A conta da devastação em Mato Grosso: Reflorestamento no Xingu II

Vamos à segunda parte da reportagem sobre a recuperação das matas na região das nascentes do rio Xingu. Você já imaginou plantar uma floresta de uma tacada só? Agora, você vai conhecer a muvuca, uma técnica para semear árvores usando plantadeira de capim e de soja.


É na sombra de um barracão construído no meio da aldeia que os índios ikpenges armazenam as sementes coletadas na floresta. Ao ar livre elas passam por um processo natural de secagem.

Tem semente de todo tipo: no formato de esponja, o tingui imitando um coração, castanhas e outras que parecem batata inglesa.

Para transportar o produto até a cidade Canarana o pessoal pega a única estrada da reserva: o rio Xingu. A viagem leva um dia inteiro.

Waengué e Oremé são os responsáveis pela comercialização do produto na cidade. Eles vendem tudo para a rede de sementes coordenada pelo Insituto Sócioambiental.

O biólogo Eduardo Campos, mostra onde o material é armazenado. “Nós temos um equipamento que tira a umidade e bem acondicionado, então a semente não mofa, fica seca e sem bicho, então a gente consegue guardar ela por muito tempo. Cada caixa tem uma espécie de semente”, explica.

Os técnicos trabalham com 160 espécies florestais. Numa parceria com a prefeitura de Canarana instalaram um viveiro, onde as sementes são selecionadas. As moles serão usadas na produção de mudas e as duras podem ir direto para a terra.

Eduardo diz que a semente do Angelim é uma das mais caras, porque é difícil de colher e de germinar. “Como ela tem a casca dura, a gente dá um choque térmico para germinar mais rápido. Põe na água quente e depois na fria. A casquinha dela que é bem dura, trinca e a água consegue penetrar, daí a semente começa a nascer em vinte dias, se não, poderia demorar de um a dois anos para ela nascer sozinha”, explica.

Anderlei Goldoni comprou sementes e mudas de quarenta espécies diferentes para reflorestar três hectares no entorno do rio que corta sua fazenda. Nós visitamos a área junto com os índios. O plantio tem dois anos e meio e muitas árvores já estão com três metros de altura.
Para o reflorestamento de pequenas áreas como a do Anderlei os pesquisadores recomendam o plantio de mudas. Mas para áreas maiores a técnica que está sendo testada é a muvuca de sementes.

Foram selecionadas 41 espécies nativas que serão plantadas de uma vez só. Elas tem um rápido crescimento, algumas delas são chamadas de pioneiras e tem outras espécies que crescem mais devagar e que vão formar a floresta do futuro.

A receita para plantar em meio hectare leva dois sacos de 60 quilos de terra de barranco e um de areia. A primeira semente da muvuca é o feijão de porco, uma leguminosa que não é nativa do Brasil. “Ela é fundamental nos primeiros seis meses a um ano da floresta, porque ela é uma espécie rasteira, mas que faz um sombreamento muito rápido. Ela tem a função também de descompactar o solo com as suas raízes e de trazer nitrogênio para o solo através das suas folhas que vão caindo e decompondo em cima da terra. Ela vai melhorando as propriedades físicas e químicas do solo”, esclarece.

Em seguida começa uma verdadeira salada de sementes de espécies florestais nativas. Tem até isca para formiga. “A gente não mata a formiga dos reflorestamentos, a gente coloca comida para elas, por exemplo o tamarindo que é uma semente que conseguimos fácil, então essa a gente usa bastante, porque germina bem e a formiga adora cortar”, diz.

A muvuca é colocada na caixa de adubo da plantadeira de soja. A área é experimental, os técnicos do Instituto Sócioambiental estão testando o plantio das sementes florestais com a plantadeira. A máquina é a mesma do plantio direto da soja e do milho. Ela rasga o solo e coloca a semente na cova.

Para completar o serviço homens espalham as sementes que não podem ser enterradas. São espécies que só germinam na flor da terra, como o tingui e os ipês.

Vemos o resultado numa área onde as sementes já germinaram. As folhas largas são do feijão de porco que sombreia outras mudinhas. “O plantio na área só tem três semanas, quando é possível ver as espécies que nascem mais rápido”, diz o biólogo.

Visitamos a fazenda Bang Bang que cria gado de corte e já plantou duzentos hectares de florestas usando a muvuca. Ao invés de terra eles usam serragem e adubo químico. O gerente da fazenda Anderson Araújo diz que o sistema é muito prático: economiza a mão de obra da produção de mudas e também do plantio.

A máquina que espalha as sementes é o tornado a mesma que eles usam para plantar capim. Atrás vai uma grade leve vai cobrindo tudo. “É impressionante a germinação rápida. Na nossa planilha o custo maior é o da cerca, embora este processo seja muito mais barato, a cerca é muito cara”, explica Luiz Castelo, agricultor.

Mas quem não lida com pecuária pode dispensar a cerca. Isso vale pra sementes e mudas. É o que acontece nesta fazenda que produz soja em Canarana. Os alunos da escola municipal estão reflorestando as margens do rio Queixada. A idéia de fazer o reflorestamento é deste garoto o Igor que convenceu o pai dele, o seu Sebastião Trovo a fazer o serviço.

Rodrigo Junqueira, do Instituto Sócioambiental diz que a junção dessas florestinhas ao longo dos rios vão acabar estabelecendo corredores que no futuro ligarão as áreas das fazendas com a floresta do parque indígena do Xingu.b “Ele vai permitir que a água que corre pra dentro do Xingu, possa correr com uma qualidade melhor e que não tenha nenhum risco de contaminação”, explica Rodrigo Junqueira, engenheiro florestal.

Hoje o Igor tem quinze anos – se o pessoal cuidar bem das mudinhas quando ele tiver o dobro da idade vai poder caminhar dentro da floresta que ajudou a plantar.

O parque indígena do Xingu, que está fornecendo as sementes para a recuperação das matas devastadas da região, é do tamanho de Sergipe. Não existe reserva de floresta contínua maior em Mato Grosso. É um tesouro que merece todo o cuidado para garantir o espaço dos índios e o patrimônio genético para as gerações futuras.

Vejam, ainda, as reportagens anteriores desta série:

A conta da devastação em Mato Grosso: Reflorestamento no Xingu I

A conta da devastação em Mato Grosso: Socorro às nascentes do Xingu (2)

A conta da devastação em Mato Grosso: Socorro às nascentes do Xingu (1)

Reportagem do Globo Rural, publicada pelo EcoDebate, 06/08/2010

[ O conteúdo do EcoDebate é “Copyleft”, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta clicar no LINK e preencher o formulário de inscrição. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

O EcoDebate não pratica SPAM e a exigência de confirmação do e-mail de origem visa evitar que seu e-mail seja incluído indevidamente por terceiros.

Um comentário em “A conta da devastação em Mato Grosso: Reflorestamento no Xingu II

  1. Otimas reportagens. O Projeto Amazonia Floresta Viva conseguiu produzir centenas de milhares de mudas de 240 espècies nativas diferentes e reconstituiu a cobertura vegetal nativa em muitas àreas indìgenas e em pequenas propriedades rurais incluindo os assentamentos do INCRA em Mato Grosso. A tècnica do ISA è a verdadeira maneira de reflorestar pois està procurando reestabelecer a biodiversidade diferenciando as espècies. Parabèns as amigos do ISA com quem jà trabalhamos juntos durante anos e com os quais batalhamos juntos contra a barragem de KARARAO’ ( hoje Belo Monte ). Em 1989 estava conosco tambèm Lula. Pena que hoje ele està do outro lado.
    Padre Angelo Pansa.

Comentários encerrados.

Top