Declínio da população de fitoplâncton ameaça cadeia alimentar marinha

O declínio secular de algas minúsculas, denominadas fitoplâncton, pode comprometer a cadeia alimentar nos oceanos, inclusive o consumo humano de pescado, revelou um estudo [Global phytoplankton decline over the past century, Daniel G. Boyce, Marlon R. Lewis & Boris Worm, doi:10.1038/nature09268] publicado esta quarta-feira na revista científica Nature.

Os organismos microscópicos, que são a base da vida animal marinha, de camarões a baleias, estão desaparecendo em todo o mundo à taxa de 1% ao ano, afirmaram cientistas. Desde 1950, a massa de fitoplâncton despencou em cerca de 40%, provavelmente por causa do impacto acelerado do aquecimento global, ressaltaram.

“O fitoplâncton é o combustível que move os ecossistemas marinhos”, disse o principal autor do estudo, Daniel Boyce, professor da Universidade Dalhousie, na província canadense da Nova Escócia. “Um declínio afeta toda a cadeia alimentar, inclusive os humanos”, afirmou. Reportagem da AFP.


O ritmo deste declínio, maior nas regiões polares e tropicais coincidiu com o ritmo com que se aquecem as temperaturas da superfície dos oceanos, como resultado das mudanças climáticas, acrescentou o estudo.

Como todas as plantas, o fitoplâncton precisa de luz do sol e nutrientes para crescer.

Mas oceanos mais quentes ficam mais estratificados, criando uma “zona morta” na superfície, aonde menos nutrientes chegam das camadas mais profundas.

Segundo os cientistas, as descobertas são preocupantes.

“O fitoplâncton é uma parte crítica do nosso sistema de suporte planetário – ele produz metade do oxigênio que respiramos, reduz o dióxido de carbono na superfície e, por fim, sustenta toda a indústria pesqueira”, explicou Boris Worm, co-autor do estudo.

Boyce e seus colegas combinaram dados históricos e de alta tecnologia para medir a redução progressiva das minúsculas algas.

Satélites forneceram as medições mais precisas, no entanto, imagens utilizáveis do espaço feitas da biosfera oceânica terrestre só se tornaram disponíveis a partir do fim dos anos 1990, um período muito recente para demonstrar tendências de longo prazo.

Para permitir a viagem no tempo, Boyce e seus colegas compilaram registros desde o fim do século XIX, usando um disco branco de 20 centrímetros colocado dentro do mar a uma profundidade tal que o observador o perdesse de vista.

Ocorre que o grau no qual a luz penetra na camada superior do oceano é uma boa medida da concentração de clorofila encontrada no fitoplâncton.

O estudo “não faz um bom prognóstico de ecossistemas pelágicos ou ecossistemas de mar aberto em um mundo que, provavelmente, ficará mais quente”, ressaltaram, em um comentário David Siegel, cientista da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e Bryan Franz, biólogo oceânico do Centro de Voos Espaciais Goddard da Nasa.

Em um estudo separado [Global patterns and predictors of marine biodiversity across taxa, Derek P. Tittensor, Camilo Mora, Walter Jetz, Heike K. Lotze, Daniel Ricard, Edward Vanden Berghe, Boris Worm, Nature (28 July 2010) doi:10.1038/nature09329 Letter], também publicado na Nature, uma equipe de cientistas chefiada por Derek Tittensor, também de Dalhousie, descobriu um vínculo estreito entre as temperaturas marinhas e a concentração de biodiversidade dos oceanos.

Em mais de onze mil espécies, de zooplâncton a baleias, o único fator ambiental vinculado a todas as espécies é a temperatura.

“Este vínculo sugere que o aquecimento dos mares, como o provocado pela mudança climática, pode rearranjar a distribuição de vida marinha”, disse Tittensor em um comunicado.

Reportagem da AFP, no UOL Notícias.

EcoDebate, 29/07/2010

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