a secretária na minúscula prefeitura transformada em refeitório pelas equipes extenuadas.

Uma análise também adotada em instâncias superiores. “Infelizmente, tenho a impressão de que qualquer esforço de reconstrução aqui será inútil”, acredita o primeiro-ministro, Viktor Orban, em visita na manhã de quinta-feira ao bairro mais afetado. Para ele, “provavelmente será preciso demolir essa parte do vilarejo para sempre, pois é impossível viver aqui”. “Não sabemos nada de exato, os projetos mudam todos os dias”, relativiza Attila Bek, proprietário das escavadeiras que retiram os escombros do vilarejo desde segunda-feira. Pois enquanto esperam por uma decisão, é preciso eliminar a lama de nada menos que 800 hectares. Com uma janela de tempo limitada: “O solo deve ter secado um pouco para que as máquinas possam rodar, mas não demais, senão o vento espalhará poeira cancerígena por toda a região”, avisa o secretário de Estado para o Meio Ambiente. Faltará tirar o solo poluído em vários centímetros de espessura, colocar terra saudável, reconstruir, replantar… Um custo abismal, cuja maior parte acabará sendo paga pelo Estado. Proprietária da usina de alumínio, a empresa MAL estava segurada em somente… 10 milhões de forints (cerca de R$ 84.700). “É irrisório, os prejuízos irão custar bilhões”, acredita Illés.

Diante da fúria da população, a MAL, cujos proprietários fazem parte das maiores fortunas da Hungria, ofereceu na quinta-feira 110 mil forints (cerca de R$ 930) de indenização para cada família atingida. Moradores de Kolontar, com o apoio da prefeitura, já anunciaram sua decisão de processar a empresa.

A MAL, que nega qualquer responsabilidade sobre o acidente, é suspeita de ter depositado lama vermelha demais no reservatório, o que, combinado com fortes chuvas e uma má manutenção, teria rompido um dique. A Hungria anunciou uma inspeção rápida de todas as bacias de lama vermelha do país e um endurecimento das normas de segurança em breve.

Tradução: Lana Lim

Reportagem [En Hongrie, la mort d’un village après la marée rouge] de Le Monde, no UOL Notícias.

EcoDebate, 13/10/2010

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