O meio ambiente não pode esperar a inércia demográfica, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A “inércia demográfica” é um conceito utilizado pela demografia para explicar o fato da população continuar crescendo, mesmo depois que as pessoas e os casais passam a ter um número menor de filhos. A taxa de fecundidade mede o número médio de filhos por mulher e a quantia de 2,1 filhos por mulher é considerada taxa de reposição. Se a fecundidade ficar neste nível, no longo prazo, a população não cresce e nem diminui, ou seja, fica estável. Fecundidade acima de 2,1 filhos por mulher significa que a população vai crescer. Fecundidade abaixo de 2,1 filhos, no longo prazo, significa que a população vai diminuir.

O Brasil já possui taxa de fecundidade abaixo do nível de reposição, desde 2006. Porém a população vai continuar crescendo até o quinquenio 2035-2040 e começar a cair a partir de 2040, segundo as últimas projeções do IBGE. Assim, a população vai continuar crescendo porque o país tem uma estrutura etária jovem e, embora as mulheres já estejam tendo menos filhos do que o necessário para a reposição, existem muitas mulheres em período reprodutivo e um percentual pequeno de pessoas nas idades mais avançadas. Portanto, a natalidade continua acima da mortalidade, embora a fecundidade esteja em torno de 1,8 filhos por mulher. Este é o fenômeno denominado “inércia demográfica”.

O que acontece no Brasil também acontece em boa parte do mundo. Mais da metade da população mundial já se encontra com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição. A china, o país mais populoso do mundo, adotou uma política draconiana de controle da natalidade e atualmente possui uma taxa de fecundidade de 1,6 filhos por mulher, mas a população chinesa só vai apresentar declínio a partir de 2030. Praticamente todos os países desenvolvidos possuem fecundidade abaixo de reposição e vários deles já apresentam declínio populacional.

Mas existem países e regiões que ainda possuem fecundidade acima da reposição. A Índia, que deve ultrapassar a China em número de habitantes, tem atualmente uma fecundidade de 2,6 filhos por mulher e só deve apresentar taxa abaixo do nível de reposição no quinquenio 2025-2030. A população indiana de um bilhão e duzentos e quatorze milhões (1.214), em 2010, deve passar para um bilhão e seiscentos e quatorze milhões (1.614), em 2050; acréscimo de 400 milhões de pessoas. A África possui um bilhão e 33 milhões (1.033) de habitantes, em 2010 e deve chegar a dois bilhões, em 2050; acréscimo de quase 1 bilhão de pessoas, em 40 anos. Isto acontece porque a taxa de fecundidade atual do continente africano é de 4,6 filhos por mulher e mesmo que esta taxa chegue a 2,1 filhos, em 2050, a população africana vai continuar crescendo, devido ao efeito da inércia demográfica.

Desta forma, mesmo que haja redução da gravidez indesejada e que exista universalização do acesso à saúde reprodutiva (meta 5B dos ODMs), a população mundial vai continuar crescendo até atingir um total próximo de 9 bilhões, em 2050. Este crescimento populacional vai ser acompanhado por um crescimento ainda maior da economia, especialmente nos países mais pobres. Se o PIB mundial crescer, em média, a 3,5% ao ano, vai quadruplicar em 4 décadas. Portanto, em 2050, teremos uma população mundial ao redor de 9 bilhões de habitantes e um PIB quatro vezes maior do que o de 2010. O impacto deste crescimento sobre o meio ambiente será enorme. Em 2005, a pegada ecológica global do ser humano já tinha superado em 30% a capacidade de autoregeneração do planeta. Como ficaremos então em 2050?

O quadro pode ser desolador se nada for feito. Desde já, é preciso reduzir o impacto das atividade humanas sobre o meio ambiente. Mas como a população e a economia vão crescer nos próximos 40 anos, a solução é crescer limpando o planeta e reduzindo o impacto das atividade antropogênicas sobre a natureza. Como fazer isto?

Diversas medidas precisam ser tomadas imediatamente:

  • Substituir a energia fóssil pela energia renovável e limpa (eólica, solar, geotérmica, hidroelétrica, biomassa, etc.), descarbonizando o planeta;
  • Incentivar a eficiência energética – por exemplo, trocar as lâmpadas incandescentes pelas lâmpadas frias e LED;
  • Reduzir as perdas de energia nas linhas de transmissão;
  • Reciclar, reutilizar e reaproveitar o lixo;
  • Reforçar e melhorar o transporte coletivo e usar energias renováveis nos meios de transporte;
  • Incentivar o vegetarianismo, diminuir o consumo de carnes e reduzir os impactos da agropecuária (com captura de metano, etc.);
  • Reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, outras substâncias tóxicas e incentivar os alimentos e bebidas orgânicas;
  • Introduzir inovações tecnológicas nos prédios e casas para melhorar o aproveitamento da energia e a reciclagem de materiais;
  • Criar empregos verdes;
  • Ampliar as áreas de florestas e matas e a preservação ambiental;
  • Proteger a biodiversidade;
  • Desestimular a cultura dos PETs Shops e o elevado consumismo dos animais de estimação;
  • Avançar com a aquacultura e a revolução azul;
  • Reduzir o consumo conspícuo e o consumo que provoca maiores danos ambientais; etc.

Esta lista de ações mostra que é possível o mundo crescer nos próximos 40 anos, com redução do impacto ambiental. Mas não é uma tarefa simples. Para crescer limpando a sujeira e revivificando o patrimônio ambiental é preciso um grande esforço das pessoas, das comunidades, das empresas e do governo. O desafio é grande, porém, os obstáculos não podem servir de álibi, mas sim como estímulos para se alcançar metas mais elevadas de qualidade de vida na e da Terra.

José Eustáquio Diniz Alves, colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; expressa seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves{at}yahoo.com.br

EcoDebate, 09/09/2010

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