Para que existe o comércio de carbono? artigo de Chris Lang

Patrick Birley, o diretor executivo da European Climate Exchange (Bolsa européia do clima), sabe algumas coisas sobre o mercado do carbono. Ele deveria saber. Ele alega que aproximadamente 95 por cento de todo o carbono comercializado no mundo é comercializado através de sua bolsa. Portanto, quando ele fala sobre os mercados de carbono, faríamos bem em escutá-lo

Eis aqui o que ele tem a dizer sobre o mercado de carbono: “Não reduz nem uma tonelada de carbono liberada na atmosfera. Não tem nada a fazer com isso. Trata-se do limite máximo. O limite máximo é o mecanismo que produz um volume menor no longo prazo do carbono que vai para a atmosfera.”

Esse não é o discurso de um anarquista, um antiglobalização, um antimercado. É o diretor do European Climate Exchange, que discursa na Irlanda em novembro de 2009 em um evento organizado pelo Instituto de Assuntos Europeus e Internacionais. Mas, se o mercado de carbono não reduz as emissões de carbono, para que é que ele serve?


Infelizmente, nesse ponto a apresentação de Birley foi um pouco imprecisa. “Há pessoas que estão ganhando e perdendo dinheiro,” ele explicou. Com certeza, ele é um dos que está ganhando dinheiro. Obviamente, eu sou uma empresa lucrativa que visa ter tantos benefícios para meus acionistas quanto for possível e não fico envergonhado por isso.”

Mas a comercialização de carbono não implica só ganhar dinheiro. Depois de repetir que sua empresa não faz nada para reduzir o volume de carbono liberado na atmosfera, Birley disse “Estamos ajudando a aqueles que estão reduzindo suas emissões de carbono a lidar com os riscos associados.”

Em um slide da apresentação intitulada “Quem é o mercado?” Birley lista quatro grupos: compensadores de compromisso, investidores, árbitros e especuladores. Alguém se lembra da crise decorrente do não pagamento das hipotecas? Não foi desencadeada justamente por esses grupos que fazem dinheiro lidando com o risco de outras pessoas com o dinheiro de outras pessoas?

No início deste ano, entrevistei Jeff Horowitz, fundador da Avoided Deforestation Partners, uma organização com base nos EUA que está pressionando para que a compensação florestal seja incluída na legislação climática dos EUA. Perguntei a ele por que ele favorecia o mercado de créditos de carbono florestal quando eles não reduziam nem podiam reduzir as emissões. Em cinco longos parágrafos, a única resposta foi argumentar que “sem a capacidade de impulsionar compensações REDD confiáveis e ecologicamente fortes, as metas de redução atingíveis por aqueles que fazem as políticas seriam bem menores” Patrick Birley também espera que o mercado de carbono “fará com que a indústria seja mais capaz de aceitar uma redução mais escalonada em termos do limite.”

No entanto, quando observamos o limite, há pouca ou nenhuma evidência que apóie esse argumento. Durante o fiasco das negociações sobre o clima das Nações Unidas em Copenhague no final do ano passado, os EUA e um punhado de outros países presentearam ao mundo com o Acordo de Copenhague. O acordo menciona os projetos REDD, mas os redatores do acordo tomaram o já fraco limite do protocolo de Kioto e o chutaram tão cheio de buracos que ficou praticamente irreconhecível como limite. Uma análise feita pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research publicado pelo Journal Nature em abril revelou que: “as promessas de redução atual em nível nacional conforme o Acordo de Copenhague não limitarão o aquecimento global a dois graus Celsius. De fato, implicam um aumento da temperatura global de mais de três graus Celsius neste século.”

As indústrias poluidoras são, pelo menos às vezes, muito honestas sobre seus motivos para apoiar o mercado de carbono. A American Electric Power (AEP) é a empresa que mais queima carvão nos EUA. Em 2008, Diane Fitzgerald, diretora executiva de meio ambiente e segurança da AEP, explicou à Time magazine, “Nós vamos comparar as compensações florestais a projetos como a energia renovável, e nós deveremos tomar a melhor decisão em termos financeiros.”

Um ano depois, Michael G. Morris, chefe executivo da AEP, disse ao Washington Post, “Quando o Greenpeace diz que a única razão pela qual a American Electric Power quer fazer isso é porque não quer fechar suas usinas de carvão, minha resposta é, ‘Com certeza, porque nossas usinas oferecem a nossos clientes carvão rentável’” A indústria quer o mercado de carbono e por isso não tem que reduzir emissões. Ao mesmo tempo, a indústria poluidora pode aparentar que faz algo ao comprar créditos de carbono.

Espera-se que essa comercialização de uma mercadoria que ninguém pode ver gere um mercado de US$3 trilhões até 2020. Isso se o mercado não colapsar completamente antes. A fraude de US$ 7 bilhões que foi recentemente desvelado na União Européia ilustra o potencial para o crime organizado envolvido. O comércio de carbono não reduzirá as emissões, mas permitirá que a indústria detenha a tecnologia poluidora.

Se nós pudéssemos ver reduções de emissões significativas, um fim para a exploração de novos combustíveis fósseis, um fim para novas usinas energéticas sem uso de carvão e uma mudança estrutural para a produção de energias renováveis talvez a comercialização de carbono seria algo secundário. Enquanto seja assim não podemos ver nenhuma dessas três coisas acontecendo e o comércio de carbono está ajudando a indústria a continuar com seus negócios como sempre. Para isso, e para ganhar dinheiro é que existe a comercialização de carbono.

Por Chris Lang

Artigo socializado no Boletim número 155 do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais e publicado pelo EcoDebate, 07/07/2010

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