Grãos perenes, a próxima revolução na agricultura

Trigo perene. Foto: WSU
Trigo perene. Foto: WSU


Entrevista com o pesquisador Kevin Murphy, da Washington State University (WSU).

[Por Henrique Cortez, para o EcoDebate] Lavouras de grãos perenes, que crescem com menores quantidades de fertilizantes, herbicidas, combustível e menor erosão do solo do que os grãos plantados anualmente, poderiam estar disponíveis em duas décadas, de acordo com estudo [Increased Food and Ecosystem Security via Perennial Grains] publicado na revista Science.

O desenvolvimento de grãos perenes seria uma das maiores inovações na história da agricultura, mas ainda depende pesquisas e investimento nos atuais programas de melhoramento das espécies potencialmente promissoras.

A questão é delicada e polêmica, em termos de economia global baseada na exportação de produtos agrícolas e enfrenta resistências na agroindústria e na indústria agroquímica. Os autores do estudo destacam que grãos perenes poderiam ampliar a capacidade dos agricultores em sustentar as bases ecológicas de suas colheitas.


Ao mesmo tempo, poderiam oferecer uma proteção e um estímulo adicional à plena utilização de terras marginais, em risco de serem degradadas pela produção anual de grãos.

“As pessoas falam sobre a segurança alimentar”, diz John Reganold, professor e pesquisador da Washington State University (WSU). “Isso é apenas metade do problema. Precisamos falar tanto da segurança alimentar e do ecossistema.”

Os grãos perenes, dizem os autores, têm períodos de crescimento maiores do que as culturas anuais e suas raízes são mais profundas, o que permite às plantas tirarem o maior partido da precipitação. Suas raízes maiores, que podem chegar de 3 a 4 m. de profundidade, reduzem a erosão, são mais eficientes em relação ao aproveitamento dos nutrientes no solo, ao mesmo tempo em que tendem a sequestrar maior quantidade de carbono da atmosfera.

Por serem perenes também exigem menos passagens de equipamentos agrícolas e menos herbicidas. Em termos comparativos, os grãos anuais podem desperdiçar cinco vezes mais água que as culturas perenes e 35 vezes mais nitrato, um nutriente importante para as plantas, que pode ‘migrar’, a partir de campos, para os cursos d’água, contaminando a água potável e criando “zonas mortas” em águas de superfície.

“O desenvolvimento de versões perenes, de nossa produção de grãos, resolveria muitas das limitações ambientais das culturas anuais, ajudando a alimentar um planeta cada vez mais faminto”, diz Reganold.

A pesquisa para o desenvolvimento de grãos perenes está em curso na Argentina, Austrália, China, Índia, Suécia e Estados Unidos.

Os autores afirmam, ainda, que as pesquisas em grãos perenes poderiam ser aceleradas com mais recursos, pesquisadores, terra e tecnologia em programas de melhoramento. Defendem um esforço de pesquisa semelhante ao atualmente despendido na base biológica de combustíveis alternativos.

Increased Food and Ecosystem Security via Perennial Grains
J. D. Glover, J. P. Reganold, L. W. Bell, J. Borevitz, E. C. Brummer, E. S. Buckler, C. M. Cox, T. S. Cox, T. E. Crews, S. W. Culman, L. R. DeHaan, D. Eriksson, B. S. Gill, J. Holland, F. Hu, B. S. Hulke, A. M. H. Ibrahim, W. Jackson, S. S. Jones, S. C. Murray, A. H. Paterson, E. Ploschuk, E. J. Sacks, S. Snapp, D. Tao, D. L. Van Tassel, L. J. Wade, D. L. Wyse, and Y. Xu
Science 25 June 2010: Vol. 328. no. 5986, pp. 1638 – 1639
DOI: 10.1126/science.1188761

Por Henrique Cortez, do EcoDebate, 29/06/2010, com informações de Eric Sorensen, Washington State University

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4 comentários em “Grãos perenes, a próxima revolução na agricultura

  1. Mesmo sem os grandes investimentos e com pressão contrária das indústrias agroquímicas, a pesquisa para melhoria da segurança alimentar e ambiental persiste e desejo que alcançe seus objetivos. Sendo o Brasil o maior consumidor mundial de agrotóxicos seria muito importante que incorporasse também estas pesquisas nas suas universidades e na várias unidades da EMBRAPA com programas específicos de incentivo, como já ocorre no caso da produção de etanol e de biodisel.

Comentários encerrados.

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