Pesquisadora da UbB alerta para a degradação do Cerrado, que já chega a 50% da cobertura vegetal

Cerrado: a caixa d'água do Brasil
Infográfico AE, com informações da Embrapa

Na semana passada, o governo federal prometeu investir R$ 339,4 milhões no combate ao desmatamento do Cerrado. A medida faz parte do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento das Queimadas do Cerrado, estratégia para reduzir em 40% as emissões de CO2. O bioma, que em sua composição original cobria 24% do território nacional, já tem quase 50% da mata nativa degradada.

Segundo a professora Mercedes Bustamante, que estuda o tema no Laboratório de Ecologia que comanda na Universidade de Brasília (UNB), a degradação se intensificou na década de 1940, com o fluxo migratório para a região, e vem aumentando rapidamente. Com estatura baixa e fala calma, Mercedes é firme em suas opiniões.

Para ela, preservar o Cerrado é questão urgente e necessária para o Brasil. É ali que estão boa parte das áreas de pastagens e lavoura de grãos que abastecem o país. Sem os serviços ambientais que o bioma oferece, como manutenção do solo e regulação do ciclo hídrico, essas áreas, como a população que vive em torno delas, sofrerão as consequências. Entrevista realizada por Martha Neiva Moreira, O Globo/Razão Social.

[Leia a entrevista na íntegra]– Qual o peso da produção agrícola no processo de degradação do Cerrado?

O fato de o Cerrado ter sido convertido em agricultura não é o mais problemático, a questão maior é a intensidade com que o processo se dá. A degradação tem avançado rapidamente em direção a Tocantins, oeste da Bahia, sul do Maranhão e Piauí. E não há planejamento para utilização do solo. Quando digo planejamento me refiro a saber exatamente quanto e onde a mata nativa deve ser preservada. Isso é imprescindível para a manutenção dos serviços ambientais de um determinado bioma.

– Como é a ocupação das áreas degradadas do Cerrado?

Há pastagens para pecuária extensiva e lavouras para produção de grãos, especialmente soja e milho. Ali há grandes proprietários rurais. Alguns são grupos familiares, ligados a empresas e consórcios de comercialização de grãos.

– Quais as consequências para a população local da não preservação de um bioma como o Cerrado?

Conviver com eventos de extrema seca; intensidade de queimadas; poluição do ar, que pode gerar problemas de saúde, são alguns deles.

– Qual a extensão preservada do Cerrado?

O Cerrado tem dois milhões de quilômetros quadrados. Cerca de 50% estão preservados, se considerarmos apenas a extensão da cobertura vegetal. Há parques, há unidades de conservação. Mas a questão é que as áreas preservadas não são contínuas. Há fragmentos de mata nativa, o que é um problema pois dificulta o deslocamento de animais e a proliferação das espécies nativas.

– Por que há menos áreas de conservação no Cerrado do que na Amazônia?

Há uma dificuldade política de criar unidades de conservação no Cerrado. A maioria das terras ali, diferente da Amazônia, é privada. As terras estão nas mãos de produtores. É mais fácil criar unidades de conservação em terras públicas e, mesmo as terras do Cerrado que pertencem à União, fazem parte da fronteira agrícola, ou seja, da reserva de terra do governo federal para fins de agricultura. Se é preciso aumentar área de produção para biocombustível, é no Cerrado que pensam.

– A senhora acha que a iniciativa privada prefere estar mais presente na Amazônia do que no Cerrado?

A iniciativa privada está no Cerrado, só que de forma diferente que na Amazônia. As empresas são as mesmas, só que na Amazônia a visibilidade para elas é maior. Há interesses internacionais na região e por isso há pressões pela sustentabilidade do bioma. A verdade é que os dois biomas têm valores diferentes para o país. Só que a agenda ambiental não pode ser só para a floresta. A questão ambiental precisa ser para o Brasil.

– Que empresas estão presentes no Cerrado e de que forma atuam na região?

São pecuaristas e produtores de grãos. Alguns poucos preocupam-se com sustentabilidade, desenvolvem boas práticas e têm preocupações sociais. Mas há outros que seguem uma cartilha de produção de 30 anos atrás. A sociedade está incorporando novos conhecimentos, é preciso que eles incorporem também. Conservar o bioma é uma condição para quem produz ali.

– Qual a responsabilidade das empresas na preservação do Cerrado?

O setor privado tem responsabilidades como toda a sociedade em pensar estratégias de preservação. A opção deve ser não dissociar produção de preservação, até porque os serviços ambientais de manutenção do solo, regulação climática e fornecimento de água são fundamentais para as atividades desenvolvidas no bioma. É preciso investir na gestão dos territórios, ou seja, gerir os recursos naturais para prover necessidades do presente e do futuro. O que leva tempo, se considerarmos que estamos lidando com recursos finitos que exigem o tempo da natureza para serem recuperados. Só que os planos de gestão de recursos naturais parecem obedecer ao calendário eleitoral, costumam ser para quatro anos apenas.

– Que serviços ambientais o Cerrado oferece?

A manutenção do ciclo hidrológico é um importante serviço. Há três bacias hidrográficas na região e a vegetação nativa é responsável por controlar a quantidade de água que as abastece. Quando a mata natural, que tem raízes profundas, é substituída por pastagens, com raízes superficiais, há uma alteração no regime de escoamento da água. Quando essa alteração é em larga escala afeta o padrão de vazão dos rios. É o que já acontece no Rio Araguaia, que tem mais picos de vazão porque não tem mais atividade regulatória da vegetação natural. Além da regulação hídrica das bacias, o Cerrado captura CO2, tem uma diversidade de espécies que serve para produzir os mais diversos produtos, como antibióticos por exemplo. Há uma estimativa que há 12 mil espécies diferentes no bioma. Brinco dizendo que a queima de um hectare de Cerrado equivale a queimar uma biblioteca inteira de Alexandria. Imagina quantas já queimamos.

– Qual a eficiência das unidades de conservação no Brasil?

Precisamos de informações para saber. O Brasil precisa fazer um investimento sério de monitoramento ambiental em áreas demarcadas. Há uma demanda de dados para que gestores ambientais tomem decisões. Temos que saber, por exemplo, se as unidades estão cumprindo seu papel de conservar. O contexto de mudanças climáticas exige que saibamos dessas informações para repensar e prever uma série de situações. Uma delas é a redistribuição de espécies que são afetadas pelo clima.

– Em 2005, o governo federal criou a Comissão Nacional do Cerrado e a senhora faz parte dela. Quais as conquistas alcançadas?

Não houve conquistas. Houve uma primeira reunião em 2006. Em 2007 tivemos a última. Este período coincidiu com a reformulação do Ministério do Meio Ambiente e o grupo acabou se desarticulando. Acho que não foi dada a devida prioridade ao Cerrado na época.

– Como a senhora avalia a proposta do novo Código Florestal?

O diálogo foi precário e privilegiou setores do agronegócio. Hoje há duas vezes mais áreas de reserva legal e APPS em propriedades privadas. Este dado mostra o quanto é importante conservar esses fragmentos e dialogar com todos. As entidades científicas e a Academia gostariam de ter participado mais dos debates em torno da reformulação, mas até onde eu sei, embora as pesquisas estivessem disponíveis, os dados tiveram pouco peso no documento final e os pesquisadores foram pouco ouvidos.

– A senhora é uma das cientistas do Intergovernmental Panel on Climate Changes (IPCC). Qual o peso do Cerrado no próximo relatório e como o trabalho é feito?

O relatório do IPCC não traz informações novas, é uma compilação de conhecimentos já existentes. O peso que um bioma tem depende do que foi gerado de informações sobre ele. O processo começa com um cronograma de reuniões por grupos de trabalho. Nelas discutimos o que será feito. Os textos produzidos (capítulos) são escritos com base em uma série de estudos, selecionados a partir de critérios rígidos (informações científicas verificadas, ter sido publicado em língua inglesa, ter sido revisado por outros cientistas, entre outros). Os textos produzido são submetidos a editores científicos para serem revistos e por outros pesquisadores externos que fazem revisão. A versão final ainda é avaliada por um grupo de cientistas do IPCC.

– Desenvolvimento sustentável com nível de crescimento mundial é utopia?

É uma necessidade. Os recursos naturais são finitos. Trata-se de uma opção ética.

EcoDebate, 22/09/2010

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