Sustentabilidade na criação, artigo de Roberto Naime

[EcoDebate] O rápido crescimento populacional demanda um aumento na produção de alimentos em geral e de proteínas em particular. Na produção de proteínas, ocorre o maior aumento de produtividade de todo setor primário. Mas isto ocorre com a introdução de criações cada vez mais isoladas, extremamente suscetíveis (isto quer dizer que são populações animais que tem pouca resistência para doenças e outros eventos).

A resistência dos ecossistemas são proporcionais a quantidade de biodiversidade que compõe o ecossistema. Ou seja, quanto mais espécies constituem o conjunto de plantas e animais de um determinado espaço físico, maior será a resistência deste espaço a todo tipo de doença ou agressão.

Tanto para plantas como para animais, a monocultura reduz a quantidade de espécies num determinado meio e diminui a resistência do meio. As culturas indígenas já sabiam disto, pois em pequenos espaços plantavam várias espécies de plantas e mantinham criações de muitos tipos de animais juntos.

No atual estágio de mecanização agrícola ou de criação, a especialização não tem permitido esta diversidade, que é fundamental para manter a resistência do conjunto. Como conseqüência, ocorre um maior uso de antibióticos que é danoso para o animal e para o ser humano que vai consumir a proteína.

A maior parte dos ganhos de produtividade obtidos com manejo pode ser atribuído a técnicas sanitárias, uso de hormônios e complementos alimentares, cujos resultados na população humana ainda não são completamente avaliados.

Não existe possibilidade de ruptura com este sistema de produção, como com qualquer outro. Mas é evidente que seriam necessárias pesquisas e adaptações para tornar as criações menos suscetíveis e menos dependentes de técnicas sanitárias, antibóticos, hormônios ou aditivos alimentares.

Planejar estas mudanças certamente é mais conveniente do que solucionar problemas após eventos catastróficos. Exemplo é a gripe aviária. Já se leu e ouviu todo tipo de bobagem sobre este assunto. Já foi cogitado eliminar as aves migratórias para evitar o contágio e todo tipo de absurdo, como se as aves migratórias fossem as culpadas por transmitirem um vírus, que só se desenvolveu pela alta suscetibilidade e baixo equilíbrio dos ecossistemas nas criações.

Neste caso foi de aves, mas poderiam ser outras enfermidades em outros tipos de criação.

Mas o que realmente está em questão é a suscetibilidade das criações em monocultura eu nunca vi ninguém questionar isto. Modificações na forma de produção implicam em investimentos, modificações culturais, alterações nas taxas de retorno de investimento e uma série de conseqüências.

A chamada 2a Revolução Verde, cuja característica é o uso da biotecnologia, assinala um novo ciclo de crescimento para a cadeia do agronegócio e para a indústria de alimentos. É surpreendente a dimensão e rapidez com que esse processo ganha impulso. Entretanto, as conseqüências ainda são pouco avaliadas.

As dúvidas são grandes tanto entre produtores como consumidores. Estarão sendo gerados problemas futuros de saúde para a civilização ou benefícios para as populações humanas?

Roberto Naime, Professor no Programa de pós-graduação em Qualidade Ambiental, Universidade FEEVALE, Novo Hamburgo – RS, é colunista do EcoDebate.

EcoDebate, 25/08/2010

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2 comentários em “Sustentabilidade na criação, artigo de Roberto Naime

  1. Dr. Roberto.
    Desde os tempos do antigo Egito, a monocultura sempre se fex presente na história da humanidade. A biodiversidade tem sido ignorada de forma irresponsável. Como atingirmos um “status” ideal para que haja um eqüilíbrio entre a demanda e a Leis da Natureza? A humanidade segue o seu caminho em busca da sua sustentação alimentar e ambiental. Bovinos e soja, ovinos e trigo, reflorestamentos e…reflorestamentos. Assim é o momneto. Cabe a todos nós e em especial aos Mestres Educadores, nos orientar no caminhar de um mundo mais ecológico, enquanto há tempo.
    Atenciosamente.
    Médico Veterinário Romão Miranda Vidal. CRMV-PR-0039

  2. Bom dia,sou aluno do curso de Gestao Ambiental, IFPB campus Princesa Isabel-PB,seu artigo e muito bom,gostaria de saber se a caprinoculura de um ponto de vista ambiental,e uma alternativa viavel para o semi-arido?

Comentários encerrados.

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